A cidade criativa, a indústria criativa, a economia criativa.
Potencializar o local, tornando possíveis encaixes regionais com resultados globais.
O ser humano enquanto protagonista do espaço que habita, o ser social como articulador e diplomata de sua comunidade, cada comunidade como voz ativa dentro da cidade, valorizando sua ancestralidade, seu lastro histórico, visitando sua identidade, revitalizando os questionamentos globais no local, trocando as formas de viver, sedimentando calendários, trabalhando em comunhão a economia da vida.
Os agregadores das tecnologias, todas elas, das simples às inovadoras. A difusão se justifica quando o conteúdo convence.
A economia vem com o paradigma de administrar recursos finitos para demandas infinitas, sempre. A indústria vem legitimar algo que sedimenta formatos replicáveis, passíveis de troca, venda, usufruto. A cidade talvez seja a ponta primeira localizável e reconhecível para o ambiente das trocas finais. Os grandes centros são as grandes vitrines do possível.
As políticas públicas são o resultado do diálogo insistente, através das disputas várias, sobre o consenso possível para o momento previsto de continuidade.
No reino das possibilidades dentro do entendimento de economia, a sociedade civil é a reunião de cidadãos, alocados em cada espaço individual, compondo a retórica do viver em conjunto, através da criatividade aplicada ao dia-a-dia, criando indústrias, gerando a economia do viver. Todas nossas discussões se fundam na vida acontecida, experimentada, repartida, concentrada, cerceada, oprimida, usufruída. Se a busca do consenso possível se apresenta aparentemente infindável, faz-se necessário instituir parâmetros para compreender a qualidade adquirida através da experimentação das políticas públicas, das indústrias e da tal famigerada criatividade para as sociedades compostas.
No Brasil o encontro de políticas públicas voltadas à cultura com organizações da sociedade civil tornou possível o acompanhamento das estações, ou seja, a criação da permanência de calendários envolvendo eventos formativos, de fruição, de programação cultural e artística permanente. Sem a intenção de ser excludente evidencio prioritariamente 3 redes/programas de cultura: Pontos de Cultura (Política Pública implementada pelo Ministério da Cultura); Conexão VIVO (Programa Privado de Patrocínio via Leis de Incentivo à Cultura) e Circuito Fora do Eixo (Organização Independente da Sociedade Civil de coletivos, artistas, agentes, profissionais liberais, entre outros). Ambos são experiências que podem ser consideradas recentes. Conexão VIVO com 12 anos de existência. Pontos de Cultura e Circuito Fora do Eixo surgindo ambos por volta de 2005. Este encontro possível de recortes do cenário macro, a uma primeira amostragem, pode nos parecer envolto da alcunha do global. Porém, as rotas de circulação – principalmente as micro rotas – possibilitaram tanto dinamismo que levaram as cidades a se questionarem rapidamente sobre sua identidade cultural genuína contribuinte para a cultura local, regional e nacional. O movimento global catalisou o local.
Como exemplo menciono agora Barbacena, interior de Minas Gerais. Conhecida como Cidade das Rosas e/ou Cidade dos Loucos. Abrigou Ponto de Cultura desde o primeiro edital (2004/2005), com o grupo Ponto de Partida de Teatro, que além de trabalhar as duas alcunhas de identidade da cidade criou a Bituca Universidade de Música Popular. Barbacena foi base de criação também do Coletivo77, de produção cultural e audiovisual. O Coletivo77 encontrou possibilidade de interlocução nacional através da plataforma Circuito Fora do Eixo, mesmo tendo surgido independente dela. O grupo Ponto de Partida integra o programa CONEXÃO VIVO. Ambos se encontram no calendário espontâneo criado por ambos, interagindo diretamente na formação de profissionais da cidade e oferta de programação na cidade e em diversos pontos do Brasil. O poder público municipal criou o Museu da Loucura e o Festival da Loucura. Uma temática que, há algumas décadas, era motivo de um tipo de vergonha cívica, pelo lastro pesado dos anos em que a loucura não possuía tratamento adequado. Entre essas costuras e encontros iniciamos agora o trabalho do slogan “Loucura Que Cria, Loucura Que Cura”, ligando o trabalho artístico profissional desenvolvido há algumas décadas na cidade com a ocupação livre de espaços públicos e programação cultural variada e diversa, na busca de encontrar os termos mais adequados à contemporaneidade para abrigar um Festival Internacional dentro da temática da loucura, potencializando arte bruta e resgatando todo legado artístico possível na cidade.
Os Pontos de Cultura sendo ativados enquanto rede que resgata e mantém valores tradicionais e diversos da cultura popular brasileira. O Circuito Fora do Eixo enquanto plataforma necessária de transição tecnológica, mensuração de capital simbólico, sistematização de calendários para a arte independente, iniciando na música através da Rede Brasil de Festivais, indo até o audiovisual pelas SEDAS (Semanas do Audiovisual), trabalhando o conceito de formação e universidade livre através dos “campus temporários” em cada festival realizado. O programa CONEXÃO VIVO enquanto exemplo de abertura de trincheira junto às leis de incentivo, estaduais e federal, criando tecnologias de gestão compartilhada de recursos junto a patrocinadores no setor empresarial e negociando diretamente novos formatos possíveis junto às Secretarias e Ministério de Cultura.
Ou seja, mesmo sendo um tanto longo este estudo primeiro de caso, ele intenta refletir uma leitura macro-geral de contexto em um país continental, com vários Brasis dentro de um Brasil – com todos falando a mesma língua, e entender que isso só se justifica pela possibilidade criativa de se ter pertencimento e resgate locais, interligados à forma milenar de se gerir a comunidade, calendários e recursos, simbólicos e financeiros, compreendendo ambos como os fiéis da balança criativa econômica da vida. Como sequência, o local em efervescência, ou os locais, realizando trocas sistêmicas ao longo do ano, torna-se possível pensar a indústria em novos formatos, desde a rede de cineclubes e seu novo fortalecimento, ao novo padrão de festivais de artes integradas e mesmo a inserção da educação em novos formatos experimentados como amálgama da educação formal com a cultura. Soma-se a criação de moedas complementares diversas e a mensuração igualitária do tempo de trabalho em prol da arte e da cultura, tanto em remuneração de dinheiro real quanto em horas dedicadas (possíveis de especulação de valor após a convenção do valor/hora trabalhada). Aí começamos a visualizar o intangível em algum grau de mensuração real, passível de trocas nos diversos níveis: local, regional, nacional, global.