“Se a economia cultural for também apropriada pelas comunidades, assim democratizada talvez reduza a possibilidade de a indústria cultural determinar sozinha os impactos quando ela tenta se apropriar de produtos da cultura popular”, entrevista com Angelita Pereira.
Muito longe das páginas dos jornais, e poucas vezes capturada pelas antenas de TV, a cultura popular mantém-se dinâmica, viva e cada vez mais intensa em todo país. Porta-voz da desconstrução do significado etnológico, o jornalismo cultural enaltece o indivíduo criador ou proprietário de fragmentos culturais industrializados.
Defender a regionalidade cultural como bandeira a abraçar a cidadania, ampliando a plataforma da diversidade seria o papel dos meios de comunicação em processos de mundialização mercantil. Formar leitores críticos é o contra ponto desta atmosfera.
Girando na renda, melhor dizendo, na Congada Goiana, a Professora da Universidade de Goiás, Angelita Pereira, tenta apontar nortes para as coberturas jornalísticas do denominado setor cultural, que é voltada para a produção de modismos ou para o consumo de bens culturais.
Graduada em Comunicação Social – Jornalismo, com mestrado em Educação pela Universidade Federal de Goiás – Angelita Pereira, em entrevista por e-mail, antecipando a reflexão, que vai ao ar dia 07/11, discorre acerca das manifestações culturais, Internet, TV Pública, caminhos para o jornalismo, propaganda travestida de notícias e da mercantilização da cultura.
CeM – Mesmo não noticiadas, muitas manifestações culturais têm atraído novos adeptos. Apontando um exemplo, comunidades de Maracatu, em Pernambuco, que sofreram – o que os mais tradicionais chamam de – embraquecimento nos tambores, e em muitos pontos do país há grupos para germinar essa manifestação. Como explicar esses movimentos? De onde vem essa força?
Angelita Pereira – Assim, também, como há as Congadas em Goiás, a Folia de Reis em Minas, o funk no Rio de Janeiro (para não ficar só na relação sagrado e profano), pelo Brasil afora a cultura popular mantém sua vitalidade e sua dinâmica independente da visibilidade dada ou não pelos discursos midiático e jornalístico. E assim é com as comunidades em qualquer lugar do mundo. A cultura é a produção coletiva de sentidos a partir de uma realidade social, e que se manifesta na produção (individual ou coletiva) de objetos culturais nas mais diversas possibilidades que a arte permite. A cultura é, de certa maneira, uma transcendência da realidade para dizer de si mesma. É, também, o modo como se elabora e compreende essa própria realidade. Os objetos culturais resultados disso nada mais são do que a manifestação da vida. Fixam determinado momento histórico, mas, no entanto, permanecem em contínua transformação cumprindo funções importantes como as de resistência, de memória, de compreensão, rompimentos de paradigmas e projeção. A força e a vitalidade da cultura e de manifestações culturais residem nessa identidade coletiva e por isso permanece e se expande.
O que o jornalismo faz com a cultura é justamente o contrário de sua natureza: a expressão de uma coletividade. O jornalismo reforça a idéia de cultura como algo que se resume a determinados conhecimentos ou bens que alguém adquire. Fragmenta, descontextualiza e enaltece o indivíduo que “tem” ou produz cultura. Por isso, tem dificuldade para captar e expressar a polissemia ou a complexidade cultural da sociedade.
CeM – A Internet, mesmo economicamente excludente, pode ser avaliada como um novo paradigma na forma de se fazer jornalismo cultural?
Angelita – Não tenho a menor dúvida acerca das possibilidades que a internet cria e virá a criar para o jornalismo, assim como já o é para o mercado. Há experiências muito interessantes relacionadas à divulgação de produtos e grupos fora da lógica do mercado tradicional. Pierre Levy diz que a própria tecnologia a que criou a internet já é por si um resultado da cultura contemporânea. Agora, o jornalismo cultural não mudará só por causa da internet. Nela há espaços férteis para novos paradigmas como há para o velho modelo de se fazer jornalismo cultural. A transformação é essencialmente da concepção de jornalismo cultural que se faz no Brasil. A internet potencializará mudanças, mas temos de acioná-las, em outros ambientes como na formação de jornalistas, na reivindicação do direito à diversidade, no cumprimento ético da comunicação, nas políticas públicas etc.
CeM – Os movimentos independentes de artes (música, poesia, pintura, literatura) criavam zines para divulgarem suas idéias. Mesmo ambientado em um aspecto mercadológico, esses movimentos tentaram mostrar que a cobertura jornalística sobre artes estava estagnada. Desde então, pouca coisa mudou. Cultura é apenas uma barganha para os segundos cadernos?
Angelita – Quando eu critico a pauta do jornalismo cultural praticada hoje, refiro-me a esse formato que privilegia um recorte elitizado da produção cultural que aparece nos jornais (impressos e audiovisuais) tradicionais. No entanto, no dia-a-dia da formação de jornalistas observo que quando meus alunos, que desejam romper paradigmas, são convocados a criar pautas de cultura repetem o mesmo formato. Então, o problema é referencial. Há um modelo hegemônico que aparece como suficiente, eficiente e única possibilidade de abordagem. Mas, ao propor a criação de novas formas que dêem conta da cobertura cultural depara-se com um grande desafio: a própria linguagem jornalística destituída da autoria e que isola cultura de política, de economia, de comportamento, de cidades. Está aí outro nó a ser desfeito. Mas não é fácil.
CeM – Analisando a forma como indústria cultural acaba manipulando os meios de comunicação, como equilibrar as tensões causadas pelo impacto da cultura versus mercadoria e suas implicações sobre as manifestações artísticas populares e tradicionais?
Angelita – Não podemos cair no erro de desejar o isolamento como forma de preservar estáticas determinadas manifestações culturais. A cultura é dinâmica, como é a própria vida, e se modifica ao mesmo tempo em que mantém traços da tradicionalidade. Além disso, as culturas cada vez mais se interligam, encontram-se. O que se deseja é que a universalidade cultural consiga se manter na relação das singularidades e diversidades. Além do mais, o próprio Ministério da Cultura trabalha com a idéia de economia cultural que é fantástica. Pois, nesse conceito estão as possibilidades de sobrevivência, de criação de modelos solidários de produção e comercialização de produtos culturais e, conseqüentemente, de fortalecimento das localidades. Talvez essa seja uma saída: se a economia cultural for também apropriada pelas comunidades, assim democratizada talvez reduza a possibilidade de a indústria cultural determinar sozinha os impactos quando ela tenta se apropriar de produtos da cultura popular.
CeM – Muitos estudiosos apontam que as transmissões de TV no Brasil foram principais acionadoras de certo marasmo social. Sabendo que as programações televisivas são as principais formas do consumo de cultura em nosso país, e a falta de diversidade cultural apresentadas na telinha é visível. Como tornar públicas e atrativas ao grande público as manifestações populares de forma pluralista, sem ser tentado pelo atrativo econômico? E, principalmente, sem deixar que essas manifestações tornem mais um produto cultural empacotado?
Angelita – Primeiro é importante ressaltar a importância da televisão no cenário cultural brasileiro. Em quase 100% das moradias em nosso país existe pelo menos um aparelho de TV. A pesquisa feita pelo Ministério da Cultura (IBGE) mostra que brasileiros de todas as classes sociais consomem bens culturais no espaço doméstico. Nesse caso, há um problema estrutural. O modelo de produção cultural pela televisão brasileira que é resultado da estrutura de rede nacional concentrada por poucos grupos empresariais, com a hegemonia de uma região brasileira sobre as demais. A saída está no campo das políticas públicas de comunicação: estímulo à produção regional; mudança no modelo de concessões de canais de TV; fiscalização contínua e eficiente acerca da qualidade da produção cultural observando direitos humanos fundamentais; incluir a lógica da economia cultural para fortalecer as iniciativas e manifestações locais.
CeM – Muitas empresas perceberam que os anúncios nos jornais não geram credibilidades, e, por isso, estão, cada vez mais, penetrados nos conteúdo jornalístico. Aí vale tudo, empresas promovendo eventos de música, cinema, teatro… E os jornais vão a reboque. Como lidar com isso? E, principalmente, qual será o papel do jornalismo impresso nesse cenário?
Angelita – A questão da publicidade travestida de jornalismo é séria e se situa no campo da ética da comunicação. Em tese, não há problema em uma empresa patrocinar eventos, shows, exposições fotografias e tudo o mais. O problema é quando se lança mão do jornalismo para conferir credibilidade e autenticidade ao fato. E, pior, ao público leitor/telespectador não é dado o direito ou a condição para saber que se trata publicidade. Lutar contra fatos como esses é necessário e tarefa de todos. Denunciar, criticar, mostrar como isso ocorre todos os dias nas capas de jornais é nossa tarefa para que mais pessoas tomem conhecimento até chegar o momento em que a ética se instale. Novamente, políticas públicas são necessárias. Criar o Conselho Nacional de Jornalismo seria uma forma de fiscalizar melhor. Fortalecer o código de ética da profissão é outro caminho. Formar leitores críticos também.
CeM – E o jornalismo – todo ou apenas o cultural – quais as saídas ou caminhos a ser trilhado para sair do atual marasmo?
Angelita – Há que se superar o modelo empresarial de jornalismo que é hegemônico no país. Agora, para o jornalismo em si, é preciso recuperar a po-ética e a autoria do texto. O jornalismo literário se apresenta hoje com uma perspectiva de proatividade, de mediação calcada em uma visão holística do mundo, de respeito à diversidade de idéias e cultural. E, principalmente, com uma linguagem sedutora, transformadora como é a literatura. Experimentar outras formas de linguagens, outras pautas, outros ângulos será uma atitude com a qual todos nós ganharemos. E mais ainda o jornalismo como uma instituição fundamental para as sociedades democráticas.
CeM – A Medida Provisória que propõem a criação da TV Pública no país tem criado muita polêmica. Os defensores sustentam seus discursos apontando para o pluralismos e diversidade cultural como principal elo. Os que atacam esbarram no valor do investimento e na operacionalidade. Afinal, vale tanta discussão sobre o tema? O que a cultura tem a ganhar com a tv pública?
Angelita – A criação da TV pública no Brasil é, a meu ver, uma cunha no sistema televisivo existente. É um sopro de esperança para quem defende outro modelo de se fazer televisão que não esse padronizado e imobilista. Isso justifica a resistência de alguns grupos sociais. O momento é espetacular, pois a digitalização da TV, pelo seu custo, coloca em risco a existência das TVs públicas existentes isoladamente ou seja, os canais culturais, educativos, universitários, comunitários e tantos outros. Espera-se que a TV pública, com orçamento garantido e gestão democrática venha a fortalecer essas televisões que em geral estão condenadas pelo modelo adotado para a digitalização no país.
Espero e creio que a cultura, a cidadania, a regionalidade solidária (e não a xenófoba e prepotente) têm muito a ganhar com a TV pública, pois é hoje a única garantia de espaços para a diversidade de abordagem, de formatos, de padrões televisivos. A polêmica em torno da TV pública no Brasil é apenas a pontinha de uma questão que tem uma dimensão muito maior que são os interesses de políticos que detém a maioria das concessões de rádios e TVs. Que é a ausência de um mecanismo de controle da qualidade da produção televisiva no Brasil. Que é a real interferência desses grupos na política brasileira e, principalmente, nas políticas de comunicação.
* confira a sugestão de pauta desta entrevista compartilhada.
Eduardo Henrique Brandão – especial para Cultura e Mercado
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