O cineasta italiano Citto Maselli criticou a “sufocante” indústria cinematográfica norte-americana, acusando-a de promover a “desertificação” das produções locais
Por Sílvio Crespo
28/01/2003
A “sufocante” presença da indústria cinematográfica norte-americana no mundo foi alvo de críticas do cineasta italiano Citto Maselli, na conferência Cinema e política: contra a homogeneização do imaginário, realizada no Ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, domingo, durante o III Fórum Social Mundial. Maselli coordenou o documentário Um outro mundo é possível, de 2001, sobre os protestos contra a reunião do G-8 em Gênova. Junto com ele, participaram do filme diretores como Ettore Scola, Mario Monicelli e outros.
Cinema x governo
O cineasta se mostrou preocupado com o futuro do cinema italiano depois da ascensão da direita no país, com a eleição do primeiro-ministro Silvio Berlusconi. O cinema pode ser usado como uma forma de resistência da população, mas também como “um instrumento de afirmação de um pensamento único dominante”. Com receio de políticas autoritárias do novo primeiro-ministro, importantes cineastas italianos, segundo Maselli, formaram uma fundação com o objetivo de garantir a liberdade e a possibilidade de criação. “O cinema é combatido das direitas porque pode se tornar perigoso para elas”.
Mercado cinematográfico
“Hoje, vivemos uma realidade em que se impõe um fato que prejudica a conquista do mercado”, afirmou Maselli. De acordo com o diretor de cinema, a grande indústria dos Estados Unidos ocupa cerca de 80% do mercado mundial, “sufocando” as outras produções cinematográficas com a força do seu sistema financeiro.
Para Maselli, o cinema norte-americano alcançou essa dimensão com a ajuda do Departamento de Estado do país. O governo dos Estados Unidos impôs a vários países, segundo o cineasta, leis que favorecem a entrada do cinema norte-americano. Além disso, o acelerado crescimento da indústria cinematográfica contou com a ajuda da Organização Mundial do Comércio.
Desertificação
A invasão do cinema dos Estados Unidos no mundo gerou o que Maselli chamou de “desertificação” das demais propostas artísticas. Esvaziou-se a possibilidade de produções “que contem outras culturas, outras identidades, outras histórias”. A indústria norte-americana “sufocou as mais fortes capacidades simbólicas de identificação, como também a crítica e a oposição à sociedade que quer se impor ao mundo”, frisou o cineasta.
Com isso, continua Maselli, são diminuídos os princípios que vão da liberdade de expressão à liberdade de escolha. Ainda assim, o cineasta acredita que o cinema pode ser o protagonista de uma atividade de crítica social. “Como antídoto à homogeneização cultural e como instrumento da luta contra o genocídio do mercado”, o cinema pode ajudar a “impedir que seja construída uma sociedade desumana para afirmar que um outro mundo é possível”, concluiu Citto Maselli.
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