As novas como as velhas mídias

Acabo de chegar ao Congresso Brasileiro de Cinema, que agora tem Audiovisual no nome.  A noite fria de Porto Alegre não traduz o clima da sala de debates. Peguei apenas a última mesa da noite e saí antes do fim, a tempo de escrever essas linhas aos leitores de Cultura e Mercado.

A forma tradicional de discutir, as referências aos mestres, aos sistemas e aos poderes estabelecidos são marcas registradas do mais corporativo dos setores culturais. À mesa amontoavam-se 8 participantes para discutir “O audiovisual no Brasil hoje: TVs, Novas Mídias e Convergências Digitais”, tema que já virou um dos assuntos prediletos deste site.

Roberto Farias foi o primeiro a falar. Se referiu a TV e Internet e Novas Mídias como “caixas pretas” e falou da dificuldade de se estabelecer uma relação direta entre cinema e as outras mídias, a começar pela televisão. Silvio Da-Rin, em seguida, fez uma bela explanação sobre o pecado original, referindo-se ao modelo de implementação da TV brasileira, que se apropriou de linguagens e tecnologias do rádio e não do cinema, que tinha uma forte indútria no Brasil nos anos 40 e 50 e era a maior diversão popular naquele período. E explanou, antes de fazer uma longa propaganda dos feitos da TV Brasil, de como é difícil reestabelecer essa convergência, depois de tantas tentativas frustradas e algumas poucas bem-sucedidas.

Financiamento não era o tema da mesa, mas parece ser o problema maior do cinema no Brasil. Surgiu em forma de desabafo e de crítica ao sistema governamental vigente. Roberto Farias confessou estar há muito tempo sem filmar, assim como outros colegas ilustres, pois não se adequa à lógica dos editais.”O cinema brasileiro sempre foi livre, arrojado”, não combina com a proposta “enquadrante” e burocrática dos editais.

No dia anterior o secretário Newton Cannito chegou a falar da ineficácia do sistema de editais: “alguém imagina o Tim Burton concorrendo a  um edital?” e agora o próprio Cannito havia dito que a indústria do cinema estava alimentando outra indústia, a reprográfica, referindo-se à burocracia estatal.

A necessidade de revisão do financiamento parece ser a grande tônica do Congresso, nos corredores e no auditório. Para Nelson Hoineff, também presente à mesa, o financiamento é a espinha dorsal do audiovisual e não pode se dar somente como um balcão de negócios. Silvio Da-Rin contestou Hoineff, dizendo que agora o sistema é mais democrático e transparente.

Hoineff foi enfático ao abordar a necessidade de se pensar a produção numa lógica multiplataforma. E criticou as iniciativas governamentais de impedir a utilização de um filme em outros suportes, sobretudo os digitais. Teresa Trautman deu ênfase ao percurso negocial entre todas as janelas e plataformas do audiovisual, do cinema à TV aberta, cabo e video on demand.

Amanhã trago o desfecho dessa discussão e os demais temas do último dia de Congresso. Até lá!

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