Artistas manifestam-se contra decisão da Secom

Além de Cacá Diegues, Caetano Veloso, Chico Buarque, Ferreira Gullar, Marieta Severo e Luiz Carlos Barreto, entre outros, posicionaram-se contra a nova política de patrocínioPor Sílvio Crespo
05/05/2003

A decisão da Secom (Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica) de orientar as empresas estatais a adotarem a ?contrapartida social? como um dos critérios de seleção para projetos culturais pode se tornar um divisor de águas no comportamento dos artistas em relação ao governo federal: pela primeira vez, desde o início da nova gestão, a classe parece estar realmente unida em relação a uma causa. No último sábado, dia 3, o cineasta Cacá Diegues chamou essa política de ?dirigista? e ?destrutiva da retomada do cinema?, em entrevista a O Globo. Para ele, mudar as regras de financiamento no momento em que o cinema brasileiro vive uma notável ascensão, pode interromper o caminho que vem sendo trilhado. Depois das suas declarações, o cineasta recebeu apoio de inúmeros artistas.

Fome Zero e reforma agrária
Segundo o jornal, o compositor Chico Buarque, que no ano passado fez campanha para o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, telefonou para Cacá apoiando suas declarações. De acordo com O Globo, Ferreira Gullar, Fernanda Montenegro, Edino Kriegger, Luís Áquila, Caetano Veloso, Miguel Falabella e Marieta Severo e parte expressiva da classe artística devem oficializar sua posição nesta terça-feira, dia 6. Caetano afirmou em O Globo que as exigências das estatais ?sugerem um dirigismo temático e estilístico insuportável?.

O produtor de cinema Luiz Carlos Barreto disse ao jornal O Estado de São Paulo que a medida deve resultar em uma ?picaretagem cultural?, pois ?um monte de gente vai começar a fazer projetos sobre reforma agrária e o Fome Zero para conseguir patrocínio?. A recém-eleita imortal da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, também se manifestou favoravelmente a Cacá, em O Globo.

Outro lado
A Secom divulgou nota oficial dizendo que reconhece ?o papel altamente relevante do cinema nacional? e que ?não está ou estará orientando as empresas estatais patrocinadoras a interferirem no conteúdo das ações culturais?. ?As decisões de patrocínio das empresas estatais seguem, antes de mais nada, critérios mercadológicos de fortalecimento e critérios de bom uso dos recursos públicos. Neste último caso, está, sim, em debate, a adição de critérios que estimulem o reforço do interesse público naquelas ações patrocinadas?, diz o documento.

?De um lado, procura-se democratizar e descentralizar a distribuição de recursos de patrocínio, como corretamente defende o cineasta Cacá Diegues em sua entrevista. Num sentido complementar, busca-se ampliar o acesso da população mais carente aos produtos culturais e esportivos que são viabilizados por meio de recursos públicos?, diz a Secom.

A nota acrescenta que ?tais critérios buscam estimular uma nova atitude, tanto das estatais como dos patrocinados, mas não são impeditivos da aprovação de patrocínios que neste momento não os adotem. Em nenhuma circunstância os critérios implicarão qualquer forma de interferência no conteúdo da produção cultural?.


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