Foi realizado na semana passada um Seminário para apresentar pesquisa inédita do Datafolha sobre o perfil cultural dos paulistas, com análise de resultados pela FGV.

A primeira reação ao entrar no auditório da Estação Pinacoteca foi de surpresa com o quantitativo de pessoas: auditório lotado para debater dados de uma pesquisa sobre a cultura. Em sua fala no evento, algumas horas mais tarde, Eduardo Saron, do Itaú Cultural, destacou também ter se impressionado com o que, segundo ele, denota o grau de profissionalização e demanda de dados sobre a cultura.

O Seminário organizado pela empresa J.Leiva Cultura & Esporte e patrocinado pela CPFL Energia teve um formato bastante interessante ao apresentar em recortes os dados da pesquisa, seguidos de debates com expoentes nomes da área cultural acerca de cada um desses recortes. Pecou apenas em não enviar previamente aos participantes do Seminário a pesquisa, para que com uma prévia leitura, mais questões fossem debatidas. Mas talvez nem houvesse tempo para tanto em um único dia.

Em resumo, o Seminário intitulado “Como Investir em Cultura” trouxe informações relevantes e demonstrou contradições interessantes nas respostas dos paulistas, além de trazer indicadores que confirmam algumas afirmações empíricas de produtores culturais, que podem agora ser embasadas estatisticamente.
A pesquisa do Datafolha é quantitativa, foi realizada no Estado de SP (em 82 cidades) de agosto de 2004 a setembro de 2010 com 2.414 entrevistados maiores de 12 anos, de todas as classes sociais. Os temas – ou recortes – apresentados no Seminário foram dividos em:

1. O que é cultura? Da arte ao entretenimento;
2. Infra-estrutura e acesso (equipamentos culturais, etc). Diferença entre pequenas, médias e grandes cidades;
3. Economia da cultura (com ênfase sobre o Vale Cultura);
4. Hábitos de consumo culturais. A importância da educação.

A pesquisa comprovou, por exemplo, que quanto maior o nível econômico e educacional da pessoa, maior o gosto por atividades culturais. E que o índice de quem ouve música, assiste a filmes em casa (VHS ou DVDs) é muito alto: quase 100% dos entrevistados responderam ter este hábitos, o que levou a debatedora Claudia Lins, do IBGE, a dizer que “o Brasil é um país do audiovisual”.

Para Mario Mazilli, da CPFL, a pesquisa aponta tendências e reflete a transformação do público em função da melhoria da renda no país. Ele apontou ser essencial resolver as perguntas como porquê as pessoas estão insatisfeitas com as ofertas culturais para que se possa definir em quê investir dentro da área cultural.

André Sturm, da Secretaria de Cultura de SP, lembrou aos presentes que mesmo na capital, existem realidades muito diferentes no que tange ao acesso às ofertas culturais, provocando a reflexão para além dos recortes de cidades de grande, médio e pequeno porte.

A mesa de debates realizada após o almoço foi a mais animada do dia com Gilberto Dimenstein substituindo um representante do Ministério da Cultura que teve um imprevisto, Eduardo Saron, do Itaú Cultural e Marcos Gonçalves da FGV, mediados pelo organizador do evento, João Leiva. O tema “economia da cultura” reuniu críticas e avaliações com profundos questionamentos ao Vale Cultura como política pública de investimento cultural e permitiu um debate mais qualificado e interessante sobre a relação educação-cultura do que a mesa seguinte, onde este era o tema proposto.

Dimenstein se posicionou contra o vale cultura pois segundo ele, que é fundador do site Catraca Livre, existe um volume enorme de eventos gratuitos, inclusive na periferia: “o que falta é informação e estímulo para o público consumir”. Ele defende que os recursos destinados ao Vale Cultura deveriam ser usados para formar público junto a escolas públicas.

Saron disse ter dificuldade em encontrar exemplos de parceria entre cultura e educação onde a cultura não seja apenas instrumento de melhoria do conteúdo ou formato didático e argumentou que gostaria de ver isso abordado em pesquisas futuras. Após informar com dados de outra pesquisa (Exame) sobre o aumento da presença na internet da classe C, deixou no ar a provocação: “o que os produtores culturais estão oferecendo como opção de programação de qualidade para internet e para os desdobramentos na telefonia celular?”.

Vale informar que a pesquisa avaliou o consumo cultural via internet, mas nenhum dado sobre isso chegou a ser apresentado no Seminário.

Marcos Gonçalves fez uma análise conceitual da pesquisa, destacando a importância do entendimento de cultura como negócio, com muitas provocações que acenderam a platéia. Ressaltou que historicamente o consumo cultural, no mundo todo, cresceu a partir da ascensão da classe média (crescimento da renda), da melhoria da educação (maior acesso a direitos) e da presença da família. Para Marcos, “do ponto de vista de negócio, é o momento de grandes oportunidades e desafios” no Brasil. Outro dado confirmado pela pesquisa apresentada é que a maior influência nos hábitos de consumo dos paulistas se dá através da família, amigos, parentes, namorados/conjugues.

Perguntados por João Leiva sobre quais os indicadores necessários para se estabelecerem novas políticas públicas de cultura, os debatedores deram respostas diversas mas complementares: Saron defendeu a necessidade de mais informações sobre arte, Dimenstein uma análise da capacidade de apreensão cognitiva e Marcos que a metodologia e a periodicidade da pesquisa sejam constantes, para que se possam construir estudos estatísticos confiáveis. Saron arrancou aplausos da platéia ao fazer um trocadilho na frase “evento vai ao vento”, defendendo que “as empresas precisam investir no que é perene e deixa legado”, mas não culpou as leis de incentivo, e sim a mídia “que cobre agenda, evento, e não o processo” pelo comportamento da maioria do empresariado em relação ao investimento sócio-cultural privado.

O último recorte da pesquisa demonstrou que 87% dos paulistas concordam que atividades culturais deveriam ser obrigatórias nas escolas. Denise Grinspum destacou a necessidade de serem trabalhadas as famílias para formação de público e Paulo Pélico defendeu a interpretação de que quanto maior o nível educacional, maior o desejo de consumo cultural de conteúdo. Para Pélico, “o software de um país é educação, cultura e pesquisa científica. Por isso o Brasil é um país que tem a 8ª  economia do mundo e o 75º IDH”.

Infelizmente não disponho ainda dos dados apurados para divulgar ou fazer aqui mais amplas ou profundas análises sobre os hábitos culturais dos paulistas, mas o Datafolha assumiu no evento o compromisso de enviar a pesquisa posteriormente por e-mail a todos os participantes do Seminário e, futuramente, divulgá-la amplamente. Mais que isso: foi citado que a pesquisa se estenderá pelo país, não se resumindo ao Estado de SP. Vamos aguardar.


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Gestora cultural, captadora de recursos, museóloga e sócia-diretora do Cultura e Mercado e da Companhia da Cultura.

4Comentários

  • Ana Mae Barbosa , 31 de outubro de 2010 @ 15:16 Reply

    Formar plateia ou formar público nas escolas é colonialismo cultural,é discurso de convencimento para a aceitação por todas as classes sociais da cultura dominada pelas elites e estimulada pela burquesia que quer ser elite.As escolas devem aproximar estudantes e comunidades da produção cultural ensinar Arte que é a cabeça do corpo cultural tendo em vista diferentes códigos culturais para desenvolver pessoas críticas com capacidade de escolha.

  • pard7menezes, 31 de outubro de 2010 @ 20:40 Reply

    Na época em que aprendíamos a ler e escrever dentro de uma escola, eu já fazia teatro dentro de uma; e era uma escola pública! "Era uma escola muito engraçada, não tinha palco, não tinha nada. Ninguém podia errar nela não, porque a escola não tinha falta de educação…"
    Não estamos na idade da pedra, lascada ou lapidada. Portanto, com um graveto na orla da praia ou utilizando recursos tecnológicos da modernidade, a Educação precisa trabalhar com a Cultura. Professores ou Artífices da Cultura precisam dos cientistas e suas pesquisas e descobertas, assim como os cientistas e seus filhos precisam do Teatro, do Circo e do algodão doce. O Brasil precisa de gente que pense no povo, na elite, na criança que sofre com fome e no filhinho de papai que sofre de depressão. Mas o Brasil pode tranquilamente dispensar, ignorantes ilustrados que não tem sabedoria para pensar no Brasil.

  • Fernando Fischer, 31 de outubro de 2010 @ 23:33 Reply

    Onde podemos achar a apresentação dessa pesquisa, em powerpoint, ou o relatório descritivo completo?

    Grato.

  • DaniTC, 2 de novembro de 2010 @ 7:39 Reply

    Olá Fernando, semana passada recebi e-mail da empresa J. Leiva, encaminhado a todos os participantes do Seminário, dizendo que eles estavam "estudando qual a melhor forma de divulgar os resultados da pesquisa" e que isso iria acontecer em breve. Tão logo eu receba alguma informação sobre onde disponibilizaram a pesquisa, informarei por aqui. Mas sugiro que fique atento ao site do Datafolha e da própria empresa, pois esta publicação dos dados deve ocorrer através dos respectivos sites. Abs!

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