Em pleno Centro-Oeste, extensa região que cerca Brasília por todos os lados, a ministra da cultura Ana de Hollanda foi chamada por um prefeito de “excelentíssima ministra Ana Caetano Veloso”.
Há testemunhas e está gravado. O fato se deu em evento oficial e foi protagonizado pelo prefeito da Cidade de Goiás (anteriormente conhecida como Vila Boa, primeira capital e berço da cultura goiana), antes de o mesmo engatar a leitura de seu discurso de saudação à ministra visitante, que fora constatar in loco os estragos das águas ao patrimônio histórico daquela cidade.
O escorregão do prefeito vilaboense está longe de ser apenas uma piada e merecer os habituais comentários jocosos na internet –ou nem isso.
Mas a verdade é que este lapso involuntário, fruto de uma ignorância em estado puro, é sintomático de uma trágica situação. Merece reflexão e desperta nosso espanto, ver que apesar dos avanços institucionais e orçamentários apresentados nos últimos anos pelo Minc, mesmo nos rincões, digamos, mais ilustres (a Cidade de Goiás é patrimônio cultural da humanidade, pela Unesco), tudo continua como dantes.
Se um dos principais feitos de Gilberto Gil e seu avatar Juca Ferreira foi ajudar a popularizar o Ministério da Cultura (com Gil, o Minc passou a ser assunto até de camioneiros, entre uma música e outra), é bem verdade que, mesmo assim, as coisas da cultura continuam a passar ao largo dos interesses do jogo político e das relações administrativas com o Palácio do Planalto, mormente nas esferas municipais, como exemplariza o prefeito desta cidade a apenas 250 Km do solene gabinete ministerial de “Ana Caetano Veloso”.
Neste contexto alarmante, a portaria baixada em 02 de dezembro do ano passado, nos extertores da administração anterior, impedindo convênios e repasses federais para as prefeituras que não tenham ou não cuidam de sua biblioteca municipal, deveria ser ampliado para não somente os convênios com o Minc, como é da alçada da referida portaria, mas para os tratos municipais com todos os outros ministérios, seja qual for a alçada governamental.
Enfim, sem cultura, isto é, sem biblioteca existente e bem cuidada, que é o mínimo que se pode exigir de uma Prefeitura decente, não há repasses de Brasília. Esta deveria ser a palavra de ordem do governo brasileiro.
Dessa maneira, as coisas da cultura, mesmo que de forma compulsória, passariam a ser buscadas e conhecidas pelos administradores locais. E, finalmente, apesar da presença pairante do nome de Caetano Veloso e do irmão famoso que ela tem, Ana teria seu sobrenome decorado, como se decora o nome de qualquer autoridade de grande importância.
É um passo que requer firmeza, o passo compulsório, ampliado e aplicado rigorosamente, conforme sugerimos aqui. Mas a história já mostrou que a necessidade é que faz o hábito. Portanto, cultura neles! À luz do saber, os meios justificariam os fins. Ou não?