Reportagem do jornal francês Libération indica que a nova geração do cinema português destaca-se nas suas aparições em festivais internacionais. Mas no seu país, onde a crise provoca um corte total do comprometimento do Estado na cultura, os pequenos produtores estão cada vez mais frágeis.

A edição deste ano do Festival de Curtas de Vila do Conde, um dos melhores da Europa, segundo a publicação, celebrou em clima de euforia uma edição tensa, mergulhada no paradoxo de uma criação nacional simultaneamente em ebulição e em crise.

A qualidade da produção portuguesa chegou inclusive aos ouvidos (e olhos) da organização do Festival de Cannes, que convidou o cineasta João Pedro Rodrigues para presidir o júri de curtas-metragens da Semana da Crítica, em maio.

Ele dirigiu a obra “Morrer Como Um Homem” – sobre uma drag queen em fim de carreira com elenco era formado por transformistas portugueses sem experiência em atuação – e foi descrito pela organização de Cannes como “a grande revelação do cinema português dos últimos anos”.

Além disso, os realizadores do país conquistaram simultaneamente em fevereiro, em Berlim, o Urso de Ouro para curtas-metragens, com “Rafa”, de João Salaviza – vencedor de uma Palma de Ouro há três anos – e o Prêmio de Inovação, atribuído a “Tabu”, de Miguel Gomes, já vendido para 46 países.

Internamente, no entanto, a história é outra. A política do novo governo de direita, no poder há um ano, baseia-se num populismo resistente a qualquer ação em prol das artes, ao ponto de acabar com o Ministério da Cultura e congelar os subsídios do ICA, o Instituto do Cinema e do Audiovisual, cujos cofres estão vazios. “Historicamente, o Estado nunca meteu dinheiro diretamente em filmes”, explica o produtor Luis Urbano. “O antigo sistema, que deixou de funcionar, baseava-se num mecanismo que taxava a publicidade na televisão para financiar o cinema”.

O produto dessa lei beneficiava em partes iguais a criação e a ação da Cinemateca de Lisboa. Mas a evolução do mercado e o seu posterior colapso, devido ao contexto econômico, destruíram o sistema. Na verdade, a crise é dupla. Os apoios anunciados para projetos, nos últimos dois anos, nunca foram pagos. E o ICA, congelado pelo Estado, não abriu nenhum concurso para subsídios, este ano. “É um ano zero para o cinema português”, diagnostica Urbano.

Pilar fundamental do novo cinema de autor de Lisboa (produzindo agora também filmes de Manoel de Oliveira que, à beira dos 104 anos, pretende filmar seu próximo longa-metragem no Brasil), a sua empresa O Som e a Fúria apoia-se em fundações suficientemente fortes para não estar ameaçada a curto prazo. Mas, à sua volta, muitos produtores mais frágeis fecham as portas, enquanto atores, realizadores e técnicos são afetados por uma penúria dramática.

Por acaso, na véspera da abertura do Festival de Curtas de Vila do Conde, o projeto da nova Lei do Cinema foi finalmente aprovada pelo Parlamento, com recursos reavaliados e quase duplicados, que permitiria a reanimação da criação. As modalidades de aplicação deverão ser negociadas para finalmente entrarem em vigor em setembro. Mas nada garante que o dinheiro possa ser injetado no sistema antes do final do ano.

Se as novas medidas são bem recebidas por quase todos, o burburinho contra o governo não cessa. Muitos apontam o oportunismo de um Executivo desprovido de política cultural, que procura com esta nova lei – concebida e deixada de molho pela esquerda, mas retocada e votada pela direita – salvar a pele sem desembolsar um tostão de dinheiro do Estado.  “No início deste ano, estávamos mortos”, garante o cineasta João Nicolau. “Os prêmios ganhos pelo Salaviza e pelo Gomes caíram como um milagre. O poder foi forçado a reagir, incapaz de negar o prestígio internacional de Portugal através dos seus filmes”, afirma.

“De repente, foi como se tivéssemos ganho medalhas nos Jogos Olímpicos”, zomba Miguel Gomes. Ao mesmo tempo que era celebrado, em Berlim, por “Tabu”, estava envolvido numa homenagem à “nouvelle vague portuguesa”, iniciada há escassos cinquenta anos: “Graças a essa geração, […] beneficiamos de uma incomparável tradição de liberdade, agora ameaçada, e que só sobrevive pela capacidade de circulação dos nossos filmes”.

O texto original, em francês, está disponível aqui.

*Com informações do jornal francês Libération


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