Cinemateca e a memória que só existe em sonho - Cultura e Mercado

Cinemateca e a memória que só existe em sonho

Eu era apenas um moleque que sonhava com Cinema quando terminei a faculdade. Queria ajudar a fazer acontecer o Cinema no Brasil. Queria – imatura, presunçosa e sonhadoramente – mudar a forma como nossa Arte é encarada aqui e lá fora. Essas coisas que todo jovem quer.

Foto: Divulgação/FBA Cinemateca era o lugar que materializava essas expectativas. A expertise de Patrícia Di Filippi e sua equipe na preservação das produções nacionais era admirável. Patrícia, funcionária da Cinemateca na época, onde fiz estágio logo após concluir o curso de Rádio e TV, convidou-me para uma palestra que organizara junto à Associação Brasileira de Cinematógrafos (ABC), com um profissional da Kodak americana.

Richard (desculpem-me por não lembrar o nome dele completo) mostrou para mim e para o resto do público como era (e deve ser até hoje) feita a preservação dos filmes nos Estados Unidos. Um processo muito organizado e muito bem feito, parecido com aquele que possuíamos na Cinemateca.

No entanto, me impressionou a maneira como era já natural nos americanos pensar na preservação da película desde a etapa de produção. O internegativo do filme, película de onde são geradas as cópias de exibição, tinha uma duplicidade: uma cópia era armazenada no departamento da costa leste do país e um outro internegativo deveria permanecer na costa oeste, ambos os acervos com o devido controle de umidade e temperatura. Um rolo em cada extremo do território para que, no caso de algum acidente natural (ou guerra) no local, não se perca a memória do Cinema americano, ou melhor a memória daquela civilização. Todo cuidado é pouco com a produção cultural de um povo, certo?

A Cinemateca teve, em 10 anos, em torno de 200 funcionários mandados embora, restando 20 servidores públicos e 27 terceirizados. Deixar falho o sistema que trabalha para a manutenção do nosso acervo cultural, ou ainda não investir adequadamente nessa manutenção, só aumenta o abismo que há entre as perspectivas de futuro aqui e as que existem no hemisfério norte, pois cuidar do passado, para quem tem o mínimo de juízo, é dar valor ao futuro.

Os números acima não indicam apenas que a Cinemateca está para acabar. Indicam que a memória do nosso Cinema importa menos. Indica que a preservação da nossa História enquanto civilização importa pouco. Aponta que a memória do brasileiro é curta – e está sendo encurtada – também no sentido cultural, existindo enquanto Cinema de verdade apenas dentro dos sonhos dos jovens cineastas.

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