O nome de Pina Bausch – falecida no último dia 30 de junho com 68 anos – é imediatamente associado a Dança-teatro (Tanztheater). Embora não tenha sido a primeira coreógrafa a utilizar essa expressão, foi ela quem deu uma dimensão estética e conceitual a essa nova modalidade de expressão artística, universalizando-a.
Com o seu grupo Wuppertal Tanztheater, sediado em Wuppertal na Alemanha, Pina Bausch primeiramente desafiou e encantou os alemães, utilizando em seus espetáculos elementos marcadamente teatrais, sem deixar de destacar as técnicas clássicas do balé, só que de maneira crítica, para em seguida tornar-se uma das maiores referências em dança do mundo ocidental. Sua influência no futuro da dança foi universal e quase única.
Combinando e fazendo interagir cenários e figurinos com personagens, pantomima, gestos cotidianos, dança, canto e diálogos, suas obras sensibilizavam o público pela leveza, pelo conteúdo humano e pelo estímulo à reflexão, na melhor tradição de Brecht. Não foi por acaso que encenou em 1976 uma adaptação de Os Sete Pecados Capitais dos Pequenos Burgueses, ópera de Bertolt Brecht com música de Kurt Weil, um de seus maiores e mais longos sucessos. Foi o primeiro espetáculo no qual fez uso dessa nova linguagem, ainda estranha para a dança, e que marcou a sua carreira como coreógrafa e a força interpretativa de seu grupo.
Reapresentou-o mais de trinta anos depois, de 2007 a 2009, revista e readaptada e, segundo os críticos, sem que tivesse perdido nada de sua intensidade dramática original. Tive o prazer de assistir a essa versão do século XXI e me deixei também encantar pela simplicidade que sintetiza o essencial, pela riqueza coreográfica sem nenhum gesto em vão, pela expressão significativa dos rostos, uma das marcas do teatro, pela capacidade gestual dos bailarinos-atores, amalgamando música, texto e movimento de maneira criativa e crítica. Sobre essa encenação, Pina Bausch afirmou: “Não me interessa como as pessoas se movimentam, me interessa o que as movimenta”.
Seu método de trabalho consistia, sobretudo, em provocar os bailarinos-atores para que dessem respostas físicas e verbais a indagações fundamentais da vida humana. A partir daí se desenvolviam as cenas deixando vir à tona a magia do movimento e a dramaticidade do teatro. Certa vez disse: “Minhas obras não se desenvolvem do começo para o fim, mas de dentro para fora.”
Pela ousadia, pela inventividade e pela tentativa de fazer da dança um espaço de reflexões sobre questões humanas profundas, o legado de Pina Bausch para a evolução das artes cênicas é incomensurável e servirá sempre de fonte para pesquisadores e encenadores que não se contentam apenas com o trivial e o supérfluo. O corpo guarda segredos e saberes que precisam ser revelados. Era o que almejavam as suas coreografias.
Ou nas palavras dela: “Para mim, o mais importante é a vida. O que importa é compartilharmos nossos sentimentos, nossos medos e nossos desejos. Não tanto no sentido privado, individual, mas no sentido coletivo. Se cada um for ao fundo de si mesmo, perceberá que há uma linguagem comum a todos, que todos falamos e através da qual nos entendemos e nos identificamos.” Assim seja.
Erlon José Paschoal
Diretor de teatro, dramaturgo, tradutor e gestor cultural