Cultura e educação - Cultura e Mercado

Cultura e educação

“A educação e a cultura devem retomar os chamados “contextos sensíveis” em que a vida acontece. A desordem atual é causada pelo desejo irrefreado e induzido de sucesso no mundo de celebridades a qualquer preço.”

As relações entre os “setores” da educação e da cultura são difíceis, pois ainda são vistos como partes diferentes dentro do todo. Se, por um lado, a educação é praticada de modo rotineiro e automatizado, por outro a cultura é dinâmica, trabalhando com processos mais próximos das realidades sensíveis, ainda que possamos ver a mesmice também nas atividades artístico-culturais. Evidentemente estas imagens são representações “gerais” que nem sempre correspondem à verdade dos processos culturais e educacionais.

Hoje a educação já assimilou muito das práticas culturais comunitárias, desenvolvendo atividades e projetos com teatro, música, dança, literatura, etc. Já se percebeu que é preciso pensar a educação pelas artes e também que a cultura e a arte podem proporcionar a desautomatização dos comportamentos, pois elas são elementos dinamizadores das relações humanas e sociais.

A educação e a cultura devem retomar os chamados “contextos sensíveis” em que a vida acontece. A desordem atual é causada pelo desejo irrefreado e induzido de sucesso no mundo de celebridades a qualquer preço. O mundo é destruído pela esquisita fome de “diamantes de sangue”, mostrando que o capitalismo é senhor solenemente desejado por todos, pobres e ricos. A cultura entra em cena contra a barbárie do mercado mundial.

A tradição educacional iluminista fundamentada na pretensa predominância da “razão” sobre a “ignorância” entrou em crise ante os impactos das relações de trabalho impostas aos trabalhadores e também em relação à mídia e seus valores imediatistas. Essa cultura iluminista perdeu as luzes e só ficaram sombras clamando no “deserto do real”.

A educação e a cultura devem se juntar para descolonizar as cabeças do consumo fast food, numa ação de crítica à sociedade contemporânea do consumo de “drogas” impostas aos cidadãos, e fazendo com que a educação livre e criativa seja o oposto de uma formação instrumental voltada para o mercado. Cultura e educação devem se juntar para incentivar “ilhas de criação” que não separam o social do cultural e para criar a esfera pública educativo-cultural, desfazendo as escolas de ideologias tecnocráticas e corporativistas.

Juntar partes separadas pela lógica da especialização requer trabalho de vários atores sociais. Os professores que precisam refletir sobre seu empoderamento e sobre um pensamento atento aos “imaginários radicais” e contra o “trabalho morto”; os estudantes precisam se sentir agentes e não pacientes da educação; e os governos locais precisam repensar sua “partição” de poder em secretarias.

Enfim, é preciso reinventar a educação e a cultura que não sejam pautadas somente pela repetição de “frases” de correntes metodológicas da moda. E, como diz mestre Paulo Freire, “Não se decreta que, de hoje em diante, a escola será competente, séria e alegre. Não se democratiza a escola autoritariamente”.

Valmir de Souza

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