Contra-hegemonia e resistência no cinema sul-americano

Contra-hegemonia no cinema sul-americano

O cinema é uma das atividades culturais que mais tem se tornado alvo de interesse tanto de governos quanto de empresas, tanto nacionais quanto internacionais. Isso porque o cinema representa, para alguns, uma forma artística que envolve diferentes linguagens, e para outros uma indústria que envolve diferentes profissionais e recursos.

Além disso, o cinema, ao completar seu primeiro centenário de existência, ampliou seus horizontes e janelas de exibição, tornando-se um entre vários espaços de veiculação das mídias audiovisuais, em vias de sua digitalização completa.

A ideia de uma cinematografia hegemônica, dentro de um circuito de produção, distribuição e exibição realizado pelas grandes corporações do entretenimento norte-americanas, em especial as “majors” hollywoodianas, somente é entendido dentro de uma perspectiva de contraponto com as cinematografias nacionais, espalhadas por todo o mundo. Esses circuitos de produção, distribuição e exibição nacionais são cooptados para participar como extensões do mercado dos produtos exportados por Hollywood e outras regiões, anulando ou dificultando qualquer iniciativa governamental e empresarial de enfrentar a produção estrangeira.

A América do Sul enfrenta essa situação peculiar desde o surgimento de suas diversas cinematográficas nacionais na virada do século XX. Em diferentes momentos da história dos países sul-americanos, os governos nacionais estiveram cooptados ou não com a indústria cultural e a cadeia produtiva cinematográfica hollywoodiana.

Visto que, desde a doutrina Monroe – proclamada pelo governo dos Estados Unidos, de meados do século XIX – dizia que a América seria dos “Americanos”, podemos afirmar que este tipo de pensamento hegemônico tem sido seguido ao pé da letra pelos grandes estúdios de cinema dos Estados Unidos, no que tange ao cinema. Por isso, problematizar essa situação nos leva a diferentes questionamentos acerca dos caminhos traçados pelas diversas políticas cinematográficas na América do Sul.

Primeiramente, quais países podemos apontar como representantes da cadeia produtiva sul-americana de cinema, isto é, quais as nações ao longo da história do cinema na América do Sul podem ser considerados fundamentais para compreendermos e explicarmos a situação por qual passaram e que ainda resistem por meio de iniciativas governamentais e empresariais em realizar um cinema nacional.

Provavelmente, na América do Sul, apenas seis países representam o cinema na região. Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela. Já que existe uma significativa quantidade de nações sul-americanas que apresentam uma produção pífia, quase inexistente ao longo de décadas, como por exemplo Guiana Francesa, Guiana Inglesa, Suriname, Equador e até mesmo Paraguai e Uruguai.

Segundo, qual a situação econômica em que se encontram os setores cinematográficos dos países representantes das diferentes cinematografias da América do Sul, ou seja, como são avaliados os segmentos da cadeia produtiva do cinema nesses países (produção, distribuição e exibição), tanto sob o ponto de vista dos filmes produzidos e distribuídos, quanto dos espaços de exibição convencionais. Cada país possui uma realidade econômica e cultural própria, mas que em última instância se aproximam dentro da perspectiva de enfrentamento da produção cinematográfica estrangeira hegemônica.

Por fim, e neste caso aquele que daremos mais atenção, que tipo de legislação e regulamentação são aplicados e engendrados dentro e entre os países sul-americanos para resistirem e enfrentarem a concentração e imposição dos produtos cinematográficos estrangeiros hegemônicos, tais como mecanismos de fomento a produção e co-produção, cota de tela para exibição, distribuição estatal ou independente, editais de financiamento público, fundos setoriais, etc.

A preocupação para compreender as estruturas de regulamentação e legislação existentes na América do Sul possibilitará explicar se existem um ou vários modelos de políticas públicas cinematográficas comuns na região. Portanto, construir um problema sobre as perspectivas cinematográficas na América do Sul requer uma divisão sobre três eixos: o cultural, o econômico e o político.

Cultural porque será preciso identificar quais os países sul-americanos representativos por apresentarem uma verdadeira cultura cinematográfica até os dias atuais; econômico porque será necessário compreender quais as diferentes realidades dos mercados cinematográficos dos países sul-americanos representativos para a pesquisa; e político porque será essencial explicar quais os modelos de regulação e legislação de apoio a indústria cinematográfica existentes nos países sul-americanos que servem para resistir e enfrentar a supremacia hegemônica dos filmes estrangeiros, especialmente, os hollywoodianos.

O Brasil está para a América do Sul assim como a América do Sul está para o Brasil. As relações cultural, econômica e política entre os países sul-americanos constroem os laços existenciais e de identidade dos povos da região. Não é somente a geografia que define sua aproximação de identidade, mas a história, a língua, a cultura, a economia e, especialmente, os anseios políticos que outrora caracterizaram suas sociedades.

Dentro desse caldeirão chamado América do Sul, o cinema não estaria de fora. Além do mais, por meio do cinema, as nações sul-americanas se encontram dentro de uma lógica de resistência e enfrentamento diante da supremacia hegemônica da produção, distribuição e exibição dos produtos cinematográficos norte-americanos. O Brasil e seus hermanos sul-americanos cada vez mais têm se esforçado tanto no fortalecimento de sua produção local no mercado interno como também na circulação dos seus filmes nacionais nos diversos países vizinhos e em outros continentes. Assim como inúmeras questões se tornaram recorrentes na construção de políticas publicas cinematográficas na América do Sul, que incluem, por exemplo, o financiamento à produção, a ampliação dos parques exibidores e a proteção do produto nacional perante as superproduções estrangeiras.

Sabemos que obstáculos sempre existiram na história de suas cinematografias, que se diferenciam a cada mudança de fronteira, mas o desejo de sobrevivência perpassa e aglutina os diálogos e modelos de resistência e enfrentamento de suas respectivas políticas cinematográficas. Provavelmente, na América do Sul, apenas seis países representam o cinema na região: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Venezuela. Isso porque são países emergentes, tanto econômica quanto politicamente, e desta maneira suas cinematográficas almejam alçar vôos mais altos na história do cinema de seus países como na história do cinema mundial. Em alguns casos já pontuaram na linha da história do cinema mundial, mas ao invés de se satisfazerem como casos isolados, desejam que se tornem comum e crescente a produção e participação de seus filmes no cenário regional e internacional, como Tropa de Elite 2, do Brasil, que ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2009, La Teta Assustada, do Peru, que ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2011, ou Los Segredos de los Ojos, da Argentina, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

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