Muita gente não curtiu a última sexta-feira 13 de Ed Motta. Ele passou a data, duas semanas atrás, digitando no Facebook comentários nada simpáticos sobre Paula Toller, Caetano Veloso e boa parte do povo brasileiro (“feio”) – exceção para Sul e São Paulo (“gente bonita”). O cantor se desculpou no mesmo dia, mas foi grande o susto dado nos 4.976 amigos que tem no site de relacionamentos. Afinal, uma eventual interrupção de postagens, por desânimo ou protesto, significaria o fechamento de um canal privilegiado de transmissão de informações musicais.
“Eu uso o Facebook como se fosse uma rádio de raridades, onde compartilho minhas pesquisas e meus gostos. O que faço, quase o dia inteiro, é uma ode aos artistas obscuros do mundo. Isso está aberto para todos comprovarem”, orgulha-se Ed, antes de fazer uma ressalva: “O Facebook eu fechei (para quem não é seu amigo na rede)”.
O cantor é um dos guias culturais do Facebook. São pessoas que, muito mais do que registrar fatos da vida pessoal ou participar de discussões sobre o que está em voga no noticiário, usam a rede social para compartilhar materiais relacionados a temas que conhecem bem. Tornam-se, então, chamarizes para quem quer saber ou falar sobre um determinado assunto.
“Essa prática de segmentar o perfil por seleção de conteúdo acaba sendo vista como uma tendência benéfica e que facilita a busca de informações sobre assuntos específicos. Isso faz com que o perfil ganhe um status de referência, praticando uma espécie de curadoria daquele conteúdo”, afirma a jornalista Adriana Amaral, professora da gaúcha Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e autora de livros sobre cultura digital, além de ser casada com um guia cultural do Facebook, Gorpo Fabrício Castro, conhecedor de música eletrônica.
Ed Motta publica faixas que seleciona em sua coleção de quase 30 mil discos, além de vídeos e áudios que localiza no YouTube e em outras páginas. Há samba, soul, reggae, trilhas de filmes e muito jazz. “Jazz russo, francês, búlgaro, romeno, egípcio, japonês, italiano, argentino, peruano e por aí vai. Se estou em casa escutando um LP do baixista romeno Johnny Rudacanu, isso já é motivo de correr para as redes sociais e compartilhar. Aí posso também comentar os jazzistas romenos Ion Baciu e Aura Urcizeanu, por exemplo”, diz Ed, que também escreve sobre quadrinhos e vinhos.
A especialidade do ator, cantor e versionista Claudio Botelho é a canção popular americana, sobretudo a do teatro musical, gênero no qual é um dos principais nomes brasileiros. Ele está acostumado a, antes de dormir (“É uma terapia”), vasculhar o YouTube e o BlueGobo – site exclusivo de musicais – em busca de raridades como Judi Dench numa montagem de 1968 de “Cabaret” e Nina Simone cantando “My way”, além de vídeos de ídolos seus como Judy Garland, Liza Minnelli, Bobby Darin e Jonathan Pryce. Ele compartilha tudo com uma introdução explicativa.
“Não me interessa o café da manhã de ninguém. Então, não escrevo ‘acabei de chegar’, ‘adoro vocês’. Quem acompanha é quem gosta de musicais. Noutro dia, pus Chico Buarque cantando ‘Basta um dia’ e ninguém comentou”, conta Botelho, 2.297 amigos.
O músico Luís Filipe de Lima prioriza os brasileiros, em especial vídeos de artistas pouco conhecidos. Em alusão a seu instrumento, o violão de sete cordas, ele costuma anteceder a apresentação de raridades com a vinheta “Seven Strings Channel orgulhosamente apresenta”. “As pessoas já se divulgam muito hoje em dia. Então, prefiro coisas mais antigas. E a rede de amigos ainda permite complementar as informações, como saber quem estava tocando pandeiro em tal vídeo. Até já me convidaram para trabalhos via Facebook, mas eu o uso como a hora do recreio. Não tomo cafezinho, não fumo, espaireço procurando os vídeos”, conta ele, que tem 2.296 amizades.
OS ‘CURADORES’ E SEUS TEMAS
Ed Motta – Música em geral, especialmente jazz, e um pouco de quadrinhos e vinhos
Claudio Botelho – Música popular americana, sobretudo a dos musicais de teatro
Luís Filipe de Lima – Samba, choro, um pouco de brega. Preferência por vídeos antigos
Carlito Azevedo – Poemas de todo o mundo, boa parte deles de autores pouco conhecidos
Octavio Aragão – Destaque para ficção científica e quadrinhos, mas também há literatura em geral e História
Alisson Gothz- Cultura glam, com vídeos de cantores como David Bowie e Boy George, além de novidades
Ricardo Lopes – Grupos do chamado synthpop, como Depeche Mode, New Order e outros recentes, inclusive brasileiros
Fernando Rabelo – Fotografias de todos os estilos, com explicações sobre como foram feitas e quem são os fotógrafos
*Com informações do jornal O Globo Online