Entre os dias 7 e 10 de outubro, o Brazilian TV Producers (BTVP) – projeto setorial de exportação de conteúdo audiovisual apoiado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) em parceria com a Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPITV) – esteve pela 10ª vez no MIPCOM, a maior feira de conteúdo de entretenimento do mundo, em Cannes, na França.
A procura de empresas brasileiras interessadas em ir ao evento superou as expectativas do BTVP, que precisou ampliar sua área de exposição na feira. Um estande de 148m2 recebeu 43 empresas, representadas por 74 profissionais, de diversas regiões do Brasil – um aumento de 21% no número de empresas e de 45% no número de pessoas – a maior delegação da história do projeto.
Foram promovidos encontros e diversas ações de relacionamento estratégicas para as produtoras brasileiras em mais de 50 rodadas de negócios com empresas argentinas, catalãs e britânicas.
Em entrevista ao Cultura e Mercado, Rachel do Valle, gerente do BTVP, falou sobre a participação brasileira no evento, a dinâmica das rodadas de negócios e as relações com Argentina e África do Sul.
Cultura e Mercado – Este foi o décimo ano que o Brazilian TV Producers esteve no MIPCOM. Em termos de mercado, o que mudou nesse tempo?
Rachel do Valle – A presença brasileira no mercado mudou bastante. No início, era importante que os players internacionais soubessem que o Brasil “existia” no universo audiovisual, que poderíamos realizar coproduções, entregar produtos de qualidade e competitivos. Hoje, os produtores brasileiros são muito procurados e o espaço do Brazilian TV Producers na feira está sempre cheio. Há diversas indagações sobre como trabalhar com os empresários brasileiros. Os players já sabem que somos um potencial parceiro e que temos muito a oferecer e a trocar no mercado internacional. Com a concretização nos últimos anos de produções realizadas entre o Brasil e outros países, é mais natural que muitos outros players também passem a nos enxergar como possíveis parceiros. Há diversas oportunidades no setor audiovisual no Brasil e é natural que empresas internacionais passem a olhar para nosso mercado com mais interesse. O principal foco do Brazilian TV Producers é fomentar negócios entre produtores brasileiros e produtores internacionais e é bom poder notar a evolução desse trabalho, e a conquista, ano a ano, de novos resultados.
CeM – O aumento da delegação participante foi gradual nos últimos anos? A que se deve o crescimento em 2013?
RV – Sim, o aumento foi gradual. O MIPCOM sempre foi, na história desses 10 anos do projeto, a ação internacional com maior participação de produtores brasileiros. Afinal, é o maior mercado audiovisual do mundo e reúne mais de 12 mil pessoas. Este ano, o evento registrou um crescimento de participantes de diversos países, como o Brasil, e também como China, Japão, África do Sul e Argentina, entre outros. O mercado estava mais movimentado, se compararmos às edições dos últimos quatro anos, e os empresas brasileiros e de outros países sentiram isso. O número de participantes do programa Brazilian TV Producers tem crescido nos últimos anos e é natural que, com isso, também aumente o número de empresas participantes nos eventos internacionais. No entanto, é muito importante ressaltar que prezamos mais pela qualidade de participação dessas empresas nas ações do que pela quantidade. Por este motivo, o Brazilian TV Producers faz um trabalho, com o apoio da Apex, de preparação para a presença nos mercados. Este ano, antes do MIPCOM, realizamos consultorias de documentários, consultorias de conteúdo infantil e também jurídica. Além disso, para empresas que participavam pela primeira vez, realizamos encontros específicos, com questionamentos bastante comuns sobre o evento. Neste ano, tivemos 10 empresas que estiveram pela primeira vez no MIPCOM.
CeM – Como é a dinâmica das rodadas de negócios? É possível dizer quais os números das negociações (volumes de recursos e/ou produtos negociados)?
RV – Nesta última edição do MIPCOM, programamos previamente rodadas de negócios com três países diferentes: Reino Unido, Argentina e Espanha (região da Catalunha). Compartilhamos com estes países as informações de nossas empresas participantes, com dados sobre projetos para coprodução e/ou programas disponíveis para venda, e recebemos as suas informações também. Os empresários, com antecedência, conseguem estudar o perfil das empresas e selecionar com quais gostariam de se reunir durante as rodadas programadas. Neste momento, estamos trabalhando na coleta de dados quantitativos sobre geração de negócios no MIPCOM. As empresas enviam relatórios sobre suas reuniões e sua participação na feira no prazo de até um mês depois do evento, portanto, ainda estamos recebendo esse material.
CeM – Quais foram os assuntos abordados com o INCAA (Instituto Nacional de Cinema y Artes Audiovisuales) e quais devem ser os principais pontos do acordo a ser feito para a produção de longas-metragens?
RV – ABPITV e INCAA tiveram uma importante reunião no MIPCOM. Um dos principais temas abordados foi o interesse do instituto argentino em ampliar para a televisão o protocolo que existe hoje para obras cinematográficas. O INCAA informou que fará uma proposta à Ancine a este respeito. O protocolo é firmado entre as entidades dos dois países, INCAA e Ancine. Para a produção independente de TV brasileira, este pode ser um passo muito significativo para estreitarmos as alianças com as produtoras da Argentina. Além deste tema, também foi discutida novamente a parceria entre o Ventana Sur – evento de cinema realizado em dezembro, na Argentina, e o RioContentMarket – evento de conteúdo multiplataforma realizado em março, no Brasil.
CeM – A África do Sul é um dos mercados-alvo para atuação do BTVP durante o biênio 2012-2014. Na prática, o que isso significa?
RV – A definição dos mercados-alvo do BTVP é parte do planejamento estratégico do programa de exportação. Esta definição é realizada com o apoio da Unidade de Inteligência da Apex-Brasil, que faz um ranqueamento quantitativo de diversos mercados. Pela primeira vez, a África do Sul está na lista dos mercados-alvo. Isso significou, já em 2012, uma maior aproximação com este território e um aprofundamento sobre os modelos de produção e financiamento de obras audiovisuais. O BTVP participou pela primeira vez, no ano passado, do Discop Africa, o principal evento do continente africano e, em 2013, novamente em novembro, auxilia a participação de empresas brasileiras no evento.
Durante o MIPCOM, o BTVP promoveu uma apresentação aos produtores sul-africanos sobre o cenário audiovisual brasileiro e oportunidades de trabalho em conjunto. Por sua vez, também recebemos no estande do Brazilian TV Producers a associação de produtores independentes da África do Sul, para uma apresentação sobre o mercado deles. Há um diálogo bastante intenso entre Ancine e o National Film and Video Foundation, entidade daquele continente, sobre as tratativas para um acordo de coprodução audiovisual entre os dois países. Há grandes sinergias culturais entre as produções sul-africanas e brasileiras, ainda pouco exploradas no segmento audiovisual. Esta aproximação é uma possibilidade de ampliarmos os negócios em conjunto.