A partir de 2007, Porto Alegre deverá ser a capital brasileira com mais centros culturais por habitante
O governo de São Nicolau do Oeste, cidadezinha fictícia de Os vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar, comemorou com entusiasmo a criação de seu primeiro Centro de Cultura, mas Félix, o dono da casa desapropriada, acredita que isso vá “trazer a ralé para o bairro, com festinhas populares, peças de teatro com veados pelados”, defendendo que no lugar se fizesse o primeiro “Mc Donald’s, que representa emprego, representa imposto” (p. 249). Ironia de Scliar, é claro, pois Félix não imagina que só em 2007, na capital do estado desta cidadezinha fictícia, serão inaugurados cinco centros culturais que representam um investimento em torno de R$87 milhões.
Dois deles, o Multipalco Theatro São Pedro e a Fundação Iberê Camargo, começaram suas obras já em 2003 e representam cerca de 70% deste investimento. O primeiro terá seis pavimentos com mais de 15 mil metros quadrados, já captou 26 milhões dos 30 necessários e promete ser inaugurado até o final do ano que vem. Já o segundo terá cinco andares com 8,6 mil metros quadrados e deve ser inaugurado em junho de 2007, pois foi todo pago com patrocínio de empresas como Gerdau, Petrobras e RGE via leis de incentivo à cultura.
Também para meados de 2007 está prevista a inauguração do Centro Histórico Cultural Santa Casa, complexo com oito casarões com custo estimado de R$7,2 milhões, que ainda estão sendo captados. Já a Cinemateca Capitólio tinha previsão de inauguração ainda em 2006, mas como o patrocínio da Petrobrás não está confirmado, a conclusão da obra, já em estado avançado, deve se estender até o ano que vem.
Mas o Conjunto Cultural Caixa é o que mais surpreendeu os gaúchos quando anunciado, pois as obras sequer começaram e a previsão de inauguração é no final de 2007. Com investimento previsto de R$15 milhões, as obras devem ser pagas pela Prefeitura de Porto Alegre com financiamento da Caixa, e assim a prefeitura ocupará os andares superiores do prédio de 12 pavimentos.
Os cinco novos Centros deverão transformar Porto Alegre na cidade com mais centros culturais por habitante entre as grandes capitais. Hoje, segundo levantamento feito a partir do guia de cidades do Terra, Porto Alegre e Salvador têm em torno de um centro para cada 65 mil pessoas, enquanto São Paulo, por exemplo, tem 135 centros para onze milhões de habitantes, ou em torno de um centro para cada 80 mil pessoas. Diante desses números a classe cultural já se pergunta: teremos demanda para tantos centros culturais? Não seria melhor otimizar o aproveitamento dos centros já existentes?
Sergio Napp, diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, afirma que no estágio em que a Casa está há falta de espaços para o que é proposto, mas perguntado se temos espaços para mais centros, como os anunciados para 2007, afirma ter sérias dúvidas com relação a alguns casos: “Para o Iberê, devido ao ineditismo e aos recursos existentes, não faltará público com certeza, mas receio pelos outros, a oferta de cultura em Porto Alegre é muito grande e, às vezes, me parece, não há público suficiente. Gostaria que alguém me contestasse com dados concretos”, afirma Napp.
A atriz Patsy Cecato, embora saúde a vinda de novos centros para Porto Alegre, considera que “com exceção do Santander Cultural, falta dinheiro e projetos culturais que desenvolvam a profissionalização e a criação de um mercado próprio sem pré-requisitos e preconceitos”. Já Luiz Paulo Faccioli, presidente da Associação Gaúcha dos Escritores, lamenta é que a população não tire maior proveito do que os centros oferecem e pergunta: “será que ainda existe espaço para mais um filme, um livro, um quadro, uma música? Arte e cultura são fundamentais ao crescimento humano; quanto mais espaços culturais estiverem disponíveis, mais rapidamente esses valores se disseminarão pela sociedade”.
O gerente operacional da Caixa, Gustavo Luiz Pacheco, atribui a escolha da capital gaúcha a três fatores: a importância econômica da Capital e do Estado, o imenso potencial de produção cultural e artística e a demanda de público. “O fato de estar a Caixa Cultural de Porto Alegre não muito distante de outros centros culturais, como Curitiba e São Paulo, em nada prejudica a estratégia de patrocínios culturais da Caixa, e sim consolida esse processo e descentraliza suas ações”, afirma Pacheco.
Também o Secretário de Cultura de Porto Alegre, Sergius Gonzaga, acredita que “a cidade tem uma grande carência de espaços, sobremodo para teatro, dança, shows” e que com a vinda de importantes centros culturais “não apenas a Prefeitura, mas a cidade como um todo certamente sai ganhando e se tornando efetivamente uma capital importante do ponto de vista cultural, pois sem equipamentos em profusão não se forma um sistema capaz de manter atividades, grupos e indivíduos em ação cultural permanente”.
Marcelo Spalding