“Um gestor cultural é um agente de mudança que rompe as barreiras entre setores e esferas, promovendo um diálogo entre eles.”
“Forum Internacional da Cultura”, Salvador, trinta graus. Durante quatro dias a fio, representantes da França, Espanha, Colômbia e brasileiros de todas as origens e formações discutiram os vários aspectos da capacitação, transformação e os traços comuns a um gestor cultural. Nesse caldeirão de passaportes e RGs, alguns adjetivos tilintavam recorrentemente, independentemente do sotaque do conferencista ou do público que interagia. “Conector”, “intermediador”, “poliglota”, “tradutor”, “multifacetado”, dentre outros, fizeram com que o gestor cultural figurasse cada vez mais como um caleidoscópio ambulante. Qual melhor representação dar a um profissional que deve saber navegar igualmente bem entre diversas cores (cultura, economia, educação, turismo, relações internacionais, direito etc.) e formas (setores público, privado, sociedade civil, organizações multilaterais) e, ainda por cima, ser capaz de interpretar as várias figuras que se formam, nessa extensa análise combinatória?
A boa notícia é que parece ter início a busca da criação de uma comunidade de pertença dos gestores culturais, dando-lhes de fato uma identidade profissional. Em tempos muito recentes era comum ouvir “Sou economista, mas lido com cultura”, “Trabalhei em banco, mas agora sou músico”, “Estudei engenharia, mas hoje produzo eventos culturais”. Soava quase como um lamento, um, “entrei em rua errada, foi engano, mas agora achei meu norte”. Hoje, ao contrário, ouvimos em alto e bom tom declarações surpreendentes como “Estudei Direito, trabalhei como malabarista e hoje sou pesquisador de políticas culturais”. Variação sintática? Detalhe menor? Pelo contrário, uma mudança de postura e de abordagem da profissão do gestor cultural e que revela também o reconhecimento da transversalidade da cultura nas diferentes esferas da sociedade.
Como falar hoje em política cultural, como se fosse algo setorial e não basilar no desenvolvimento de política de Estado, de política de desenvolvimento? Olhamos para os números da cultura e vemos a representatividade dos produtos e serviços culturais na economia de uma região, o que exige do gestor cultural a compreensão da cadeia integrada de produção, distribuição e consumo. Analisamos a viabilidade da realização de um filme e percebemos que o gestor cultural deve compreender os instrumentos jurídicos básicos relativos à propriedade intelectual. Deparamo-nos com um programa de preservação do meio ambiente e notamos que o manejo sustentável da área só se faz possível quando se beneficia e por sua vez reforça a cultura dos povos que entendem e se relacionam com a biodiversidade. E por aí seguimos, encontrando limites cada vez mais patentes entre a cultura e as políticas educacional, social, do turismo, das relações internacionais… Torna-se cada vez mais claro que um gestor cultural é, assim, um agente de mudança que rompe as barreiras entre setores e esferas, promovendo um diálogo entre eles. É, em essência, um profissional a tal ponto curioso e aberto a experiências e conhecimentos complementares, que se torna capaz de unir os pontos de uma imagem tão complexa como a oferecida pelo caleidoscópio da cultura.
Ana Carla Fonseca Reis