A luta estende-se não apenas ao direito à comunicação, não apenas ao acesso à informação, mas também ao direito de produzir, manipular, apropriar-se e difundir conhecimento.
Em entrevista à revista Playboy, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, questionado se “acredita que quem baixa música (na internet) deva ser processado”, afirmou que qualquer ação do tipo está na contramão da própria ambição do mundo produtivo e tecnológico: “O ambiente digital e todos estes derivativos afluem para um campo de compartilhamento necessário, para um campo de socialização automática, natural”.
Gil costuma dizer que as tecnologias são cada vez mais anárquicas, e a gestão dessas tecnologias, por outro lado, reivindica uma posição mais conservadora, com regulações sob comando, menos espontâneas. “É questão de mais dia, menos dia para que esses conflitos acabem sendo solucionados”, pontua o tropicalista.
O ministro refere-se às garantias do direito à comunicação, não apenas de acesso à informação, mas também sobre o direito de produzir e difundir conhecimento. Direito esse impedido pela atual regulação imposta pela lei do mercado. “Quase nenhum artista brasileiro é dono de fato de sua obra. A maioria está presa a contratos. Na medida do possível estou disponibilizando a minha obra. Pois também sou refém dessa indústria. E, sim, sou particularmente a favor de mais compartilhamentos”, retifica.
A troca de conteúdo tornou-se comum. Todo jovem que acessa regularmente a grande rede, seja de sua casa, de um telecentro ou de uma lan house, sabe como fazer o upload das fotos, da última festa da escola, de seu celular para seu fotolog, sabe copiar uma música de um cedê comprado no camelô para o mp3 player de seu colega, sabe das infinitas possibilidades interativas de que a internet dispõe.
Antonio Carvalho Cabral, da FGV Direito – Rio, lembra que as crianças das periferias, que crescem em um ambiente comunitário, apropriam-se com mais facilidade dos espaços na web. Segundo ele, as lan houses estão possibilitando esse fenômeno que possibilita um jovem brasileiro de um morro carioca usar seu tempo livre da mesma forma que uma criança burguesa.
“Trazer as crianças que vivem em comunidades pobres para o universo da Web2.0 é o mesmo que dar banana para macaco. ‘Eu sozinho’ não é ninguém na favela. Eles já são colaborativos. Com as tecnologias, esse pensamento coletivo aprofunda-se cada vez mais”, pontua Cabral.
O economista da UFRJ, Fábio Sá Earp, denuncia a própria ignorância, e dos acadêmicos de forma geral, com relação a esse nem tão novo universo colaborativo. “Até mesmo a forma de estudo e pesquisa acadêmica é arcaica. Os métodos de pesquisa podem ser inovados, ganhando muito mais velocidade se fosse articulados em uma base de pesquisa colaborativa e aberta”, entende o professor.
Muitos consideram toda a divulgação em torno da Web 2.0 um golpe de marketing. Como o universo digital sempre apresentou interatividade, o reforço desta característica seria um movimento natural e, por isso, não daria à tendência o título de “a segunda geração”. Polêmicas à parte, o número de sites e serviços que exploram esta tendência vem crescendo e ganhando cada vez mais adeptos.
Assim, a internet mostra-se um grande espaço aberto de compartilhamento de conteúdos. A questão não circula apenas sobre o uso comercial que pode se fazer da informação. Sobre os conteúdos, o enfrentamento ideológico acontece no que o editor da Revista Fórum, Renato Rovai, autor de Midiático Poder (Publisher Brasil), classifica como guerrilha da informação, onde a participação no debate é público. Talvez, então, ganhe destaque na pauta da imprensa convencional a necessidade de novos marcos regulatórios para garantir que tudo o que funciona no espaço informal da grande rede possa se desenvolver democraticamente.
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