CULTURA E PENSAMENTO – A mutação da sociologia de Francisco de Oliveira

Conferência do sociólogo no segundo dia do ciclo de conferências “Mutações, novas configurações do mundo”, que faz parte do programa Cultura e Pensamento, aponta que o estado-nação está fadado ao desaparecimento, sobretudo aqueles que estiverem na periferia das decisões econômicas.

Na última quinta-feira, 23, ocorreu nas dependências do SESC na Av. Paulista em São Paulo o segundo dia do ciclo de conferências “Mutações, novas configurações do mundo”. Com a curadoria de Adauto Novais, esta edição encerra a trilogia de ciclos que, na primeira edição, teve como temática o “silêncio dos intelectuais”, seguido de o “esquecimento da política”, em 2006. Esses ciclos fazem parte do programa Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura, do qual o Cultura e Mercado participará em 2007 apresentando diálogos sobre o “Jornalismo Cultural em Pauta” (leia mais aqui).

Auditório cheio. Na platéia gente das mais diversas áreas de atuação: estudantes, professores, intelectuais, artistas, entre eles o músico e compositor Tom Zé, todos ávidos por tentar desvendar as faces das mutações, assim como propõe o curador. O ilustrador da noite era o sociólogo Francisco de Oliveira, que apresentou seu colóquio “Revoluções, Mutações”. Que respostas daria o intelectual frente às novas configurações? Nenhuma. Foi assim, que ele começou sua fala, dizendo não poder ajudar a construir possíveis respostas a essa nova configuração, e que apenas balbuciaria algumas colocações que conseguira sinalizar.

Segundo ele, há dois eixos que caracterizam as mutações: a biológica e a geológica, que para as ciências humanas é equivalente à Revolução. Assim, extraiu os eixos que sustentam o mundo contemporâneo: a Revolução Tecnológica e a Globalização e Mundialização. O que mais representa o primeiro eixo é a eminência da recriação de seres humanos, e o segundo é o fato deste modelo alterar por completo a vida humana, em especial as estruturas de trabalho, que se tornam cada vez mais dispensáveis. Foi a revolução tecnológica que tornou a globalização possível, e esta por sua vez reduz as noções de espaço e tempo em instante.

Vê-se por sua filiação marxista uma atenção veemente ao trabalho que, segundo Oliveira, acontece de forma cada vez mais insignificante no mundo capitalista. O sistema precisa e absorve esse trabalhador, que fora das disputas pela via formal, arranja-se em “ocupações” para sobreviver. E exemplificou o caso dos catadores de papelão, cujo perfil são de pessoas com idade elevada e excluídas da competição do mercado de trabalho. Ainda para o sociólogo, a globalização desdobra-se ainda em outros cenários, onde a ficção tornou-se realidade: “Ela move o real, isso está implícito na força do capital financeiro, que se tornou motriz. Sua dimensão é incalculável, não há teoria capaz de explicar qual o tamanho do fictício na realidade. E o capitalismo usou o Estado para equilibrar o fictício e o real, tornando-se um poderoso antídoto contra crises”.

O comando da produção é financeiro, diz o sociólogo. Ou seja, quem decide sobre o que produzir é o capital financeiro. A exemplo, colocou o depoimento do executivo da Nike “não produzo tênis, produzo desejo”. Mas quem produz os tênis da multinacional são os países periféricos que foram incorporados como nova força produtiva após a segunda guerra. Sobre essa questão, o intelectual pontua que a riqueza pública é aplicada como força para sustentar a riqueza privada.

A face da mutação ainda não está definida, é uma mistura do velho e do novo. E isso impede a audácia teórica e nos leva a viver em constante presentificação, revela Oliveira. Não se conhecem certamente as conseqüências que este modelo implicará, mas é possível vislumbrar algumas pontuações. Segundo o intelectual, o Estado-Nação está fadado ao desaparecimento, sobretudo aqueles que estiverem na periferia das decisões econômicas. “O cidadão torna-se descartável na medida em que está à margem das decisões políticas, as grandes decisões escapam-lhe das mãos”.

A Navalha
Neste cenário, a cultura também não escapa da navalha. No espaço aberto a perguntas, um ouvinte questionou sobre o poder emancipador da cultura, se isso poderia de alguma forma rearranjar as colocações ali expostas. Oliveira diz ser impossível pensar a cultura como emancipadora, pois perdeu a capacidade de ser subversiva. Ele explicou então que, no dia anterior, estava em Belo Horizonte, realizando a mesma conferência (este ciclo de conferências acontece em cinco cidades do país), e que o local que a abrigara chama-se Casa Fiat de Cultura.“Não preciso dizer mais nada”, provocou.

Francisco de Oliveira finaliza dizendo que as possíveis respostas às novas configurações virão de futuros conferencistas como Laymert Garcia dos Santos, cuja conferência intitula-se “humano, pós-humano, transumano”. Em São Paulo, o ciclo de conferências tem programação até o dia quatro de outubro. É possível acompanhar ao vivo pela internet todos os dias de debates que acontecem no Rio de Janeiro (Acesse aqui). Além das duas capitais os debates acontecem também em Belo Horizonte, Curitiba e Salvador.

Maria Fernanda Santos

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