Há uma verdade sobre os livros que, de tão óbvia e banal, parece ter sido deixada à margem pelo mercado editorial – é o fato de que eles, quaisquer que sejam os perfis em que se encaixam, são feitos de pessoas para pessoas. Isto significa que, para grande parte dos autores que hoje se sentam em frente à tela branca, seus possíveis leitores são apenas um fato a mais a ser considerado em meio a dificuldades mais urgentes, tais como as de encontrar uma editora interessada, escrever o tipo de livro atualmente desejado pelo mercado, divulgar o projeto a um público suficientemente amplo ou juntar o dinheiro necessário para recorrer à autopublicação. Somadas, estas e outras dificuldades transformam o sonho de ser publicado em uma corrida de obstáculos, que desanima antes mesmo da largada.
É por isso, talvez, que o conceito do crowdfunding soa tão elegante – porque ele usa o poder de difusão da internet não para tornar essa relação ainda mais complexa, mas para trazê-la de volta à sua simplicidade original, transformando autores e leitores no que eles de fato são: dois extremos de uma conversa que foge às regras da comunicação usual, e que passa ao largo (na medida do possível) das exigências mercadológicas mais artificiais.
A premissa, de fato, não poderia ser mais simples: autores são financiados diretamente por seus leitores em troca de um acesso mais íntimo ao processo de criação e de recompensas exclusivas e variadas. Quem financia, o faz não por piedade, mas porque deseja ver o projeto concretizado, enquanto quem é financiado publica não para uma ideia obscura de mercado, mas para leitores com nome e sobrenome, que se dirigem a ele sem intermediários.
Dois anos atrás, iniciativas como esta teriam sido (e foram) vistas com descrédito ou tidas como moda passageira. Afinal, o crowdfunding exige antes de tudo um salto de confiança por parte do usuário, que se vê requisitado a pagar por algo que ainda não existe, e a acreditar que – caso o projeto não seja concretizado – ele receberá o dinheiro de volta. Mas fato é que, nos Estados Unidos e em boa parte da Europa, este salto já foi dado há tempos, e agora se consolida no Brasil. Com a popularização das plataformas de crowdfunding, os clientes percebem cada vez com mais entusiasmo, e até com algum assombro, que somente têm a ganhar – e que, muito além de uma moda, o financiamento coletivo representa uma nova maneira de consumir, mais inteligente, cordial e democrática.
No que diz respeito aos livros, o crowdfunding se soma a um movimento de empoderamento dos leitores, que aos poucos ganham ferramentas para ler de uma maneira nova (Kindle), para fazer críticas aos livros e influenciar o mercado (GoodReads) ou para financiar os livros que lhes interessam (Bookstorming, no Brasil; Pubslush, nos EUA; Unbound, no Reino Unido). Por meio de plataformas dedicadas exclusivamente aos livros, eles se fortalecem como comunidade e fazem a roda do mercado girar de acordo com seus próprios anseios, indicando tendências e determinando os caminhos da produção editorial.
Nada disso significa que as casas editoriais se tornarão obsoletas, por dois motivos muito simples: em primeiro lugar, porque editar um livro continua a ser uma tarefa complexa, que exige um olhar experimentado de modo a transformar o original em um produto agradável; e em segundo lugar, porque a enorme massa de originais produzidos diariamente em todo o mundo eleva o editor a elemento essencial de intermediação e seleção de material. Sem ele, o que teríamos seria uma gigantesca nuvem de palavras desconexas vagando pela web, em meio à qual as obras de qualidade se perderiam para sempre.
O futuro da produção de livros, portanto, está na interseção de um processo editorial ainda mais cuidadoso – que leve em conta toda a complexidade da produção e da divulgação digitais – com uma disposição a enxergar na aproximação entre autores e leitores um caminho para uma nova forma de criação. Ao se concentrarem nessa relação essencial, as plataformas de crowdfunding dedicadas aos livros estão revelando que é possível fazer a roda do mercado girar de modo mais inteligente, e que o poder de fazê-lo está nas mãos de autores e leitores.
*Breno Barreto estará no Cemec no dia 29 de novembro, para o curso Inovação no Mercado de Livros. Clique aqui para ver o programa completo e se inscrever.