A Convenção da Unesco sobre diversidade cultural, que acaba de completar 5 anos, aprofunda uma importante discussão no mundo contemporâneo. A relação entre cultura global, massificada, representada sobretudo pelo poderio dos conglomerados de mídia e pela indústria de imagens de Hollywood; e o poder de cada nação em implementar suas políticas de preservação e salvaguarda em relação à própria cultura.

Nesse processo de construção da Convenção, a sociedade civil teve direito à participação. Estive à frente de uma organização internacional fundamental nesse processo, a INCD (Rede Internacional pela Diversidade Cultural). Na época brigamos muito pela inclusão da palavra “promoção” no título e no texto da Convenção. Acreditávamos que a única maneira de “preservar” uma cultura, uma língua, um modo de vida, uma atividade artística ou cultural, era promovendo-a.

Mas não promover apenas a própria cultura. É preciso promover a diversidade, o acesso irrestrito a todas as matrizes, fontes e produções culturais de todo o mundo, com diferentes cores, linguagens e formatos. O desafio era (e continua sendo) buscar uma maneira de barrar o crescente domínio das indústrias culturais dominantes sem barrar a produção independente.

Outra questão importante é a conquista da autonomia dos Estados-nação em relação à sua legislação interna, no que consiste às salvaguardas impostas aos produtos culturais universalizantes, valorizando a produção cultural local. A Unesco trabalha com a hipótese de que Estados autônomos empoderados têm mais capacidade de gerir o seu espaço imaginário interno. Impostos sobre a exibição de filmes e cotas de tela são as maneiras mais comuns de bloqueio. A constituição de  fundos de investimento para produção independente ajudam a promover a produção cultural local. A regulação do mercado continua sendo a forma mais comum de exercer essa autonomia. Por isso a importância de discutirmos o marco legal da Internet, que inclua a sua relação com todos os outros meios de difusão (TV aberta, a cabo, radiofusão, mídia impressa e mídias móveis). O que chamamos de Convergência.

São duas lógicas sobrepostas, a econômica e a cultural. Se pudermos resumir a intenção da Convenção, podemos dizer que ela veio para inverter a sobreposição do econômico sobre o cultural. O fluxo de informação é medido pela balança comercial e não por seus efeitos culturais, cada vez mais preocupantes nas sociedades videocráticas em que vivemos.

Desde que a Convenção foi promulgada, venho desenvolvendo uma pesquisa colaborativa, no âmbito da RAIA (Rede Audiovisual Ibero-americana), sobre as dimensões políticas, econômicas e culturais desse fenômeno, que culmina com uma nova configuração do espaço midiático, potencializado pela Cultura da Convergência. Como resultado dessa pesquisa (que se revela também em livro e website), acabo de finalizar o Ctrl-V 2.0, a segunda parte do documentário (ainda sem legendas), lançado hoje, dia 19, em Barcelona, que apresenta essa problemática com depoimentos de especialistas, pesquisadores, estudiosos, ativistas e pensadores da várias partes do mundo. O tema central é a relação entre indústrias globais e cultura local, tendo como pano de fundo a diversidade cultural:

Convido os leitores de Cultura e Mercado a debater sobre o tema.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

8Comentários

  • Elias Rodrigues, 21 de novembro de 2010 @ 12:13 Reply

    A dominação e exploração dos povos não é novidade, daí a permanente luta por liberdade. Mas, o que significa o cinema, se sabemos que no Brasil "… pouco mais da metade nunca vão a cinemas, segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)." ?
    Na TV e Internet a realidade e impacto pode ser maior… aí estamos em maioria, passivos e manipulados por poderes globais (independente de serem nacionais ou estrangeiros, conceito este que se desfez no ambiente globalizado). Seria possível ser Glolocal no ambiente da Convergência? O lugar-local é marginal…

  • gil lopes, 21 de novembro de 2010 @ 22:46 Reply

    Já se desfez? O que se desfez no tal "ambiente globalizado"? Meu passaporte ainda não se desfez e onde eu vivo não tem fábrica de moeda…de um lado guerra cambial, de outro conceitos que desfazem a realidade e fundam um ambiente …que mundo é esse?

  • Eurico, 22 de novembro de 2010 @ 2:33 Reply

    Fico no aguardo das versões legendadas para 'viralizar' esse trabalho tão útil aos que trabalham com a promoção e salvaguarda das diversas cuturas que não fazem parte do veio imperialista.
    Grato

  • luciano, 23 de novembro de 2010 @ 19:48 Reply

    "barrar o crescente domínio das indústrias culturais dominantes sem barrar a produção independente". Não sei se é por aí. Tenho o direito de não concordar? Qta gente foi ver o Paul Mccartney? Vamos barrar shows internacionais? Não temos competência de ter nossos músicos tocando lá fora? Falta grana? Falta talento? Drácula não é americano. Mas o mundo inteiro conhece. Um inglês pegou uma história/lenda romena e usou sua criatividade. Acho q essa é a maior arma. Criatividade. E exposição. É o q eu acho.

  • Karine Oliveira, 24 de novembro de 2010 @ 11:16 Reply

    Leonardo, teus textos são muito interessantes e gosto de guardá-los para servir de referência. Que tal disponibilizar no blog uma versão em PDF para download?
    Um abraço,
    Paz e Luz!
    Karine Oliveira

  • Daniela Lima, 28 de novembro de 2010 @ 1:49 Reply

    Acredito que para colocar a produção independente em evidência requer uma reeducação da população como um todo, pautar a produção contrária a mídia massificada de maneira acessível. Cada produção independente na busca de seu próprio público e a internet é a ferramenta para isso.

    O ser humano precisa entender que com a chegada da internet é possível colocar em evidência o gosto pessoal, seja para interagir ou aprender algo.

  • gil lopes, 28 de novembro de 2010 @ 23:09 Reply

    O ovo ou a galinha? Aprender a votar ou votar? Crescer o bolo e depois distribuir ou distribuir? Ser ou não ser? São as questões…choque tecnológico ou…atraso? Qual a nossa capacidade de absorver a nova tecnologia? O que faremos com isso? Produzir conteúdo?…que país é esse?

  • Kelly Tavares, 30 de novembro de 2010 @ 3:14 Reply

    O que vejo é a repetição do fenomeno desenvolvimentista que ocorreu com as telecomunicações nas dec de 50 e 60 nos governos de Juscelino e militares, junto com o imperio de Roberto Marinho. O acesso a tvs cresceu de maneira vertiginosa sem garantir a população empobrecida outros meios de acesso a cultura diversificada e sem haver uma educação para a tv. Conclusão: basta ligar hj a tv e ver o baixo nivel (conteudo cultural educativo) cultural da maior parte das emissoras do pais.
    A Globo derrubou as tvs regionais e uniformizou a imagem do pais a ponto de pensarmos que no Brasil todos dançam samba e tem os mesmos valores culturais do Rio e Sao Paulo.
    Houve uma grande americanização de nossa sociedade e um bombardeio publicitario de produtos e valores estrangeiros.
    Enquanto a populaçao mantem-se emburrecida com a falta de opçoes ou as vezes estimulo e educação para um melhor aproveitamento do setor cultural.
    Na minha opiniao precisamos encontrar um balanço e permitir uma importaçao de bens tecnologicos controlada, permitindo o acesso da populaçao a bens culturais diversificados atraves da criaçao de inumeros polos culturais euipados tecnologicamente mas principalmente com capital social, com educaçao para a criaçao artistica e valorizaçao da cultura nacional e internacional (intende-se do mundo alem dos EUA).
    O sistema educacional precisará sofrer uma reforma para preparar pais e filhos para a chegada dos equipamentos. Para uma educação etica e consciente do uso das tecnologias. Senão a internet vai virar babá como a tv é entre as familias brasileiras.

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