Dilema do descaso: os candidatos não têm propostas para a cultura por que as pesquisas não apontam cultura como prioridade? Ou as pesquisas não revelam cultura como prioridade por que a mídia não cobre o assunto? Começou a corrida eleitoral e, para variar, a política cultural continua em segundo plano.

Acabo de dar uma fuçada nos sites dos candidatos que participaram ontem do debate promovido pela Rede Bandeirantes e trago um resumo do que vi:

Dilma Rousseff

No site da candidata petista podemos encontrar inúmeras matérias relacionadas a inaugurações, eventos de lançamento de projetos e programas governamentais, além de material em vídeo produzido pela campanha para discutir o tema com a candidata. Numa dessas entrevistas, ela afirma que o orçamento da cultura chegou a R$ 2,2 bilhões, defende o projeto que revoga a Lei Rouanet, além de ações ainda não implementadas, como o “Vale Cultura” e o “Cinema perto de você”. Não encontrei nenhum documento organizado com diretrizes e ações programáticas concretas. O site abre espaço para a construção do programa.

Marina Silva

O site da candidata do PV à presidência traz diretrizes de “cultura e fortalecimento da diversidade“. No geral, traça uma linha de continuidade programática em relação ao governo atual, reforçando a cultura popular, comunidades indígenas, afrodescendentes, combatendo a discriminação e reforçando os direitos culturais. Marina se compromete a aprovar o Plano Nacional de Cultura e o Procultura (projeto que revoga Lei Rouanet). Fala, ainda, em desenvolver um sistema similar ao do CNPQ para avaliação de projetos. A candidata é quem vai mais longe em sua linha propositiva, com questões organizadas e compromissos assumidos.

José Serra

O tucano, assim como Marina, abre um espaço no site dedicado exclusivamente ao tema. Mas na hora de abordar a cultura, reforça o pensamento neoliberal, enxergando cultura apenas como ativo econômico. Fala de suas realizações, como a Virada Cultural, programa de fomento à dança e promete diversificar o financiamento. Dedica boa parte do site para explorar o potencial econômico da cultura e se diz “apaixonado por cultura”.

Nada encontrei nos sites dos outros candidatos à presidência.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

13Comentários

  • Badah, 6 de agosto de 2010 @ 22:05 Reply

    Educação idem.

  • caco coelho, 7 de agosto de 2010 @ 20:18 Reply

    A cultura é o percurso, a memória, a história sensível da civilização. Tudo que está à nossa volta e que compõe a vida em comum, a moradia, o meio de transporte, o sistema de governo, é conseqüência de como a cultura deste povo foi construída. Organizar é uma necessidade. É a constituição do poder do mundo objetivo.
    Em complemento a este poder – ou em conflito, como querem os gregos – está a liberdade humana. O caminho que o homem escolheu para enfrentar este conflito foi a beleza, o imaginário, o nunca visto. A arte é filha da liberdade. Perdida a liberdade todo o resto é conseqüência. É na liberdade que está a essência do ser. A construção da ponte que alcança a essência do ser e provoca sua expressão é o que define o trabalho da arte. A comunicação continuada dessa essência é que forma a identidade. É a identidade que promove o fator gregário da sociedade.
    Com a ruptura no processo de formação brasileira, determinado pelo golpe de 64, rompeu-se também o conceito de que a arte é continuada. Hoje, não existe nenhum mecanismo que reconheça o trabalho continuado do artista, ao mesmo tempo em que o papel do governo foi sendo substituído por leis de incentivo que celebram o evento: a publicação do livro, a exposição, a temporada do espetáculo. Enquanto o processo de criação, o seu fomento, a pesquisa, não são reconhecidos.
    Criou-se a idéia de que o estado devia ser o produtor de cultura, que as estruturas deviam ser coordenadas e ocupadas por tecnocratas mantendo afastados os artistas de seus territórios. A arte foi perdendo seu espaço e sua função transgressora foi substituída pelo estar de acordo. Assim, a sociedade brasileira abriu mão de utilizar a arte com seu sentido libertador. Toda a política pública cultural ficou condicionada a estes erros conceituais. Será necessário para a promoção humana – tão esperada – do Brasil o radical reposicionamento estratégico da cultura, passando a ser compreendida como um poderoso instrumento de transformação social. A cultura é uma questão de desenvolvimento, sobretudo, humano.
    Quando teremos a ousadia de conhecer quem verdadeiramente somos?

    caco coelho

  • luciano, 7 de agosto de 2010 @ 20:57 Reply

    o lance 'e se organizar e lutar por seus direitos. 'e cada um por si. e o governo c seus amiguinhos. champagne francesa e passagens de aviao. oba. quero mamar nessa teta tbem. NAO OBRIGADO!!!

  • Dayse Cunha, 7 de agosto de 2010 @ 23:24 Reply

    Pois é,
    enquanto a classe cultural não entender que tem que se organizar em um partido político específico, em sintonia com a gestão sociocultural – nossos políticos continuarão formulando leis que no final das contas, só se destinam a abrir os cofres públicos para o show business internacional, visando Copa e Olimpíadas…. Enquanto os da "casa", limitem-se aos "Viradões" de palanques culturais, que as mentes brilhantes de nossos políticos globalizados elaboram.
    Daí vai pra pior…
    Aliás alguém pode me responder: Se revogam a Lei Rouanet, como é que ficam os projetos de demanda espontânea?

  • luciano, 8 de agosto de 2010 @ 14:07 Reply

    o ser 'e egoista por natureza. somos animais. animais sao egoistas. roubar, mater. tudo 'e natural. selecao natural. o mais forte. entao. a maioria 'e assim. mas. teve uns caras. espirituais. q ja nao estavam mais aki. estavam mas nao estavam. eles deram a vida p mostrar q juntos 'e melhor. mais facil. um planta. outro colhe. outro faz carro. outro faz musica. mas os macacos q nao entenderam ainda, ficam estragando tudo. querendo tudo so p eles. basicamente 'e isso. egoismo. burrice. atraso de vida. imposto. tao alto q nao da p ter um salario decente. dai vai tudo pro lixo. ou vai prum filme de 10 milhoes ou pra uma estrada de 100 bilhoes. nao vai p escola, nem pra saude. dai vira uma bola de neve. cada um por si. mas 'e pior assim. temos q pensar na comunidade. no Brasil. o q 'e o Brasil? o q queremos? pra onde estamos indo? estamos indo pra algum lugar?

  • basicregisters, 8 de agosto de 2010 @ 14:08 Reply

    a agência brasil não tem uma página para cultura. enviei e-mail perguntando por que. enviem também para saber a resposta. sss://agenciabrasil.ebc.com.br/

    a gente se contenta com pouco ou então de uma maneira superficial com as coisas.
    falta uma pesquisa sobre o cérebro dos políticos (rs) veja o link e entendera o comentário.
    sss://basicregisters.blogspot.com/2010/07/ensino…

  • Vera, 8 de agosto de 2010 @ 15:23 Reply

    Acredito que o contexto socio-político do país que está sendo contruído neste momento esteja a revisão de inúmeras noções pre-estabelecidas, inclusive a de que Cultura tem de ser gerida por um ministério específico. Vai ser uma revolução de significados, de formas de entendimento do que é paz, cultural e educação – os pilares de formação de uma civilização. Quem sabe após as eleições nós, como povo brasileiro, não estejamos preparados para dar novos significados para nossos fazeres e saberes?
    Eu gostaria que @ pró[email protected] [email protected] pudesse enxergar claramente esta questão e tomar as decisões corajosas que precisamos para vislumbrar uma nova forma de integrar produtores, cantadores, poetas, artesãos, mestres e [email protected] [email protected] manifestações que não cabem mais nas nomenclaturas atuais.

  • Zezito de Oliveira, 8 de agosto de 2010 @ 19:04 Reply

    Leonardo,
    Comentando o post de sua autoria "A resposta dos candidatos" em outubro de 2006, escrevi: sss://www.culturaemercado.com.br/analise/a-respo…

    Já enviei a seguinte pergunta através do site do candidato LULA e não obtive a resposta.

    Porque as ações culturais do governo Lula que são exemplares, inovadoras e inclusivas, especialmente para as juventudes das periferias e dos rincões desse imenso e belo país, ainda não foram motivo de destaque no programa eleitoral do rádio e da televisão. Inclusive em termos comparativos com o governo de FHC e do Alckmin em São Paulo?

    A propósito, que tal enviar as mesmas perguntas para Dilma, Serra e Marina.
    Abraço,

    Zezito de Oliveira
    Educador e Produtor Cultural

  • otavino, 8 de agosto de 2010 @ 19:33 Reply

    Já ovir alguem dizer que cultura,arte fazem parte de um segundo plano em nossa sociedade no estágio em que vivemos.Por outro lado Martir disse " a educação e a cultura é fundamental para o povo cubano "seguindo esse exemplo os cubanos fizeram a 51 anos a Revolução,extinguiram o analfabetismo,flagelo que atinge o resto da America Latina.
    Artigas,avaliando o tamanho do Uruguai disse "somos pequenos não podemos contar com ajuda de ninguem que sejamos cultos e valentes "No Brasil nós temos a lei do piso salarial minimo para os professores aqui no rio grande do sul a governadora não paga ,entrou na justiça segundo ela por ser inconstitucional êta brasilzão essa Pindorama não é facil

  • Mauro Band, 8 de agosto de 2010 @ 21:40 Reply

    Belo comentário, Caco!
    Estou cansado de filmes, peças de teatro e espetáculos de dança que nada trazem de novo. Parece que nada aconteceu neste início de milênio. Os governos, de todas as esferas, querem nos convencer que o país está ótimo – apesar do capitalismo – , que a luta de classes inexiste e que somos felizes por assistirmos produtos feitos por nós, porém, a meu ver, com pouca reflexão e densidade, salvo exceções.
    Parece, ainda, que a cultura é vista na qualidade de cereja do bolo, não como um instrumento político de transformação. Enquanto a sociedade brasileira não se vir realmente nas telas, nos palcos e nos espetáculos de dança faremos projetos para que apenas uma parcela de nós mesmos tenhamos acesso a mais um pouquinho daquilo que já vimos, já conhecemos. E lambamos os beiços ! Abraços,

  • Márcio, 9 de agosto de 2010 @ 11:43 Reply

    Temos que insistir no apoio a cultura, pois o país que não apoia as suas origens, não tem indentidade. São completos ignorantes que se dizem intelectuais.

  • ricardo penachi de camargo, 11 de agosto de 2010 @ 11:40 Reply

    No geral, não querem saber muito do assunto…

  • Naiara, 17 de agosto de 2010 @ 10:39 Reply

    Temos que aproveitar o momento e colocar a Cultura como um dos temas principais das plataformas políticas assim como saúde, educação e violência.
    Vamos cobrar os candidatos e pesquisar o que cada um fez pela Cultura no mandato anterior, chega de promessas, precisamos de projetos concretos.
    Lembrando que é um processo, é impossível mudar anos de história em um mandato, mas se não houver uma mobilização ativa, a Cultura continuará esquecida.

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