Na França, produção cinematográfica local teve público maior que os filmes importados de Hollywood, e o mercado fonográfico do país foi o que mais cresceuPor Sílvio Crespo
04/02/2003
As políticas culturais francesas estão colhendo bons frutos. Depois do excelente desempenho da indústria fonográfica local, que fechou o ano de 2001 com um crescimento de quase 10%, agora é o setor cinematográfico que está deixando para trás a indústria norte-americana de entretenimento. Na França, os filmes locais venderam 52% dos ingressos, enquanto a bilheteria de Hollywood não passou de 47%, segundo o jornal Folha de São Paulo.
Exceção
Ao menos em parte, o resultado pode ser atribuído à política cultural de financiamento público levada a cabo pelo governo francês. O CNC (Centre Nacional de la Cinématographique), entidade governamental para as políticas de cinema, fomenta a produção local. A política faz parte do princípio de ?exceção cultural?, segundo o qual os produtos culturais não devem ser submetidos às mesmas regras que os demais no comércio internacional.
Entre as regras da Organização Mundial do Comércio está a restrição ao auxílio governamental à produção, que, segundo a instituição, prejudica a concorrência no mercado internacional. A França defende a idéia de que ?tudo o que se refira às ajudas nacionais à cultura seja excluído do campo das negociações internacionais?, diz o presidente do CNC, David Kessler, à Folha de São Paulo, pois ?não existe cultura nacional sem auxílio público?.
Sucesso na música
A indústria da música francesa também tem se beneficiado com as políticas culturais locais. Em 2001, o faturamento das gravadoras cresceu 9,7% no país, a taxa mais alta do mundo registrada pela IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica). No setor musical, o sucesso francês é atribuído ao fortalecimento do repertório local: dos 20 álbuns mais vendidos em 2001, cerca de 90% eram de artistas do país. Um outro fator apontado pela IFPI foi o aumento das ações de marketing da indústria fonográfica da França.
Enquanto isso, os maiores mercados fonográficos do mundo encolheram significativamente em relação ao ano anterior. O faturamento das gravadoras norte-americanas caiu 4,5%. No Japão, segundo maior mercado no setor, a queda foi de 9,4%. Em ambos os países, a explicação da IFPI para a queda foi o desaquecimento da economia e o aumento da pirataria.
Negociação difícil
Apesar dos bons resultados, não está sendo fácil para a França manter a política de exceção cultural. As negociações estão “extremamente difíceis, porque os EUA são muito agressivos e porque muitos países estão prestes a abandonar a defesa do audiovisual”, diz à Folha de São Paulo o presidente do CNC.
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