O Jornalismo cultural contra a comunicação

A fluência cada vez mais intensificada e acelerada das informações. Os dados e informações se sucedem em quantidade e rapidez tamanha, que nada mais surpreende efetivamente, nada detém, nada contra-inclina para algum movimento reflexivo. Ao perguntar por frentes de resistência ao caos da comunicação – ao qual ele chama, aliás, de patologia , Mario Perniola apresentou recentemente umas das mais positivas questões no âmbito do debate sobre a cultura das e nas mídias. A seu ver, a comunicação midiática leva à catástrofe da ordem simbólica, na medida em que os eventos são ali reduzidos à aparição pura, com a conseqüente dissolvência das capacidades de reflexão e memória. Ele pergunta, então, sobre como enfrentar a comunicação sem entregar-se ao niilismo ressentido. E responde positivamente: pela economia do interesse desinteressado, sobre o qual se funda a estética e à qual também respondem a lógica e a moral.

Sua resposta não poderia ser mais instigante para o jornalismo, notadamente o especializado em cultura. Ela pressupõe, primeiramente, uma pergunta: pode o jornalismo, e dentro dele o jornalismo cultural, resistir aos efeitos homogeneizantes da mídia e de seus fluxos? O que há de mais precioso, porém, é que essa pergunta pede, já pela própria resistência ao niilismo ressentido, o desdobrar-se numa formulação distinta: como pode o jornalismo cultural instaurar um movimento contra a comunicação? Há implícita, nesse movimento crítico, nesse pôr em crise, uma vontade de potência.

De fato, e assim o observa Perniola, o que a mídia hoje nos oferece, na ilusão da simultaneidade e da instantaneidade, não é a experiência do presente, mas a falta radical dessa experiência. A fluência cada vez mais acelerada de informações, num movimento que se dá contra o tempo, se dá contra a própria idéia de presente. O gesto pela imediaticidade entrou em ritmo de fluxo. Dados e informações se sucedem em quantidade e rapidez tamanhas que, no conjunto, nada surpreende efetivamente, nada detém, nada contra-inclina para a resistência ou a reflexão.

Ocorre, ainda, que a mobilidade do fluxo compele ao indistinto: pela rapidez, pelo excesso de informação, pela obliteração dos sentidos por um zumbido de dados. A agência política da arte, a idéia de comunidade que se forma pelo compartilhar estético, pela partilha do sensível, nas palavras de Jacques Rancière, perde-se no zumbido. O recorte, a seleção, a edição, que são talvez os mais agudos mecanismos da crítica cultural exercida pelo jornalismo, ficam obliterados pelo indistinto. Tudo é assimilado, cada coisa e o seu contrário, numa performance da excitação constante, com moldes de uma recepção igualmente acrítica e indistinta.

A imagem que se faz reincidente, diante da exaustão da experiência e da memória, é sempre a de Funes, personagem de Jorge Luis Borges. Irineo Funes, após sofrer um acidente banal, passa a ter memória e percepção infalíveis – desconhece o esquecimento. Insone e ruminante, segue indigesto por um mundo abarrotado de detalhes, aplastado pelo excesso de saber histórico. Assim, em torno das vicissitudes de Funes, Borges travava com Friedrich Nietzsche um diálogo imaginário sobre a vantagem e a desvantagem do esquecimento para a vida.

Nietzsche considerava que um indivíduo ou uma cultura apegados à “historicidade” das próprias ações vêem reduzidas as suas forças criativas, perdendo a capacidade de produzir uma nova história. O esquecimento é compreendido, nesse âmbito, não como inércia ou passividade, mas como força plástica modeladora, inibidora e primordial. No universo de Funes, o esquecimento, o corte, fundamentais para a reflexão e a tomada de posição no mundo, deixaram de ter lugar, atropeladas pelo ruído constante.

Prefigurava-se, portanto, na filosofia e na literatura, a crítica ao “tempo real” da comunicação midiática, num mundo em que os relatos e, por extensão, as identidades se desmancham em pontos móveis. Borges e Nietzsche podem ser relidos, sob essa ótica, como críticos premonitórios do estado de imersão informacional, no qual esquecer diferenças, generalizar, abstrair, enfim pensar, não parecem nem necessários, nem possíveis. Desenha-se a imagem de um mundo de pessoas ruminantes, uma população de Funes.

É uma imagem tomada pelo paradoxo: a diversidade cultural é concreta, crescente, e é a partir dela que se organiza – ou desorganiza – a idéia de comunidade, implícita na própria noção de cultura. Mas a grande indústria dos jornais, revistas e sites produz suas páginas na dinâmica do fluxo homogeneizante, desfiando assuntos em enfoques rápidos e repetitivos, mobilizada por uma agenda infinita e com vocação de consumo. O próprio consumo, aliás, é instrumento formador de identidades.

Uma descrição bem sedimentada das práticas do jornalismo cultural brasileiro, tais como se organizam atualmente, inclui justamente a referência à pauta dominada pela agenda. Como a agenda prioriza o retorno comercial, temos uma pauta em que preponderam os temas do comércio cultural. O terrível, nessa dominância, não é o fato simples de sua existência, mas perceber que os direcionamentos ao público atropelam vigorosamente a mediação da crítica e do jornalismo. Tudo associado à ligeireza nos tratamentos, com notas cada vez mais breves e mais substituíveis, em produção acelerada e com pequena retenção reflexiva.

É uma descrição que se adapta bem à boa parte dos jornais produzidos no Brasil, notadamente nas edições que circulam ao longo da semana, e às revistas de grande tiragem, inclusive em suas páginas on-line. E, como toda descrição com características tão gerais, é inválida para uma ou outra experiência mais segmentada ou mais independente. Existe sim, aqui e ali dentro da profusão de materiais, o tratamento bom e longo para o assunto reflexivo e grátis.

Felizmente. Porque esses filamentos que resistem ao disforme são como fulgurações. Acenam positivamente para a questão, tão urgente e contemporânea, quanto à necessidade de ainda insistir em diferenciar a comunicação massmidiática do jornalismo. Este integra o mesmo elemento daquela, e ambos se organizaram em simbiose. Os dois partilham uma aposta na utopia da transparência, fundada na tese do esclarecimento das maiorias. A comunicação, todavia, exibe sem timidez que é, enfim, o oposto do conhecimento, na medida em que dissolve e homogeneíza todos os conteúdos. Nada é assim tão claro em relação ao jornalismo, que mantém sua fé na informação e na formação dos públicos.

O jornalismo ao qual se qualifica como cultural (distinguindo, portanto, uma arena especializada na cultura), pode constituir-se como lugar privilegiado de enfrentamento da comunicação, justamente pelo explícito do ocupar-se dos temas culturais. Neste ponto, é importante registrar que, na perspectiva aqui adotada, o jornalismo cultural não se define intrinsecamente por uma temática, mas por um modo próprio de lidar com os temas, ou seja, por um modo de abordagem, de tratamento. E esse modo valoriza, nos temas, a formação e o trânsito do simbólico, do ritual.

Com essa definição bem situada, e ainda perseguindo a resposta do interesse desinteressado, o jornalismo cultural diz mais e mais se distingue da comunicação quanto mais se aproxima da arte, e, nesse aspecto, seu lugar é privilegiado dentro do jornalismo. Isso inclui projetos, objetos e execuções em si mesmos atraídos pelo sintoma da arte, assim como inclui a inscrição dos objetos da arte no interior nas páginas das publicações. Há até quem diga que publicar literatura não é jornalismo cultural, mas jornalismo cultural é também publicar literatura; seleção e disseminação da arte são de fato alguns de seus atributos centrais.

Se o jornalismo cultural, que se formou, historicamente, como agente da partilha, parece haver perdido a sua chave (uma perda que se repete entre os discursos da modernidade), talvez precise retornar mais uma vez pelo diferente. Este é um jogo com o positivo, sem dúvida, em que se reposiciona o jornalismo diante da poesia, do não-produtivo, da comunicação não-soberana – da parte maldita, como a definiu Georges Bataille. Porque, ao contrário da midiatização, que enclausura qualquer ordem simbólica no ligeiro e no indistinto, a poesia, a arte, a comunicação não-soberana criam e instauram uma nova ordem simbólica, uma maneira de agir baseada na imaginação e na memória. Essa sim, com capacidade de mover o mundo.

Daisi Vogel

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