O publijornalismo e a pauta esquecida do jornalismo cultural é a abordagem que o debate revelará em 12 artigos que serão publicados a partir de outubro.
Cultura e Mercado foi selecionado para promover um dos quatro debates em mídias eletrônicas online do edital Cultura e Pensamento 2007, do Ministério da Cultura. A partir de outubro, serão publicados doze artigos produzidos por acadêmicos e artistas das cinco regiões do Brasil e de mais dois pensadores estrangeiros, com a discussão sobre o Jornalismo Cultural e a pauta esquecida pela grande imprensa.
Com o propósito de fortalecer espaços públicos de reflexão e diálogo em torno de temas relevantes da agenda contemporânea, o programa Cultura e Pensamento apóia o desenvolvimento de ações ligadas à circulação de idéias produzidas por intelectuais, artistas e pensadores da cultura, tornando-se uma plataforma para a difusão dessas idéias e a aproximação de seus atores. Pretende ser um fórum apto a produzir alternativas para o desenvolvimento cultural do país e capaz de agregar iniciativas que fortaleçam a esfera pública nacional.
“Ser selecionado para o programa destaca o papel do Instituto Pensarte de gerar práxis convergentes, nas esferas públicas e privadas, com efeitos positivos para a sociedade como um todo. Isso passa pela discussão do papel dos meios de comunicação na construção de uma sociedade em que a cultura ocupe papel de centralidade” – afirma Bento Andreato, presidente do Instituto Pensarte.
O presidente do Pensarte também destaca que tal escolha fortalece a vocação do recém-criado 100canais, núcleo de produção jornalistíca cultural idependente do Instituto que, com pouco mais de três meses de existência, já ganha esta chancela de prestígio que é ser um dos proponentes do Cultura e Pensamento.
Terceira edição
Em 2005, seu primeiro ano de existência, o Cultura e Pensamento promoveu o seminário O silêncio dos intelectuais, que levou a São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Curitiba um conjunto de conferências e discussões sobre o papel da intelectualidade na vida política contemporânea.
Na segunda edição, realizada em 2006, o Programa foi expandido e abriu editais públicos para a seleção de projetos da sociedade organizada. Foram viabilizados debates, produção, publicação e circulação de revistas, publicações eletrônicas e ciclo de conferências. Neste ano, revelou um crescimento expressivo com relação à edição passada, quando a modalidade de seleção pública foi lançada. Os 66 projetos que atenderam todas as etapas da inscrição são de proponentes oriundos em todas as regiões brasileiras (Sudeste, 35 inscrições; Nordeste, 18; Sul, oito; Centro-Oeste, quatro; e Norte, uma). Quanto ao formato, foi identificado um aumento do número de debates presenciais e mídias online, agora, num total de 12 contemplados.
O Programa conta com o patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e é coordenado pela Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão (Fapex), com co-realização do Ministério da Educação (MEC), Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Serviço Social do Comércio de São Paulo (Sesc-SP) e TVE-Bahia.
Por que debater o Jornalismo Cultural?
Da ideologia escancaradamente desfilada em blockbusters hollywoodianos às manobras da indústria fonográfica para a veiculação de músicas padronizadas ao status quo, do conteúdo geral abordado pela imprensa cultural às passarelas do São Paulo Fashion Week, o que se vê, em toda extensão do que se convencionou denominar rede de comunicação social, é a centralidade dos aspectos mercantis da cultura apropriada pela indústria. Ou seja, um círculo vicioso em que a indústria cultural dita a pauta e comportamentos por imposição do consumo de bens eleitos e consagrados por todos os meios de comunicação disponíveis.
No bojo desta arquitetura de comunicação de massa voltada ao ideário neoliberal de submissão excludente ao mercado, forjou-se uma imprensa voltada a publicitar detalhadamente a agenda ligada aos movimentos desta indústria, seja pautada em seus espetáculos e lançamentos, seja orbitando-os em seus desdobramentos comportamentais, econômicos, turísticos e tais. Agravou-se a situação ao passo que tal imprensa também postulou ser, em si, produto cultural de consumo. Fechou-se um ciclo que sustenta um jornalismo todo voltado a alavancar as vendas de si mesmo e dos produtos dos quais se ocupa.
Tal jornalismo, predominante na grande imprensa nacional, busca legitimar-se, emprestando o prestígio do mundo acadêmico e confinando-o a cadernos especialmente herméticos. De resto, ocupa-se ainda com um suposto sentido ampliado de cultura que se remete a excrescências tais como o comportamento cotidiano de celebridades forjadas aos olhos da opinião pública, especulações opinativas sobre os rumos dos enredos das telenovelas, entrevistas desprovidas de qualquer propósito, quadros opinativos com supostos especialistas em banalidades etc.
A esta tendência, sempre houve resistência, ainda que quase inócua. As vertentes comprometidas com uma visão mais sistêmica da cultura esforçam-se, aqui e ali, em acalentar o debate sobre os mecanismos de incentivo e fomento da cultura, seus editais e concursos, sobre produção intelectual desprovida de imediato interesse econômico, sobre relações entre cultura e educação, sobre alguns aspectos comportamentais e econômicos da cultura e outras que tais, mesmo que reincidindo no tangenciamento de questões mercadológicas. Ainda não há, no cenário jornalístico nacional, um debate sistematizado que contemple a pauta esquecida do jornalismo cultural, trazendo-o à luz para que seja entendida em toda a sua extensão de abordagem para fazer cumprir o verdadeiro papel social dos meios de comunicação.
Num contexto globalizado, não se trata apenas de negligenciar a cobertura de temas locais, atinge também o fato de não acompanhar os movimentos mundiais que exploram a valorização da diversidade cultural e de culturas locais. Movimentos esses que resultaram na Convenção da Unesco sobre Proteção, Promoção e Diversidade das Expressões Culturais aprovada em 2005. Medida tomada pela defesa da produção cultural local, que vê suas expressões culturais retraídas pela invasão de produtos culturais estrangeiros, e tem conseqüência direta sobre a formulação de políticas culturais dos países signatários. Por que negligenciar temas que estão na pauta do dia do espectro cultural?
Na pauta esquecida, ficou o debate sobre o direito ao acesso à cultura, sobre o contínuo processo de construção de políticas públicas de cultura, sobre o potencial econômico e de desenvolvimento social que a cultura oferece se democratizada ou, ainda, a discussão a respeito da identidade nacional a partir do reconhecimento de sua diversidade, das culturas populares, dos mestres dos saberes populares, dos patrimônios imateriais, da identidade e busca de unidade latino-americana, da exclusão digital… e tantos outros temas de que, historicamente, o jornalismo cultural muito pouco tem se ocupado.
Busca-se, ao contemplar a pauta esquecida do jornalismo cultural, sempre aproximações entre ações que se desenvolvam com a consciência social que incorpora referências simbólicas no processo de construção da cidadania e com os processos de exploração, uso e apropriação de códigos de diferentes meios e linguagens artísticas, tecnológicas e lúdicas nos processos educacionais, pretendendo, com isso, ampliar o acesso aos meios de formação, criação, difusão e fruição cultural por meio da ação de agentes culturais, arte-educadores, educadores de rua, artistas, professores e cidadãos que entendem a cultura no seu sentido mais amplo – como direito, comportamento e economia. Além, é claro, dos aspectos ligados à potencialização de energias sociais e econômicas para o desenvolvimento de uma cultura cooperativa, solidária e transformadora.
(*) Com informações do MinC.
Eduardo Carvalho