Ao longo da segunda metade do século XX, as mulheres obtiveram várias conquistas: entraram em massa no mercado de trabalho, tiveram maior acesso a escolas e universidades e cada vez mais autonomia. Os avanços da porta de casa para fora, porém, não foram acompanhados no mesmo ritmo pelos avanços da porta para dentro. As tarefas ligadas à vida familiar e doméstica ainda ficam quase sempre sob responsabilidade feminina, gerando uma dupla jornada que trava a redução da desigualdade entre os gêneros e, sabe-se agora, barra uma participação maior desse grupo nas atividades culturais.

Foto: Mark P / PIX41Em 2014, o Instituto Datafolha mapeou os hábitos culturais dos moradores de 21 municípios paulistas, a pedido da consultoria JLeiva Cultura & Esporte. A pesquisa Cultura em SP revelou uma situação paradoxal: analisou 18 atividades e detectou que em 17 delas as mulheres têm mais interesse do que os homens, mas em apenas três a frequência feminina supera a masculina.

O levantamento perguntou a cerca de oito mil pessoas com 12 anos ou mais quais atividades realizaram nos 12 meses anteriores à sondagem. Os únicos casos em que as respostas das entrevistadas excederam a dos entrevistados foram: ir a espetáculos de dança, ler livros não didáticos e ir a feiras de arte, artesanato e antiguidades. Nas outras, a frequência dos homens é maior que a das mulheres (sair para dançar, ir ao cinema, ir a bibliotecas, ir a museus, ir a festas populares, ir a shows de música e jogar videogames) ou igual (ir ao teatro, ir a exposições de arte, ir a shoppings para lazer ou diversão, ir ao circo, participar de saraus, ir a concertos de música clássica, ouvir música, assistir a filmes na TV).

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Fonte: Datafolha/JLeiva, 2014. Margem de erro: 1 ponto percentual, para mais ou para menos

Dupla jornada e machismo – Por que as paulistas, ao menos nos 21 municípios estudados, se interessam mais e usufruem menos? Pesquisadores e produtores ouvidos pela reportagem admitem que este é um tema ainda pouco estudado, mas apontaram alguns fatores.

Um deles é a posição que a mulher ocupa no interior da família, que a obriga a desempenhar dupla jornada de trabalho: uma no emprego, outra ao chegar em casa. “A mulher é mais envolvida com serviços domésticos e costuma ter menos tempo e disponibilidade”, afirma o sociólogo Frederico Barbosa, do Instituto de Pesquisa Econômicas Aplicadas (Ipea), criador do Indicador de Desenvolvimento Cultural (Idcult).

O mesmo problema é destacado pela escritora Martha Lopes, uma das idealizadoras da campanha #KDmulheres, que tenta chamar a atenção da opinião pública para a falta de visibilidade feminina na literatura. “As divisões de tarefas são desiguais. A mulher não faz o que quer ou gosta, privilegia a família. Cuidados com crianças e idosos ficam mais com elas”, afirma Martha. “E tem também a questão da renda: muitas vezes a mulher não prioriza investimentos nela mesma.”

Martha aponta ainda obstáculos decorrentes do machismo que persiste no Brasil e em São Paulo. “Uma mulher sozinha ainda é malvista. E há o fator insegurança: as cidades não são ambientes seguros para as mulheres, que não conseguem se apropriar do espaço urbano do mesmo jeito que os homens”. Parte da desigualdade de acesso, portanto, pode estar ligada ao fato de as paulistas temerem ir a lugares onde se sentem vulneráveis. Não por acaso, uma das maiores diferenças ocorre na frequência a shows (50% entre os homens, 43% entre as mulheres).

O fator filho – A dupla jornada e o machismo são elementos limitadores, mas há um fator que cria um verdadeiro “antes e depois” nessa área: ser mãe. “O comportamento cultural da mulher antes e depois de ter filho é totalmente diferente. É uma ruptura impressionante”, afirma Taís Viana, uma das idealizadoras do CineMaterna, projeto que organiza sessões de cinema especiais para mães com filhos recém-nascidos.

Taís atua na área de cinema, mas avalia que a tendência afeta outros segmentos. Os números da pesquisa da JLeiva confirmam. Embora a maternidade não afete o interesse das mulheres por cultura – continua sendo mais alto que o dos homens no grupo que tem filhos (16 das 18 atividades analisadas) e do que não tem (14 das 18) –, afeta sua concretização.

Entre os entrevistados sem filhos, os homens só são mais assíduos que as mulheres em três atividades – a participação feminina é maior em sete e, no restante, a diferença fica dentro da margem de erro (um ponto percentual, para mais ou para menos). Quando entram crianças na história, a situação se inverte: a frequência masculina é maior em oito atividades, a feminina, em quatro.

O levantamento deixa claro que a prática cultural é menor entre quem tem filhos, tanto para homens quanto para mulheres. Mas impacto é maior sobre elas. “É muito mais difícil para a mulher”, declara Taís. “Eu não tinha tranquilidade de deixar minha filha com a minha mãe para ficar três horas fora de casa. Para mim isso era uma barreira, mas não era para o meu marido, porque a maternidade é vivenciada de forma diferente”. A avaliação é compartilhada por Frederico Barbosa. “Os vínculos da mulher com os filhos são mais fortes. Ela tem uma dedicação maior à família”, diz o pesquisador do Ipea.

Contribui para isso o fato de a maior parte dos espaços artísticos não estar preparada para receber crianças pequenas. “Para quem está com um carrinho de bebê, o acesso é igual ao de um cadeirante. Se um cadeirante não conseguir entrar, uma mãe com um bebê também não vai conseguir. Além disso, não há espaços para a mãe trocar o bebê. A maioria dos lugares não está preparada para receber esta mulher, então ela acaba ficando em casa”, afirma Taís.

Ao mesmo tempo, hoje é mais difícil contar com parentes para cuidar da criança enquanto a mãe vai realiza alguma atividade cultural. “Não tem mais aquela história de você morar perto dos parentes e estar todo mundo mais ou menos disponível, os avós estarem aposentados. Se você tem irmãos, eles estão trabalhando; seu marido está trabalhando e os avós do bebê provavelmente também estão trabalhando. Não tem ninguém com quem deixar”, continua a idealizador do CineMaterna.

Esse quadro acaba restringindo as mulheres a atividades que possam ser feitas dentro de casa, como ler livros, assistir a filmes na TV e ouvir música. Desde que, claro, elas não estejam ocupadas com as tarefas do lar.

*Com colaboração de Frederico Kling
**Essa é a terceira de um conjunto de reportagens sobre indicadores que Cultura e Mercado publicará nos próximos meses. A série baseia-se nos dados da pesquisa Cultura em SP, da consultoria JLeiva Cultura & Esporte.


contributor

Jornalista da PrimaPagina, produtora de conteúdo parceira da JLeiva Cultura & Esporte.

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