Livro mostra como e por que investimentos em cultura promovem o desenvolvimento socioeconômico. De autoria de Ana Carla Fonseca Reis, publicação é parceria da editora Manole com o Instituto Pensarte
Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável – o Caleidoscópio da Cultura, novo livro de Ana Carla Fonseca Reis, será lançado em outubro. Pioneira no tema, a obra revela por meio de reflexões de casos internacionais e brasileiros uma visão global e integrada de cultura, economia e desenvolvimento sustentável.
Em linguagem acessível a leigos, já no primeiro capítulo a autora desfaz estereótipos e apresenta conceitos que explicam por que a cultura ocupa uma posição privilegiada na geração de riquezas, empregos, arrecadação tributária e comércio exterior. A partir daí, o leitor passa a ver a cultura como geradora de recursos e não mais como despesa, ao mesmo tempo em que percebe o lado mais criativo da economia.
Nos capítulos seguintes, a obra apresenta números, argumentos e exemplos práticos de vinte países para entrelaçar setores aparentemente distantes, colocando em pauta temas como oferta cultural privada e a profissão de artista, mercado e distribuição de produtos e serviços culturais, acesso e demanda, políticas públicas de cultura e desenvolvimento, instrumentos nacionais e multilaterais de intervenção, turismo e patrimônio cultural, além de esclarecer um debate em ascensão em boa parte do mundo: a economia criativa como estratégia de desenvolvimento socioeconômico.
Promovendo uma visão concatenada de políticas públicas e alertando para filões de negócios inexplorados pelo setor privado no campo cultural, o livro demonstra ainda o papel inovador de iniciativas da sociedade civil e a atuação das organizações multilaterais no reequilíbrio do imperialismo cultural. Uma visão abrangente que se beneficia da trajetória profissional de Ana Carla, economista, administradora pública, executiva de multinacionais, pesquisadora e consultora das Nações Unidas.
Publicado com apoio do Instituto Pensarte, prefácio do Embaixador Rubens Ricupero e análise do ministro Gilberto Gil, Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável – o Caleidoscópio da Cultura demonstra o potencial da cultura como mola propulsora do desenvolvimento socioeconômico.
Leia a seguir uma mini-entrevista com a autora:
CeM: O Brasil parece estar ainda despertando para o entendimento da cultura como ferramenta para o desenvolvimento sócio-econômico. Num país de reconhecida riqueza e diversidade cultural, por que esse entendimento ainda não aconteceu de forma mais ampla e concreta?
Ana Carla: Acho que vários fatores contribuíram para esse despertar tardio. Um deles, bastante marcante, é uma resistência até há pouco freqüente em aceitar a associação da cultura a negócios e ao mundo econômico de modo geral. Havia o receio de que a cultura pudesse se tornar um instrumento da economia, o que anuviava a percepção de que na verdade o que ocorre é o oposto. A economia da cultura nada mais busca do que colocar o arsenal de instrumentos econômicos para promover os objetivos da política cultural integrada. Outro fator que contribuiu para esse quadro foi uma ênfase excessiva no aspecto da produção cultural. O problema não é a produção, mas a distribuição e o consumo. É difícil reconhecer o potencial de inclusão socioeconômica da riqueza cultural, se esses produtos e serviços não são distribuídos, não circulam, não têm espaço no mercado. Por decorrência, os nossos mestres de ofício e produtores culturais não conseguem sobreviver dessa riqueza que produzem e acabam tendo de abdicar de seu ofício, para se dedicar a qualquer outro. A ótica da economia da cultura como estratégia de desenvolvimento sustentável reverte esse ciclo. Ao contemplar produção, distribuição e consumo (ou acesso), oferece às pessoas a possibilidade de viver dos produtos e serviços culturais que fazem.
CeM: Pode citar um exemplo brasileiro que comprove o potencial da cultura para o desenvolvimento sustentável?
Ana Carla: Felizmente há inúmeros. Um dos mais claros é o da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas, no estado de Pernambuco. A comunidade viveu durante séculos da agricultura de subsistência e da plantação de algodão, até que a praga do bicudo e a difusão dos tecidos sintéticos lhe retirou essa fonte de renda. Por conseqüência, tornou-se um alvo vulnerável de plantios menos nobres e foi enquadrada no Polígono da Maconha. As pessoas não tinham muita escolha. Ou plantavam maconha, ou migravam para as grandes cidades, ou morriam de fome. Por meio de um trabalho articulado entre o Sebrae de Pernambuco, a UFPE e alguns líderes da comunidade, foi desenvolvido um trabalho de resgate cultural que se apoiava no uso de matérias-primas existentes somente na região e nos saberes culturais de trançados, modelagem e costura. Hoje, uma vasta gama de produtos culturais garante a sobrevivência econômica da comunidade e a valorização de seus costumes, tradições e identidade.
CeM: Faltam políticas públicas no Brasil focadas na economia da cultura? Quais as principais diretrizes que essas políticas devem ter?
Ana Carla: E como faltam, começando pelo fato de a economia não contemplar a cultura em suas contas. Em primeiro lugar, carecemos profundamente de levantamentos e estatísticas que permitam reconhecer também a faceta econômica da cultura na riqueza nacional. Em segundo, é preciso haver a percepção de que política pressupõe planejamento, o que requer saber onde estamos e onde queremos chegar. Infelizmente tendemos a confundir meios com fins, a exemplo do que vemos com as leis de incentivo à cultura. As leis nada mais são do que instrumentos da política pública, mas não a política pública em si. Se meu objetivo de política pública for promover a democracia cultural, o acesso da população a formas variadas de manifestações, produtos e serviços culturais, seria preciso saber qual a fotografia dessa participação cultural hoje, qual seria desejável que fosse e, a partir daí, estabelecer critérios para as leis de incentivo que promovessem essa passagem. Hoje não há concatenação entre objetivos de política de Estado e critérios que guiem a concessão de incentivos aos projetos, assim como inexiste uma análise do impacto dos projetos incentivados na consecução dos objetivos de política pública. Comemoramos os recordes de captação das leis como um doente comemora o fim de uma caixa de remédio, ao invés da cura. Precisamos separar meios e fins e para isso é fundamental sabermos, de modo claro, quais são os objetivos de nossa política cultural.
Por fim, a política cultural deve ser transversal aos outros setores. Quando observamos o potencial da cultura para a atração de turistas ao país, seu papel na formação da imagem do Brasil no exterior, a inter-relação íntima que apresenta com a educação, economia e outros setores, é impossível achar que a política cultural é estanque, impermeável. Basta perceber que, na França, o orçamento do Ministério da Cultura não representa nem metade do orçamento destinado à cultura dentre os vários Ministérios. Não é por menos que a cultura do país é um chamariz turístico (e a França é o país mais visitado do mundo), o francês permanece sendo uma das línguas mais estudadas do mundo etc. Há uma integração entre as políticas dos distintos Ministérios, ao redor da cultura. Não pode ser diferente.
CeM: Como conscientizar a iniciativa privada da importância da cultura para o desenvolvimento sócioeconômico?
Ana Carla: Antes de mais nada é preciso mostrar o potencial da cultura não somente como componente do mix de marketing ou dos programas de investimento social privado, mas sim como gerador de negócios, business, estratégia. As empresas estão desesperadas por encontrar novos filões de negócios e não sabem onde. Os investidores têm no Brasil um volume enorme de recursos a investir e não sabem onde. É preciso juntar esses pontos. Um dos grandes gargalos é a concessão de financiamento a empreendimentos culturais, devido à dificuldade da avaliação do potencial econômico da cultura, porque difere da metodologia tradicional de avaliação de projetos. Países que tratam a cultura de maneira tão diversa quanto a França, Hong Kong, Canadá ou Reino Unido desenvolveram instituições que intermediam investidores e empreendimentos culturais, promovendo a redução da percepção de risco e, conseqüentemente, da taxa de juros. Somente com a participação da iniciativa privada conseguiremos atingir os objetivos de desenvolvimento. Estamos no mesmo barco e isso tem ficado cada vez mais claro. É preciso, agora, perceber que para que um ganhe o outro não precisa perder e que para que todos ganhem todos devem remar.