Caetano Veloso e Gilberto Gil no debate sobre direitos autorais

Caetano Veloso e Gilberto Gil tornaram-se, nas últimas semanas, símbolos da polarização de opiniões dos artistas da música brasileira na discussão em torno da lei de direito autoral, informa o jornal Folha de S. Paulo desta terça-feira (22/2).

Frente ao debate sobre o uso das licenças Creative Commons, Gil declarou que flexibilidade delas está mais de acordo com a era digital, com o mundo pós-internet. Já Caetano, apoiado pela maior parte dos compositores que entraram na discussão – Roberto Carlos, Joyce, Jorge Mautner e outros – posicionou-se contra, dizendo que “ninguém toca em um centavo dos meus direitos autorais”.

Gil criticou os opositores às CC de não levarem o diálogo para “uma dimensão esclarecedora”. Procurado pela reportagem da Folha, Caetano disse, por e-mail, que vestia a carapuça tecida pelo velho companheiro. “Visto. Mas não me causa incômodo”, disse. “Eu não teria tocado no tema se a discussão, que o ministério Gil trouxe para dentro da política oficial, não me parecesse atraente e inevitável.”

Gil rebateu: “Pois está na hora de ele tirar a carapuça. De encarapuçados não precisamos. Todos têm que estar com suas feições claras, nítidas, à mostra, dizendo o que acham. Foi sempre assim: os que defendem o novo têm que ter argumentos mais nítidos. Os que reagem, porque estão defendidos pelo status quo, não precisam disso, precisam apenas reagir.”

A Folha retomou o assunto com Caetano no dia seguinte. Para ele, a paixão de Gil pelos avanços tecnológicos é “um pouco fascinada demais, tendendo para deslumbrada”. “Gil escreveu [a canção] ‘Pela Internet’, mas, diferentemente de mim, não é uma pessoa de internet. Não é muito familiarizado, não anda muito nem no e-mail. Ele gosta mais é da ideia”, afirmou Caetano.

Veja os principais trechos da entrevista com Gilberto Gil:

Folha – Os opositores a licenças mais flexíveis, como é o caso das Creative Commons, estão apenas adiando o inevitável?
Gilberto Gil –
É assim. É natural. Quando [Johannes] Gutenberg inventou a imprensa, os copistas também se revoltaram. Mas não teve jeito. Era o imperativo tecnológico que veio e varreu as coisas.

Os anti-CC argumentam que as licenças enfraquecem os direitos deles sobre a própria obra. Concorda?
É mentira. Ao contrário, [as CC] vão dar autonomia aos criadores de determinar como, quando e quais usos serão feitos de suas canções, de seus textos, de sua dramaturgia. E que consequências esses usos podem ter para quem usa e para os próprios autores. E, vale lembrar, ninguém precisa usá-las se não quiser. As CC não são monopólio. Não está interessado em que você mesmo dê controle a suas obras? Prefere que isso se dê através de uma editora ou de uma gestão coletiva? Então fique com elas.

O que é preciso fazer para iluminar essa discussão?
A discussão precisa subir de patamar. Os opositores precisam apresentar um set de argumentos válidos. Não podem vir com conversa fiada. Quem é contra tende a ter uma reação mais emocional, típica do reativo. Esse estágio precisa passar e todos devem convergir para uma discussão de o que significam essas coisas de fato. O que significa transformar, atualizar leis, hábitos e acessos a novas condições tecnológicas. A vida anda, a fila anda.

A seguir, trechos da entrevista com Caetano Veloso:

Folha – Você mesmo afirma que os argumentos dos pró-Creative Commons são mais claros. Por que não se comove com eles?
Caetano Veloso – Há questões que não estão resolvidas, a respeito das quais os dois lados ainda não se confrontaram. Algumas coisas podem ser perguntadas a todos.

Por exemplo…
O Ecad é mesmo um mal? Os próprios defensores de CC reconhecem que o Ecad passou a arrecadar muito mais nos últimos anos. Ou seja, está mais eficiente. Tenho medo de acontecerem coisas como quando o Collor e seu ministro Ipojuca Pontes -com todos os argumentos aparentemente racionais e corretos para uma sociedade liberal- fecharam a Embrafilme. Milhões de pessoas podiam dizer com razão que a Embrafilme era um monstro criado pela esquerda do Cinema Novo com os militares da ditadura. Que era um negócio estadista, confuso e, talvez, até corrupto. Porém, aquele gesto de simplesmente fechar a Embrafilme matou o cinema brasileiro por anos.

Acha que esse mesmo raciocínio vale para o Ecad?
Não acho. Mas tenho esse caso da Embrafilme como pano de fundo que me serve, por exemplo, para o Pelourinho e para o Ecad. São coisas muito diferentes, eu sei. Mas sinto que, às vezes, há uma tendência que, em alguma medida, aos meus olhos, se parece um pouco com o que o Ipojuca fez. Digo isso como uma espécie de caricatura do que eu temo.

*Com informações do jornal Folha de S. Paulo

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