Cultura e povo

Quando faço apresentações em seminários e palestras sempre alguém me questiona sobre como lidar com tudo aquilo que tem roupagem de cultura e aparentemente (pelo menos, no entendimento da pessoa que pergunta) não é. Como fazer com que as crianças leiam mais, e literatura de maior qualidade, não “qualquer coisa”? Acho muito interessante esta pergunta e este artigo busca pontuar alguns pontos para reflexão que merecem ser desenvolvidos e aprofundados.

Inicialmente, acredito ser importante tratarmos estas questões de maneira mais científica e menos empírica e, dentro deste contexto, algumas considerações devem ser feitas:

Primeiro, é conveniente deixar de lado o conceito de “boa” ou de “má” cultura. É cultura tudo aquilo que reflete a realidade, a vivência, a experiência de um povo. Embora sabendo da dificuldade de se desprover destes conceitos, muitas vezes tão arraigados, já vez que tendemos em considerar os nossos valores e padrões como sendo sempre os melhores, mais adequados, é necessário se despir destes pré-conceitos para que possamos conhecer o outro, o diverso e aí sim, elaborar uma análise baseada em questões objetivas e não emocionais.

Segundo, é necessário entender que a cultura envolve ação estando portanto, sujeita à transformações. Aceita portanto, novidades e situações distintas. Ao mesmo tempo que se modifica, integra as pessoas, os indivíduos, fazendo-os compartilhar de sensações e realidades comuns.

Em função disso, acredito ser inútil obrigar o aluno ler este ou aquele autor. O que deve ser desenvolvido é o prazer da leitura, optando pelo que se gosta de ler. Falo da leitura a título de exemplo, mas o gosto pelas artes em geral deve ser desenvolvido de maneira prazerosa. Tem que ser leve e constante. Esse é o ponto central. O indivíduo tem que ser encarado não como mero portador de cultura, mas como alguém que pode, através de suas percepções e opções seletivas, introduzir inovações culturais e sua busca deve girar neste sentido.

Os gostos certamente sofrerão transformação a partir da aprendizagem, do conhecimento de situações novas e como consequência da capacidade seletiva desenvolvida a partir do conhecimento. Mas isso não quer dizer que as pessoas gostarão das mesmas coisas e certamente, avaliarão como “imperdível” autores, peças, compositores distintos. É essa realidade que faz a cultura brasileira tão rica, embora, como bem diz Adriana Calcanhoto, haja muitos que ainda acreditam que a “salsa na sala, o samba na senzala”.

Na Era pós-moderna vivenciada somos bombardeados com sensações, gostos, realidades distintas a todo o tempo. A globalização que promete homogeinização constante é uma ameaça aos valores culturais e artísticos de um povo, uma vez que o processo de aculturação é uma realidade. Entendendo por aculturação o contato entre dois ou mais grupos, havendo difusão e transferência de elementos culturais do outro.

A realidade atual se configura através de um mundo comunicante que se fala, troca informações, se desloca rapidamente. Somente o conhecimento e o desenvolvimento de um senso crítico, poderá garantir que possamos acessar as variações culturais de todos os povos de maneira seletiva e madura, optando por nos aculturarmos com realidades que possam preservar e desenvolver positivamente nossa integridade cultural.

Simone Marília Lisboa é consultora e administradora de empresas. Mestre em Marketing e Planejamento Estratégico pela Universidade Federal de Minas Gerais, autora do livro “Razão e Paixão dos Mercados”, técnica licenciada da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e diretora da Faculdade PROMOVE de Sete Lagoas. E-mail: smlisboa@uai.com.br – Fone: (31) 772-3770

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Simone Lisboa

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