Havia um corpo estendido na porta do céu. Às 8h da manhã do dia 12 de dezembro de 2003, no meu primeiro dia de trabalho como gestora cultural, havia um corpo estendido no chão do CEU Navegantes, escola na zona sul de SP. CEU é a sigla de Centro Educacional Unificado. Os CEUs são equipamentos públicos da prefeitura de São Paulo, que integram educação, cultura e esportes. E havia um corpo estendido na porta do CEU. O corpo era um recado da organização criminal local, que antes usava o terreno onde se construiu a escola como depósito de cadáveres. Não nos assustamos. Apenas entendemos a mensagem como “seu trabalho não será fácil”.
No mesmo dia, às 10h da manhã, não havia mais cadáver nem sangue na porta, mas uma multidão de duas mil pessoas presentes na inauguração do CEU Navegantes. Muitas crianças acompanhadas de seus pais, entusiasmados com as possibilidades da nova escola, com o teatro de 450 lugares que inaugurou enorme, moderno e público, com salas de dança, música, artes plásticas. Ao final, estavam alimentando o sonho de que seus filhos pudessem estudar, ter acesso a cultura e desenvolver-se. A comunidade local é muito pobre. É uma região de mananciais, à beira da represa Billings, onde as casas foram construídas “ilegalmente” e são consideradas invasões. O dia da inauguração do CEU foi um sucesso, a comunidade participou em peso e mesmo com o que havia ocorrido de manhã, ninguém permitiu que o medo intimidasse a esperança.
Eu tinha 23 anos quando comecei a trabalhar ali. E essa foi a cena que encontrei. Uma comunidade composta sobretudo de crianças e jovens, filhos de imigrantes dos estados mais pobres do Brasil, que chegavam em São Paulo em busca de trabalho e qualidade de vida. Ainda não havia professores contratados para as aulas no Núcleo de Cultura. Demorou mais de quatro meses para que esses educadores chegassem. Então, comecei a dar aulas de teatro. O contato direto com os trinta jovens que se inscreveram para o curso foi essencial para compreender a natureza do meu trabalho como gestora cultural.
Grajaú, São Paulo, Brasil
Grajaú, o distrito onde se encontra o CEU Navegantes, tem a quarta maior taxa de homicídio da população masculina de São Paulo: 356 para cada 100 mil habitantes, segundo um informe da ONG Sou da Paz. Os assassinatos são causados principalmente pelos conflitos entre traficantes de drogas. Isso não é novidade para ninguém, a pergunta que me preocupava era: de que forma os instrumentos da cultura podem atuar para reduzir a violência entre esses jovens?
Começamos as aulas de teatro com trinta participantes. Em duas semanas de aula, a conversa era mais dinâmica e falávamos de muitas coisas como a realidade das drogas no entorno, a violência, a falta de perspectiva em relação a terminar os estudos e as aspirações para o futuro. Nesse contexto de convivência, o que me intrigou foi a percepção de que a luta não era só contra as drogas e a violência, mas uma luta contra a percepção de uma realidade estática. Me dei conta de duas coisas muito importantes como ponto de partida de uma analise sociológica: a primeira é que os jovens desacreditam na mudança da realidade. E outra de distinta natureza, mais perversa, é que o sonho estava no consumo de produtos, e portanto, no campo da imagem. Isso é, pensar em mudar algo para o coletivo, onde as melhoras se extendam à comunidade, é pouco provável. O que se faz é mudar a imagem por conta própria, ou seja, se vestir bem, ter um tênis bacana, um iPhone. Pertencer a um grupo de jovens bem sucedidos é uma questão de imagem. Foi esse ponto que me chamou a atenção. Esse desejo pelo consumo os leva a cometer delitos graves e crimes. “Se quero esse celular, tenho que vender coca”, ouvi. E por quê?
Porque apesar de não assistirem às aulas, não terem acesso a muitas atividades culturais, e nem motivação para assistir às poucas que são oferecidas, a periferia jovem sim está sendo educada e culturalizada. Pela televisão. A imagem aspiracional é a imagem da televisão e seus ídolos. A cultura de consumo, o individualismo e a dependência econômica em busca da felicidade são as diretrizes dos comportamentos dos jovens. Claro que há exceções, mas falemos da maioria.
Ante esse cenário, comecei a desenhar o plano pedagógico do Núcleo de Cultura, baseado no resgate dos sonhos. Trabalhamos com referências e experiências positivas, no desenvolvimento de um espaço de convivência entre as contradições que nos rodeiam dia a dia. Trouxemos o passado e o futuro, o sonho e o pesadelo, a ação e a inércia. Começamos o projeto como uma grande batalha, uma utopia. Durante o processo, especialmente no grupo de teatro que se prolongou alguns meses mais, sofremos algumas baixas. Um aluno teve que abandonar o curso, porque começou a trabalhar como office-boy no centro da cidade. Outro perdeu três semanas de aula, seu irmão estava sofrendo de aids no hospital. E outro que não pode continuar, já que trabalhava no tráfico e não tinha os horários livres necessários para o curso. Muitos valores, muitas medidas, muitas referências. Muito que trabalhar para construir um sonho. E construir sonhos não é fácil.
Cenário de sonhos
Muitas coisas se passaram desde 2003. Permaneci por mais 7 anos na gestão cultural de diferentes CEUs. E ao mesmo tempo, fiz parte de uma consultoria de tendências de consumo, que produz pesquisas de comportamento entre jovens de 18 a 24 anos. Este trabalho de pesquisadora permitiu ampliar minha visão sobre o outro lado da moeda. Era como se gestores culturais e arte-educadores trabalhassem por um lado na construção da autonomia, e por outro, as grandes empresas trabalhassem na construção da dependência do consumo. Eram dois lados contraditórios usando a mesma essência: os sonhos e aspirações da juventude.
Encontrei alguns jovens sonhadores na periferia. Eram quase cinquenta que frequentavam as diversas oficinas de cultura oferecidas no CEU. Estudavam música, dança, teatro. Juntamos esses jovens num grande grupo em busca de um objetivo em comum: produzir um único espetáculo ao invés de muitas apresentações individuais. Em alguns meses de trabalho, estreamos um musical chamado Rauzito, com sete professores e quarenta e sete alunos. Permanecemos em temporada por um ano. Nos apresentamos em mais de 20 equipamentos culturais diferentes totalizando mais de 10 mil pessoas na platéia. Os jovens se apropriaram do espaço público, dos instrumentos musicais, da experiência artística, de seus corpos, de sua expressão, de sua voz. Construíram através de concessões, diálogos e suor, um trabalho coletivo.
Enquanto isso, as grandes marcas investigam quais são as aspirações e paixões e as transformam em produtos. A indústria do marketing, que também é cultural, pois influencia diretamente o comportamento, gasta milhões em pesquisas que buscam exatamente a mesma essência da motivação. O que pode conquistar esse jovem? Que ídolo? Que emoção esta ligada a esse produto? Qual a identidade local que podemos agregar à imagem da marca? Toda essa investigação muito bem utilizada pelos departamentos de marketing são quase que ignoradas pelos departamentos culturais.
A cultura exerce sua contribuição na construção da autonomia, do espaço público e da coletividade. Pertencer a um grupo pode ser compartilhar ideias e ações, mas também para compartilhar ilusões consumíveis. Por isso é tão importante que os gestores culturais comecem a olhar as estratégias de marketing das empresas como algo que influi diretamente em seu trabalho. Claro, nem só os gestores culturais, mas todos aqueles que trabalham com cultura e educação. Se o objetivo de um gestor cultural é a construção de um espaço de convívio e diálogo, de diversidade e identidade cultural, olhemos do ponto de vista de que o bem mais precioso é o tempo, e estamos competindo minuto a minuto com nossos colegas publicitários. Construiremos sonhos ou ilusões?
*Publicado originalmente na revista Gestión y Cultura (ES)