Debate sobre a regulamentação profissional do jornalista e a sua formação acadêmica no exercício das atividades de produção de conteúdo e de gestão de veículos de mídia comunitária. Neste texto sobre jornalismo cultural, integrado a outros já difundidos e aos que advirão dentro da presente proposta temática, é permitido expressar dúvidas, a começar por esta da primeira frase, ao invés de justapor certezas pessoais e alheias?

Sem esperar pela primeira resposta, existe realmente o que pensamos entender por cultura? Subsiste o jornalismo? Apenas como hipótese, se a cultura desaparece e o jornalismo transmuta-se em qualquer coisa, menos a essência legitimatória da atividade, como podemos pensar em jornalismo cultural? Quanto mais praticá-lo?

Retrocedamos ao milênio, ao século e à década passados. Em algum dia qualquer de um agosto definido, busquei no órgão público municipal responsável pelo controle de trânsito as providências para o fechamento dominical de importante via em Porto Alegre (RS) para mais uma edição anual, no outubro vindouro, da Festa da Criança na Avenida.

Evento comunitário, ao ar livre, sem cobrança de ingressos, com dois palcos onde se alternariam, durante horas, grupos locais de canto e dança. Nas imediações, algumas dezenas de barracas servindo lanches com renda revertendo para clubes de mães, de pais e mestres, entidades assistenciais, de escoteiros, entre outros segmentos organizados da sociedade.

Cerca de oitocentos metros da avenida seriam fechados para o tráfego de qualquer coisa sobre rodas que não fosse bicicleta, triciclo, patins e afins. Quatro a cinco centenas de voluntários na organização e nas apresentações artísticas para público estimado em vinte mil a vinte e cinco mil participantes – e não assistentes.

O funcionário pegou o ofício, leu atentamente e informou que seria analisado para verificar se poderia haver autorização. Foi necessário alerta-lo de que a entidade comunitária que eu representava na oportunidade, coordenadora de toda a iniciativa, não estava ali para perguntar se podia. Estava, isto sim, para informar que faria, e quando o faria.

A tese desenvolvida então é que a Prefeitura não era proprietária daquele espaço público. Até porque aí ele não seria público… Ela gerenciava um bem coletivo que, um domingo por ano, era, por tradição, subtraído de carros, ônibus e caminhões.

Um jornal do bairro, providencialmente levado, permitiu evidenciar a importância da Festa da Criança na Avenida para quem não a conhecia. A licença saiu, o trânsito foi desviado dois meses mais tarde – estávamos em agosto e aconteceria em um domingo de outubro, lembra? – e tudo correu como esperado.

O evento festivo resumido acima pode ser considerado uma manifestação cultural? Não pode? Nem se pensarmos que se trata de uma afirmação orgânica da comunidade envolvida? Dela surgida e por ela coordenada? O bailado de crianças de uma escolinha de dança – apresentando no palco o Bolero, de Ravel, por exemplo,- não é expressão cultural ? É uma forma menor de arte? Devemos confiná-lo ao gueto do lazer, quem sabe da educação socializadora, mas nunca da Cultura com cê maiúsculo?

Quando nos livraremos da arrogância cultural e da sua manifestação mais perversa – pois dissimulada – que é a falsa humildade cultural?

A notícia veiculada no jornal do bairro era jornalismo cultural? Ou simples relato noticioso de atividade comunitária? Poderia ser ambos?

A cobertura pela imprensa do jogo de futebol é jornalismo esportivo? A da do dia do pleito é jornalismo político? A do café da manhã quando o empresário anuncia novos investimentos é jornalismo econômico? A da troca de tiros na subida do morro é jornalismo policial? Uma com outra, outra com umas ou até mesmo todas juntas, não poderiam integrar texto único, convergente, transversal, tangenciando aqui, atravessando ali, que mostrasse o quanto é tola a busca de compartimentação em um mundo de realidades complexas que só pode ser tentativamente expresso por pensamentos idem?

Quem atribui a nós, jornalistas, o direito divino da definição do que seja mais, menos ou ausente de cultura, decisão caracterizada pelo espaço e tempo proporcionais que dedicamos e/ou pela crítica pretensamente arrasadora ou laudatória?

Seria o diploma? Mas muitos dentre nós não reconhecem a necessidade da graduação para o exercício das práticas umbelicalmente ligadas a ideais traduzidos por condutas éticas que convencionamos chamar de jornalismo.
Seria a autoria cumulativa de conteúdos difundidos anteriormente por plataformas midiáticas e, face à qualidade, coerência e isenção – avaliadas por quem? -, reconhecida como merecedora de credibilidade?

Seria o reconhecimento dos pares sobre aquele que é ímpar? O fruto do carisma pessoal, o amparo de grande circulação ou audiência? O testemunho incensador do mito inconteste, amigo de longa data? Ou uma postura impávida, tipo “cumpro
minha missão e não estou nem aí para a crítica da minha crítica”?

Qual o motivo de ainda insistirmos com o conceito de “formadores de opinião” quando somos, tão somente e felizmente, apenas repassadores da opinião própria ou da de terceiros? E por que necessitamos tecer uma aura de intangibilidade que nos permita flutuar sobre o comezinho e o comecinho do importante?

O quê de produtivo para o debate surge de um jogo de palavras como o proposto pela sentença anterior? Quantas vezes a falta do que dizer é mascarada pelo estilo elegante, pelo hermetismo vocabular, ou por chistes, pilhérias, motes, motejos, facécias, galhofas e quejandos?

Se liquidificados, pouco resta de incontáveis textos do jornalismo cultural e, dos que sobram, expressiva parte ainda revela-se melancolicamente incompleta frente à possibilidade que estava descortinada antes da primeira capitular ser aposta.

Aí, quem capitula é o receptor.

O ponto anterior é o 5.664º caracter (com espaços) dos seis mil solicitados. Cumpre, portanto, encaminhar o fechamento destas considerações, não sem antes agradecer pela paciência dos que até aqui chegaram e, especialmente, a quem leu mais nas entrelinhas do que nas próprias.

Invejo, genuinamente, a quem tem respostas. Não as encontro, até porque muito me custa formular perguntas.

Parafraseando o pensador espanhol, eu sou eu e minhas perplexidades.

Reconheço algum (enorme?) distanciamento entre a propositura original deste texto e o efetivamente apresentado.

Lamento tolher expectativas porventura existentes. Mas, em havendo debate, poderei recuperá-la.

De momento, é o que tenho a dizer sobre o jornalismo cultural. Na falta momentânea de apoio latino especializado, arrisco-me a garantir de memória que quod scripsi, scripsi. In claris non fit interpretatio.

Mário Villas-Boas


contributor

*Jornalismo Cultural em pauta* Série de artigos sobre Jornalismo Cultural Independente, organizado por Eduardo Carvalho para o Cultura e Pensamento, programa nacional que promove incentivo ao debate crítico, com o propósito de fortalecer espaços públicos de reflexão e diálogo em torno de temas relevantes da agenda cultural contemporânea.

2Comentários

  • Cris Braga, 28 de fevereiro de 2008 @ 10:29 Reply

    Gostaria de parabenizar o Mário pela excelente reflexão em torno do tema jornalismo cultural. Raras são as vezes em que temos na mídia uma oportunidade de nos desnudar do quem somos e para onde vamos.
    E mais, o que queremos com isso.Contundente, cruel, assim como a realidade do dia-adia..
    Cristina Braga

  • Pedro, 22 de setembro de 2009 @ 16:59 Reply

    Oi.
    Adorei o texto. Encontrei tambem um forum para debater temas de arte e cultura(que é raro de encontrar), http://www.forumrapido.com entrem no forum Artes e Cultura. Espero ter ajudado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *