Muito tem se falado sobre a capacidade que grandes eventos esportivos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, têm de gerar investimentos e crescimentos na economia de países que recebem essas competições. Nada mais certo. Mas há no Brasil um setor ainda bastante inexplorado, mas que tem tão ou mais potencial de gerar crescimento econômico que competições esportivas. O setor cultural.

Sabe-se que o investimento em cultural tem um efeito multiplicador gigantesco. Só para se ter idéia, cada 1 real investido em cultura tem a capacidade de gerar tão ou mais empregos diretos e indiretos do que o mesmo valor investido, por exemplo, no setor automotivo.

O próprio ex-Primeiro Ministro britânico Tony Blair, quando realizou o planejamento econômico de longo prazo para a Inglaterra, incluiu a cultura como prioridade. Trata-se de um dos países que mais recebem turistas para eventos culturais em todo mundo.

Mas pouca gente acordou no Brasil para isso – incluindo aí os nossos governantes. E também a imprensa de economia, que insiste em não dar a devida atenção em suas pautas ao alto potencial econômico do setor cultural.

Em outras palavras, a cultura é freqüentemente excluída da agenda brasileira.

Isso sem falar no potencial de evolução social, educacional e humana que o setor cultural proporciona. Hoje já se sabe que quanto mais dinheiro se investe em cultura, melhor é o nível social da população, o seu IDH, que, aliás, é um indicador que está baixíssimo no Brasil, bem atrás do de outros países da América Latina.

Tal discussão é importante porque atualmente se debate muito a questão da lei Rouanet, principal lei de incentivo à cultural do país e que só no ano passado gerou mais de 1,2 bilhão de reais investidos em projetos culturais. Muito se critica tal legislação e se tenta mudar esse sistema.

Claro que a lei – como qualquer outra – requer evoluções, modernizações. Mas antes de se criticar por criticar é bom que se saiba que a lei Rouanet ajudou e muito nas últimas duas décadas a melhorar o mercado cultural brasileiro. Fazê-lo crescer e se profissionalizar.

Isso é inquestionável e deveria levar os críticos a pensar duas vezes antes de exigir mudanças muitas vezes simplistas e ideológicas. Trata-se de uma trajetória de realizações que nos deveria fazer “proteger”, aperfeiçoar esse mecanismo e não destruí-lo.

Há mais de 10 anos como atuante produtor cultural e usuário assíduo da lei Rouanet, tenho sido testemunha ocular do quanto essa legislação ajudou a evoluir o nosso mercado cultural.

Hoje há, por exemplo, cursos superiores de produção cultural em grandes universidades brasileiras, coisa que não existia antes da Rouanet.

Mais do que isso, a lei ajudou na criação de diversas produtoras culturais, que estão cada vez profissionalizadas em todos os sentidos, inclusive nas questões trabalhistas, registrando funcionários e artistas – coisa que também era raro em nosso mercado.

A existência de grandes e bons institutos culturais de empresas também deve muito à lei Rouanet, mecanismo que garantiu a existência de centros culturais de excelência. Isso sem falar no cinema nacional que também deve seu renascimento às legislações de incentivo à cultura.

Hoje, o mercado cultural brasileiro avança a passos largos. A profissionalização vem ocorrendo num crescente. Produções de grande musicais, por exemplo, que antes só eram encontradas no primeiro mundo, já são corriqueiras nas grandes cidades.

Nesse contexto, é preciso se pensar muito quando o assunto é “mudar as leis de incentivo”. Claro que aperfeiçoamentos devem e podem ser feitos. Mas é preciso ter uma mentalidade de “preservação” e não de “destruição” do que já conquistamos, por exemplo, em quase 19 anos de lei Rouanet.


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Antoine Kolokathis, fundador da Direção Cultura Produções, que atua há 22 anos com leis de incentivo e é associada a diversas entidades do segmento, como a APTI (Associação de Produtores Teatrais Independentes), ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos) e FBDC (Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais).

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