Conheci o Gui Afif como músico, dos bons, há mais de uma década. Meu primeiro contato profissional, no entanto, foi por meio do escritório Cesnik, Quintino & Salinas, onde ele atuava como parceiro. Em 2005 foi contratado pela Conspiração Filmes para iniciar a área comercial da produtora em São Paulo para seus produtos de entretenimento.
Nesta fase, Gui, que é formado em administração de empresas pela FGV, participou de produções como Casa de Areia, 2 Filhos de Francisco, Podecrer!, Mandrake e A Mulher do Meu Amigo. Em maio de 2007, com a idéia de diminuir a discrepância entre o baixo nível de conhecimento e interesse por cultura no meio corporativo, e o enorme potencial de produção cultural de um país como o Brasil, fundou o Guaimbé Bureau de Cultura , batizando a empresa com o nome de uma planta nativa do Brasil.
Guilherme Afif Domingos Filho fará a aula de encerramento do curso Mercado Cultural, coordenado por mim e realizado pelo CEMEC – Centro de Estudos de Mídia, Entretenimento e Cultura, a ser realizado de 9 a 13 de agosto na sede da Associação dos Advogados de São Paulo – AASP.
A seguinte entrevista antecipa algumas questões a serem abordadas pelo empresário em sua aula, sobre Captação de Recursos:
Leonardo Brant – Como você enxerga o futuro do mercado cultural?
Guilherme Afif Domingos Filho – O futuro, a meu ver, está na democratização e capacitação tanto dos agentes produtores quanto dos agentes de investimento em cultura.
Hoje o número de projetos culturais cresce desproporcionalmente à capacidade de investimentos. Não há critérios de viabilidade para sua aprovação nas instâncias públicas e os projetos se multiplicam nas mesas das repartições e das empresas investidoras, tornando o trabalho cada vez mais difícil para quem deseja investir em cultura. Na outra ponta, apesar de os valores aumentarem, o número de agentes privados de investimento em cultura permanece praticamente inalterado – quase dá para contar nos dedos o número de empresas em regime de lucro real para quem 4% do imposto de renda representa um valor significativo para investimento em cultura.
A pressão sobre as empresas é tão acirrada que a grande maioria dos projetos acaba não saindo do papel por falta de recursos, e estes estão cada vez mais concentrados nas mãos de poucos agentes culturais com maior poder de fogo na captação. Se o Brasil enfrentar uma crise econômica, as verbas de incentivo fiscal se esvaem nos prejuízos contábeis das grandes empresas e o setor cultural não possui mecanismos alternativos de investimento que funcionem.
Estas observações me levam a crer que as leis de incentivo começam a dar sinais de esgotamento da fórmula como funcionam hoje e precisam ser repensadas de maneira diferente daquela com que o atual governo vem abordando. As eleições serão um grande divisor de águas neste sentido. Este é o momento de cobrar dos nossos candidatos suas plataformas para o setor cultural.
LB – O mercado ainda depende do captador de recursos?
GADF – Ah, a figura sagrada do captador de recursos!? Aquele ser que possui o dom sobrenatural de, em um piscar de olhos, colocar todas as grandes empresas ajoelhadas diante do talento inebriante do artista!? Para mim é igual ao saci-pererê, à mula-sem-cabeça e ao curupira. Você pode contar com a ajuda de alguém para realizar uma captação de recursos específica, ou mesmo ter uma pessoa ou equipe que o auxilie na parte burocrática do trabalho, mas eu não acredito em alguém que assuma aquilo que é o principal papel de um agente cultural. Acho engraçado aqui no Brasil a vergonha que as pessoas têm em vender. Eu aprendi com empresários que foram meus professores ao longo da minha carreira, que dirigir uma empresa, é vender. Você vende resultados para o seu board de acionistas, vende metas para seus funcionários, vende o tempo todo seu produto ou serviço para seus clientes, todo grande empresário é um vendedor. Em um empreendimento cultural não é diferente, do artista ao produtor, todo mundo tem que participar. Em qualquer segmento da economia, ninguém terceiriza seu departamento comercial. Quer captar recursos? Aprenda a fazê-lo você mesmo. Não é fácil, mas é menos complicado do que parece.
LB – A proposta de revogação da Lei Rouanet influencia o mercado? Como?
GADF – Sem dúvida! Concordamos que a cultura não vai desaparecer. Mas o mercado cultural pode entrar em colapso caso uma revogação da lei ou uma alteração que a inviabilize seja perpetrada. Já vimos este filme, por exemplo, no começo dos anos 90 com o fim da Embrafilme – que já vinha sangrando em praça pública e o governo Collor deu apenas o tiro de misericórdia. O cinema nacional demorou uma década para se recuperar. Amplie este ocorrido para todas as outras formas de manifestação cultural e poderemos ter um vislumbre da dimensão do problema. O incentivo fiscal não é a melhor forma de fomento à cultura, mas hoje ele é a sua base de sustentação. Tanto quanto a sua revogação, a sua substituição pelo fomento público sem equilíbrio dos dois instrumentos provocaria um colapso no setor.
Eu acredito que algumas das soluções para o investimento em cultura passem por um aperfeiçoamento da Lei Rouanet (desvinculação do lucro real para ampliação do número de investidores, capacitação e orientação de agentes culturais e investidores, adoção de critérios de viabilidade financeira na aprovação dos projetos, estímulo ao investimento privado), aperfeiçoamento e direcionamento de verbas para outros mecanismos de fomento como fundos setoriais e programas estatais principalmente para absorção de projetos relevantes mas pouco viáveis financeiramente, a luta por um orçamento maior para a cultura, a criação de salvaguardas para momentos de crise e o aperfeiçoamento de mecanismos de manutenção de aparelhos culturais. São mudanças que vêm sempre no sentido de aumentar os recursos, melhorar a qualidade do investimento, democratizar as decisões, capacitar os agentes. Reformas que provocam decréscimo, redução de verbas, centralização de poder, desarticulação de princípios democráticos, revogação de mecanismos que funcionam, só contribuem para agravar os problemas.
LB – Quais as maiores dificuldades em se captar recursos hoje em dia?
GADF – Quantidade excessiva de projetos aprovados no mercado com pouca ou nenhuma chance de captação, o que gera dificuldade para o patrocinador em separar o “joio do trigo”, e contribui para a concentração dos recursos captados nas mãos de poucos grandes produtores. Falta de previsibilidade e critérios claros do MinC e de outras esferas públicas na aprovação dos projetos. Verbas concentradas nas mãos de poucos agentes de investimento (empresas) e finalmente a vinculação dos incentivos ao lucro, que faz com que a capacidade de patrocínio diminua nas crises econômicas, justamente os períodos em que projetos de longo prazo mais necessitam dos recursos.
LB – O que precisa ter um projeto para captar recursos?
GADF – Mesmo quando se utiliza de incentivos fiscais, responder positivamente à seguinte pergunta: se não existissem incentivos fiscais, este projeto se sustentaria?