CULTURA E PENSAMENTO – Jornalismo Cultural em Pauta

“É preciso acreditar na força do texto, colocando a produção cultural num contexto mais amplo ajudando o público a pensar e analisar e não apenas consumir, mas isso também não é uma tarefa fácil”. Entrevista com Eliane Bassos.

Encurralado entre entretenimento ou a simples panfletagem de espetáculos, o jornalismo cultural tem sofrido todas as mazelas de servir apenas à indústria cultural. Nesse cenário, pensar acerca de novos rumos e outras possibilidades de noticiar a cultura de uma forma pluralista é o desafio de David contra Golias.

Desnecessário (re) afirmar que a formação do tecido social tem alicerces maciços na cultura. Dar base e sustentação analítica que podem levar o leitor à reflexão por meio das artes e da produção cultural seria o norte do jornalismo cultural, e, por fim, para as construções democráticas, pluralistas, sociais de visão de sociedade.

Empacotar “cultura” em um produto estaque e descartável tem sido o principal papel impresso nos segundos cadernos dos grandes veículos, transformando, assim, a análise cultural em escambo. Repetidora do status-quo da Indústria Cultural, o jornalismo cultural semeia apenas à visão de mundo de um pequeno monopólio formatado de produção (em escala) de cultura.

Repensar a ótica e o papel do jornalismo cultural, principalmente no que se diz respeito a manifestações culturais, enfatizadas de maneira folclórica ou exóticas nos grandes meios de comunicação, são os principais desafios – e dos grandes – para os que elevam a cultura como centro da formação social.

Sobre esse cenário, e iniciando a série de debates virtuais sobre a prática do jornalismo cultural, avaliando seu papel de difusor de informações e as influências sofridas pela indústria cultural, a pesquisadora Eliane Bassos defende o papel do Jornalismo Cultural como crítico dos fatos e acontecimentos que circundam a cultura, procurando compreendê-lo como um espaço de cultura como conhecimento.

Especialista em Comunicação pela Universidade de Passo Fundo e Mestre e Doutora em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente, Eliane Bassos é Professora nas universidades Anhembi Morumbi e Municipal de São Caetano do Sul.

CeM – Analisando a indústria cultural e a relação maniqueísta que os meios de comunicação a representam – ou são por ela manipulados, como equilibrar as tensões causadas pelo impacto da cultura versus mercadoria com as manifestações artísticas populares e tradicionais?
Eliane Bassos – Colocando o caráter público do jornalismo. Mas em primeiro lugar é bom lembrar que pode-se equilibrar a produção da cobertura dos produtos da indústria cultural com as múltiplas manifestações da cultura.

CeM – Qual seria a cobertura ideal que os Meios de Comunicação deveriam abordar a Cultura no sentido antropológico do termo? E o que está faltando?
Eliane Bassos – Não existem fórmulas, existem possibilidades. Acredito que o Jornalismo Cultural pode promover uma discussão mais abrangente dos bens culturais e neste sentido a cobertura pode e deve caminhar para uma abordagem mais plural. Acho que precisa fazer uma observação mais aprofundada sobre os fenômenos que formam a cultura procurando abranger o conjunto da sociedade que a constrói. Precisa observar mais o cotidiano, refletir criticamente e se articular mais no tecido social. A sabedoria do povo simples, por exemplo, é uma fonte de experiências.

CeM – Nas redações faltam debates sobre cultura ou sobra jabá?
Eliane Bassos – Se as assessorias, produtores etc, empacotam pautas às redações, cabe a editoria decidir o que vai publicar e separar o joio do trigo. Vale lembrar que tanto a obra cultural quanto o criador estão mediados pelos produtores. Da porta da redação para dentro, o que se convencionou relacionar ao jabá se traduz na prática das assessorias de bancar as despesas dos jornalistas nas coberturas. É um problema antigo, bastante discutido, longe de ser consenso. O ideal é que fossem custeados pelos próprios veículos. O bom jornalista, no entanto, não deve ser afetado por tal sedução, mas a questão também não é tão simplória assim.
Ops! Retomando ao tema, como disse no artigo precisa dar mais espaço para o debate cultural e para a diversidade cultural existente.

CeM – Em muitas redações há o costume de chamar os intitulados segundo caderno em Ilha da Fantasia, principalmente ao fato destes repetirem os mecanismos de produção da indústria cultural, uma espécie de qualificador dos gêneros e subgêneros dessa linha de montagem cultural. Afinal, o jornal é mais um produto da indústria cultural, por isso repete seus mecanismos, ou é apenas uma das formas de marketing para vender o excesso de produção?
Eliane Bassos –
O que mais se ouve em termos de produção é de que o jornalista precisa produzir às pressas, desta maneira é difícil conjugar consistência com rapidez. Há um grande volume de informação que chega ao público, passando a sensação de estarmos informados, mas temos quantidade e pouco conteúdo de formação. Se for analisar – no caso especifico que você cita – segundos cadernos – as edições são permeadas por pequenos textos das produções da atualidade, roteiros de eventos, coluna social, horóscopo etc. Desta maneira sobra pouco espaço. Existem edições em que você é capaz de não encontrar nenhuma reportagem que é a essência do jornalismo. O jornalismo cultural está muito voltado para o entretenimento, portanto, algo mais “leve”.

É preciso acreditar na força do texto, colocando a produção cultural num contexto mais amplo ajudando o público a pensar e analisar e não apenas consumir, mas isso também não é uma tarefa fácil.

CeM – A pauta esquecida do Jornalismo Cultural precisa ser debatida de forma mais aprofundada. Além da especialização do jornalista cultural, também há a necessidade da perda de certos preconceitos e elitizações sobre popular/erudito, massificado/restrito, bom gosto/mau gosto, que muitos jornais ainda tentam imprimir?
Eliane Bassos – A preparação intelectual do jornalista é fundamental e a quebra de preconceitos também.

CeM – Afinal, para quem escreve os jornalistas culturais? Para o público ávido por cultura ou para os “produtores” culturais?
Eliane Bassos – Deveriam escrever para público, o contrário não faz sentido. Mas não vamos esquecer que os produtores de cultura também fazem parte do público leitor.

Eduardo Henrique Brandão – especial para Cultura e Mercado

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