Bandalargar uma cidade, ou um país, resignificando a relação do fazer cultural e seus sentidos do conhecimento, significa experimentar ambientes que garantam o controle público para uma cultura livre.
Quando tentamos desenhar políticas culturais contemporâneas, um bom começo é rediscutir a noção comum de acesso. Permeou-se no Brasil até os anos 90 a idéia de levar cultura onde o povo está, explorando apenas as características difusionistas de massa da cultura, amplificada pela lógica da cultura de bom negócio. Hoje, o diálogo e o intercâmbio das expressões, preservando-os e protejendo-os, são considerados fundamentais para a construção da diversidade.
Acesso então, segundo Marta Porto (Cultura Para A Política Cultural – Coleção CULT UFBA), é promover o diálogo de culturas em contextos de igualdade e cooperação, disponibilizando a todos as mesmas condições para participar da vida pública, imprimindo transparência à disputa por recursos. Um acesso desigual aos meios de expressão cultural implica não somente uma negação do reconhecimento cultural, mas algo que afeta seriamente o sentimento de pertencimento de indivíduos e comunidades à sociedade do conhecimento, ou a sua exclusão dela.
Eduardo Galeano diria que “a maquinaria da igualação compulsiva atua contra a mais bela energia do gênero humano, que se reconhece em suas diferenças e através delas se vincula”.
A convergência tecnológica imprime novos ares à discussão, acerca da apropriação das ferramentas da comunicação e da informação para atingir esse ambiente de diversidade cultural. Não é o lançamento de um longa no cinema produzido em cybershot que mostra a tendência e a necessidade. O lançamento de “Os Quatro Elementos em Si ou O Guru Selvagem” prova apenas que o mercado se rende às experimentações das periferias tecnológicas.
Não é à toa que Central da Periferia está no Fantástico e o Calypso e o Funk, no Caldeirão do Huck. A fila de vídeos de inscritos para o Big Brother Brasil no Youtube também tem muito a dizer. O caldeirão da diversidade encontra espaço no infinito aberto do mundo digital, e a indústria acostumada a pautar, acaba por vezes sendo pautada. A inclusão, no entanto, ainda é para poucos. Pelo menos por enquanto.
Na onda de unificar a sua pauta política, a do ministro, a sua turnê musical, da tal Banda Larga, Gilberto Gil esteve nesta segunda-feira (dia 10) em Piraí (RJ). O projeto Piraí – Município Digital, desenvolvido pela Prefeitura Municipal, conseguiu disponibilizar à população local uma rede pública de transmissão de voz, dados e imagem. Com a iniciativa, os 22 mil habitantes da cidade conseguiram acesso gratuito à Internet Banda Larga.
De caráter inédito no país, o projeto chamou a atenção do ministro Gilberto Gil, que vai à cidade acompanhado por outras autoridades para conferir a experiência, participar de debate sobre Banda Larga e inaugurar o Ponto de Cultura Gente de Nossa Terra, que integra a rede das 682 instituições no Brasil que já firmaram convênio com o Programa Cultura Viva.
O coordenador de Políticas Digitais do Ministério da Cultura, Cláudio Prado, em entrevista à Agência Brasil, diz que a banda larga viabiliza a diversidade, as minorias, as questões e espécies culturais que estão em extinção. Essa revitalização, esse renascimento dessas possibilidades se dá através da banda larga.
“O centro do mundo deixa de ser geográfico. Você passa a estar no centro do mundo se estiver plugado e usar de forma plena a interatividade que isso te possibilita. O cyberespaço é um território realmente democrático e novo onde a informação, a oxigenação, a percepção, as novas questões, podem lhe ser oferecidas ali onde você está. Essa é a compreensão que nós temos da possibilidade cultural da banda larga”, explica Prado.
Além disso, a Banda larga seria essencial para a cultura, mais do que para qualquer outra coisa, porque outras coisas podem trafegar em banda menores. Somente a cultura, conforme Prado, tem caminhões pesados do ponto de vista de bits e bytes, porque a cultura trafega audiovisual que precisa de banda, trafega imagem, música, que seriam as grandes demandas de largueza da banda.
Os processos analógicos criaram ambientes e cadeias de distribuição que são gargalos para toda a nossa diversidade. O que impede a diversidade de existir é a divulgação, a difusão, a circulação, a distribuição da informação cultural. Bandalargar uma cidade, ou um país, resignificando a relação do fazer cultural e seus sentidos do conhecimento, significa experimentar ambientes que garantam o controle público para uma cultura livre.
Os Editores