Assim como o mundo precisou rever sua relação com o meio ambiente e a diversidade cultural, hoje a cultura é central na preocupação da vida humana.
Xico Sá, repórter pernambucano radicado em São Paulo, tem uma longa história no jornalismo cultural de grande imprensa e afirma que tradicionalmente os jornalistas dos segundos cadernos têm o domínio sobre tudo o que acontece em Nova Iorque e em Londres, no mundo pseudo cult. Essa obsessão pelo que vem de fora traduz a lógica de os meios de comunicação estarem a serviço daqueles que podem consumir como os que chamam de primeiro mundo.
Sá explica ainda que os jornais regionais do Nordeste brasileiro até mesmo acabam reproduzindo tal vício, o que gera o que Lirinha, do aclamado Cordel do Fogo Encantado, chama de êxodo cultural (Leia entrevista aqui). “A discussão não deve ser estética, e sim o espaço que as pessoas ocupam, financiados por uma ditadura de agendas e resenhas. O que não pode é a classe média metida a besta tentar enfiar goela abaixo seus ideais estéticos”.
Daniel Piza, logo na primeira página de seu livro Jornalismo Cultural (Editora Contexto) afirma que a expressão “jornalismo cultural” chega até a ser um pouco incômoda nas redações da grande imprensa (leia mais), por ser tratado sempre como secundário e pautado na prática do jabá da indústria cultural.
“Se o conceito esclarece que é cultura todo o ambiente à parte na natureza que o homem criou para sobreviver, não só físico como também de regimentos sociais (o que numa leitura mais atual seria o nosso cotidiano urbano), então desde o repórter iniciante que foi cobrir a nova contratação do time de futebol até o dinossauro que escreve com maestria sobre os seus semelhantes no Senado ou na Câmara, todos eles estão fazendo jornalismo cultural, documentando a cultura. Ainda que segmentada, devido à sua enorme abrangência”, emenda Piza.
Estranhamente, a universidade brasileira não pensa, formula e experimenta, completando o seu papel básico na sociedade com o ensino, a pesquisa e a extensão. As escolas de jornalismo hoje estão acomodadas a repetir a lógica produtiva pasteurizada e auto-intitulada objetividade jornalística dos jornalões, das rádios campeãs do Ibope e o padrão Globo de televisão.
Se todos soubessem como as salsichas são produzidas, nunca mais conseguiriam comer um cachorro-quente. Do mesmo jeito, se todos compreendessem como as notícias aparecem impressas nos jornais, ninguém mais leria jornais. Certo? Certíssimo. A apropriação social que a internet possibilitou ao mundo contemporâneo capacita qualquer sujeito a produzir, fugindo da norma do receptor passivo de informações.
Exemplo maior que o resultado das eleições do ano passado não serem o desejo do consenso fabricado dos até então chamados formadores de opinião, só o crescimento avassalador dos espaços de construção colaborativa e dos fenômenos de expressão das periferias, como o funk carioca e o tecno brega do Pará, que crescem independente da atenção da indústria.
Assim como o mundo precisou rever sua relação com o meio ambiente e a diversidade cultural, hoje a cultura é central na preocupação da vida humana. Diversidade cultural significa o direito de todos existirem, produzirem e serem reproduzidos do jeito que sonham. No momento em que o mundo pensa na promoção e na proteção dessa diversidade, os segundos cadernos e ilustradas precisam se reinventar.
O 100canais – núcleo editorial de jornalismo cultural independente não se esquivará do debate público, colocando-se como interlocutor e como experiência de uma nova tentativa de conceito e prática desse outro jornalismo possível. Seguimos conscientes e claros de nosso papel de tratar cultura com toda a complexidade que as expressões artísticas merecem, pensando e investigando a pauta esquecida, desconstruindo e expondo as fragilidades e o discurso subjetivo, próprio de qualquer jornalismo.
Assim, estamos propondo um novo jeito de se fazer jornalismo. Muito mais do que discutir jornalismo cultural, devemos atacar o debate sobre a cultura jornalística. Desconstruir o mito da imparcialidade e objetividade do jornalismo, do processo comunicacional. Desconstruir o processo criativo é uma forma (como foi experimentado em reportagem e no Fórum do Cultura e Mercado da última semana), entre tantas outras que florescem aos montes nas periferias tecnológicas onde há cultura viva. O nosso papel, enfim, é o de apenas problematizar ainda mais tudo o que é complexo em nosso tempo. Até mesmo o Chacrinha poderia traduzir tudo isso, como já fez, de forma muito mais clara: “Eu vim para confundir, não para explicar”.
Os Editores