A exportação da produção brasileira foi destaque nesta edição do Mipcom, em vários momentos do evento
A semana de atividades do Mipcom realizada em Cannes, na França, esta semana, de 17 a 21 de outubro, deu destaque em vários pontos do evento à produção brasileira. Na temática da festa de abertura ba segunda-feira, 17, impressa nas músicas, na decoração, na bandeira do Brasil estilizada, como logotipo da Brazilian TV Producers (BTVP), ou ainda, na existência de uma sala VIP destinada apenas aos brasileiros e seus convidados, na condição de patrocinadores oficiais, lá estava a identidade brasileira, também referenciada com destaque nas escadas do Palais des Festivals e em todo o material impresso do Mipcom, como programas e plantas.
A associação dos produtores independentes de TV (ABPI-TV) trabalha o projeto de exportação da produção brasileira internacionalmente com o nome BTVP. Nesta edição do Mipcom eles expõem seus produtos no pavilhão contando com um estande de 130 m2, depois da participação em outros eventos internacionais como o Sunny Side of the Doc e a NATPE. A Record e a Globo também marcaram presença, com foco na exportação de novelas, especialmente, além de outras produções oferecidas ao mercado internacional.
Passaram pelo estande o Ministro Gilberto Gil; o secretário do Audiovisual, Orlando Senna; os presidentes da TV Cultura, Marcos Mendonça, da Record, Alexandre Raposo, da TVE, Beth Carmona, da RedeTV!, Amilcare Dallevo e executivos da Globo, Bandeirantes e Globosat.
O Ministro Gilberto Gil defendeu a idéia de uma agência única para regular a mídia e as comunicações, apesar da resistência de alguns grupos. Segundo ele o mercado vai perceber esta necessidade “em dois, três ou cinco anos”. Em entrevista à imprensa internacional, declarou que a idéia da agência única e da Lei Geral de Comunicação, gera divisões, e que os atores dos velhos modelos querem manter o status quo. “Mas em alguns anos teremos um tamanho desenvolvimento no audivisual brasileiro que todos teremos que ir para esse caminho. Quando se vir que os grandes grupos internacionais poderão sufocar os grupos locais, a agência será uma realidade”. O ministro disse ainda, que o tema vem sendo tratado pelo governo em um grupo formado pelo MinC, Casa Civil e Comunicações.
Já o presidente da ABPI-TV, Marco Altberg, lembrou a falta de regulamentação da TV no Brasil: “Estamos construindo uma democracia no País, e isso passa pela TV”, disse.
Durante o painel sobre o mercado brasileiro, Gilberto Gil se posicionou em relação ao projeto da Ancinav, declarando que “Fomos acusados de dirigismo. Por falta de aprofundamento, análise e visão. O futuro recuperará a nossa iniciativa junto à sociedade brasileira”. A oportunidade de discutir a dimensão conceitual da produção no Mipcom foi contemplada pelo ministro, que avaliou o mercado brasileiro vulnerável diante dos desafios. Para ele, “o Brasil passa por um reposicionamento, e parte da política do Ministério da Cultura para a TV e cinema é dar apoio à exportação”, lembrando que se trata de programas transversais. Sobre a atitude inédita de o MinC participar de eventos internacionais como o Mipcom, assim como do debate sobre programação de TV, Gil declarou que o governo atual está atento a estas questões “criando políticas públicas nessa área, unindo todos os envolvidos”, acrescentando que na TV brasileira “é pouco clara a diferença do papel do produtor e do distribuidor na TV comercial, e o ambiente e o momento são próprios para começar a mudar isso”.
O MinC é um dos parceiros e principais patrocinadores do projeto de exportação de produção televisiva capitaneado pela ABPI-TV.
“O Brasil sabe fazer TV, o que está provado através de suas telenovelas e minisséries” disse Orlando Senna, secretário do Audiovisual, durante a abertura da seção especial da produção audiovisual nacional, na terça-feira, dia 18, no Mipcom. O painel contou com a presença de profissionais brasileiros, executivos e representantes de todas as grandes redes nacionais, exceto o SBT, que assistiram aos pronunciamentos da Secretaria do Audiovisual, da Rede Globo, Rede Record, Abepec (a associação brasileira das emissoras públicas e educativas), ABPI-TV e Ancine.
Orlando Senna falou com otimismo sobre o mercado audiovisual brasileiro, que segundo ele, pode ser dez vezes maior do que seu tamanho atual, “e é neste sentido que trabalha o governo, na elaboração de políticas públicas, e atuando para que os produtores nacionais trabalhem em sinergia com países de língua portuguesa”.
Para Jorge da Cunha Lima, da Abepec, falou do diferencial entre a TV comercial e a estatal, como as legislativas, por exemplo. De acordo com ele, a TV pública pode ter idéias que não cabem nas demais e o mercado internacional “vai se cansar de ver sempre o mesmo em todos os lugares”. O papel da TV pública seria o de fomentar a diversidade e a identidade cultural. “O primeiro governo que compreendeu a política cultural da comunicação foi o que tem Gilberto Gil como ministro”, concluiu.
Marco Altbertz, presidente da ABPI-TV, explicou que o modelo de televisão no Brasil, verticalizado, limita o conteúdo que exibe, e conseqüentemente a produção. Por outro lado, lembrou que a diversidade étnica, cultural e de locações, a qualidade da mão-de-obra e os custos relativamente baixos, além da legislação favorável e dos incentivos fiscais são pontos favoráveis para a produção nacional. Altberg falou ainda, que o projeto de produção internacional da ABPI-TV, que previa gerar receitas de US$ 6 milhões em dois anos, conseguiu fazer US$ 8,9 milhões apenas no primeiro ano.
O presidente da Ancine, Gustavo Dahl, conceituou o cinema como “o vértice da pirâmide do audiovisual, cuja base é a TV”, explicando que os mecanismos de incentivo já investiram, em dez anos, cerca de US$ 650 milhões no setor. O resultado disto, segundo ele, é a produção de cem títulos, aproximadamente, em curso no Brasil.