Foram dias intensos de trabalho. Mas mais prazerosos, impossível. Não só pela localização – o estonteante museu a céu aberto que é a cidade de Florença -, nem tampouco apenas pelo fato de a sempre inspiradora Itália ser um dos países que mais bem aproveitam suas singularidades culturais e criativas como base de desenvolvimento turístico, inclusão social e inovação econômica. Ou seja, um parque de diversões para os apaixonado por esse campo.

A maior gratificação do encontro, para alguém que há décadas promove os enlaces entre economia, cultura, desenvolvimento e cidades, foi o próprio tema do Terceiro Fórum Mundial da UNESCO em Cultura e Indústrias Culturais. Realizado de 2 a 4 de outubro, o congresso trouxe à baila a fronteira da vanguarda em pesquisa, inovação e as oportunidades envolvendo cultura, criatividade e desenvolvimento.

Até mesmo os discursos institucionais foram instigantes – para alívio de uma audiência muito animada, ao vivo e a cores e por transmissão online. Irina Bokova, Secretária-Geral da UNESCO, salientou a importância do programa das cidades criativas e das indústrias criativas, como verdadeiro petróleo de nossas economias e promotor de nossas culturas. Já o Prefeito de Florença, Dario Nardella, não resistiu a mencionar, de boca cheia (e com razão) que o Palazzo Vecchio, coração da cidade e que abrigou o fórum, tem uma estrutura de madeira invisível, de 54m x 23m x 18m, que resistiu até a bombardeamentos, séculos depois de ter sido construída. Porque, no Renascimento, arte e tecnologia eram um só corpo e essa união gerava uma força criativa que rompia qualquer paradigma. Exatamente o que defendemos, hoje, como eixo da economia criativa.

As falas de alguns ministros que participaram da abertura trouxeram matizes para nós pouco conhecidas de políticas públicas voltadas à economia criativa. Mari Elka Pangestu, economista e Ministra do Turismo e da Economia Criativa da Indonésia, por exemplo, relatou a resistência que o governo enfrentou, quando o ministério foi concebido. “Foi o início de um processo de conscientização de que criar um ambiente conducente à geração de valor é fundamental para a preservação e o florescimento da cultura. Meus filhos, hoje, usam batiks que nao teriam usado há 10 anos.”

Enquanto as centenas de inscritos de todos os continentes se alternavam entre as salas, algumas dezenas de peritos internacionais se debruçavam sobre trabalhos e palestras envolvendo temas efervescentes.

Dentre eles, os desafios para a economia criativa, como educação, estímulo ao empreendedorismo, acesso a crédito, criação de infraestrutura digital e institucionalização da agenda de forma transversal à estrutura pública e em parceria com o setor privado. Cinco dos desafios que já se tornaram um mantra nos países que trabalham essa agenda e que ainda temos de enfrentar com vigor. Na mesa seguinte, que eu tive o prazer de moderar, somaram-se vozes de especialistas de contextos tão distintos quanto China, França, Jamaica, Itália e Rússia. Visões complementares, com propostas convergentes, discutindo novas métricas para um mundo em transformação e a necessidade de promovermos educação de qualidade nos nossos países, para que a criatividade se converta em inovação – cultural, social, econômica, urbana.

Com base em todas as discussões, foi publicada ao final do encontro a Declaração de Florença. Como vocês verão, ela defende em alto e bom tom a potencial contribuição crucial da cultura para o desenvolvimento, em uma agenda pós-2015. Algo que é cada vez mais reconhecido não como dever dos países, mas como oportunidade para transformar a pujante criatividade de nossos talentos – artísticos e científicos – no recurso mais importante para sua satisfação pessoal e profissional e para o desenvolvimento, sobretudo em países que, como o nosso, passam por um período econômico muito difícil.

No Brasil e em boa parte da América Latina ainda temos muito a trilhar para que a criatividade seja alavanca de desenvolvimento. Isso é visível até mesmo na muito modesta presença de peritos da América Latina na lista de conferencistas, que nos contamos nos dedos, como Carlos Villaseñor (México), Héctor Schargorodsky (Argentina) e Omar López (Colômbia) – todos convidados não por sua nacionalidade, mas pelo trabalho que desenvolvem.

Felizmente, alguns países da região, como Colômbia e Peru e cidades, como Buenos Aires, vêm se consolidando no conteúdo dos debates. Somando-se à inspiração que eles nos trazem, surgem iniciativas que certamente contribuirão em muito para impulsionar essa agenda, como o compromisso da Itália em sediar um centro de estudos de envergadura mundial sobre cultura, criatividade e desenvolvimento. O Brasil não poderá ficar de fora. Como contribuição nesse caminho e com a esperança de que cada leitor se converta em um fervoroso defensor dessa bandeira, a equipe da Garimpo de Soluções traduziu a declaração para o português. Bom proveito!

*Clique aqui para ler a Declaração de Florença


Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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