De recorde em recorde

Sucesso de vendas, liderança da parada Billboard por quatro semanas consecutivas (em 22/12/2015), shows esgotados. Mais de 40 datas “sold out” a partir de março na Europa em grandes arenas como a O2, em Londres, com capacidade para 20 mil pessoas. Ou a Telenor Arena, em Oslo (Noruega), com lotação máxima de 23 mil lugares. Adele também estará no palco clássico do Madison Square Garden, lotando seis apresentações. Multiplicando o número de pessoas que cabem ali, pouco mais de 18 mil, teremos um saldo superior a 100 mil pessoas só nessas seis noites na cidade de Nova York.

Foto: TimMultiplicar e somar são os verbos ligados à cantora britânica, dona de números e estatísticas que não param de crescer, resultado de um fluxo que se alimenta com a quebra de recordes de “25”, lançado em novembro de 2015, com três anos de intervalo de “21”, seu segundo disco. Adele acumula recordes: “25” é o disco mais vendido na primeira semana nos Estados Unidos e na Inglaterra, batendo a casa dos cinco milhões de cópias nos EUA. Ironia da indústria, a cantora britânica acumula as duas maiores vendas nos EUA no período de um mês, perdendo somente para “21”, ou seja, para ela mesma.

O que se discute é se a boa onda da Adele é um caso especial ou pode acenar – mesmo que em longo prazo -, para uma mudança na indústria da música, que não via números tão robustos em tão pouco tempo.

Autor do livro “Da Vitrola ao iPod – uma história da indústria fonográfica no Brasil” (Alameda, 2015) e professor de Cinema, Rádio e TV da ECA/USP, Eduardo Vicente lembra que a recuperação da indústria se evidencia muito mais através da venda expressiva de poucos artistas do que de um fortalecimento da cena musical como um todo: “Nos anos 80, depois da crise da Era Disco, foi isso realmente que aconteceu. Um pequeno grupo de artistas de grande projeção mundial com forte ligação entre música e vídeo (como Michael Jackson e Madonna) dominaram e recuperaram a indústria, que chegaria ao seu auge nos anos 1990. Nos últimos anos, também tivemos nomes como Justin Bieber, Lady Gaga, Beyoncé, Taylor Swift, Rihanna, Kate Perry, a própria Adele… Mas não vejo garantias de que a indústria no sentido tradicional, ou seja, as grandes gravadoras, possa se recuperar com eles ou consiga continuar criando blockbusters indefinidamente”. Na opinião do pesquisador, a quebra de recordes de Adele se enquadra numa exceção, estando longe de ser uma regra.

Mais radical, Stephen Witt, jornalista norte-americano e morador do Brooklyn, local que concentra uma das cenas artísticas fortemente analisadas nos últimos anos, afirma em entrevista por e-mail que o novo disco de Adele reforça a ideia de concentração atual da indústria. “Para mim, ela representa o último suspiro do antigo modelo da indústria fonográfica”.

Estratégia – A volta de Adele ao mercado foi cercada de estratégias e muito bem articulada pela sua gravadora de origem. A XL Recordings é considerada independente e inicialmente fez parte de um grupo de selos ingleses, os Beggars Banquet Records, nascido em 1977, ligado à cena punk fundada no finalzinho dos anos 1980, como explica Márcia Tosta Dias, pesquisadora de temas relacionados à indústria fonográfica, cultural e mundialização da cultura, professora da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Seu catálogo é composto por bandas respeitadas e com público cativo (Beck, Devendra Banhart, Radiohead, Tyler The Creator, Vampire Weekend), mas nada arrasa quarteirão de vendas como Adele.

Na opinião de Vicente, a XL “mostra a força dos independentes dentro do novo modelo, no qual se tornaram capazes de ocupar o espaço das majors inclusive na divulgação de artistas de alcance internacional”. O movimento não é inédito. Basta lembrar das gravadoras que despontaram com o grunge e lançaram diversas bandas anos 1990, sendo a Sub Pop – de Seattle – um exemplo conhecido e significativo. “De qualquer forma, as grandes gravadoras ainda atuam, em muitos casos, como parceiras das indies na distribuição e promoção de artistas. No caso de Adele, a XL tem uma parceria com a Columbia Records (que pertence à multinacional Sony) para a distribuição de seus discos nos EUA”, comenta o professor.

Márcia diz que é importante considerar o perfil específico de algumas das indies inglesas, que nos anos 1980 disputavam com as grandes gravadoras (a partir de pressupostos diferentes) artistas do porte de The Smiths, Joy Division, New Order, Depeche Mode, Erasure, entre outros. Na visão da pesquisadora, a ligação de algumas dessas pequenas companhias fonográficas (principalmente as originadas no movimento pós-punk) com o star system foi complexa e intensa. “Nesse sentido é que vejo diferenças significativas entre elas e as indies brasileiras, por exemplo, por mais que existam interessantes semelhanças ligadas, sobretudo, aos processos de mundialização da cultura. Penso que hoje há espaço, mesmo que muito diferenciado, para todo tipo de produção, tanto no mercado quanto na cena cultural, o que constitui um avanço notável e a tendência é a de que a situação se aprofunde nesse sentido”, avalia.

A polêmica do streaming – Para ouvir “25” na íntegra não adianta apelar aos serviços de streaming, já populares no Brasil. Adele não disponibilizou o disco para estes aplicativos. Em entrevista publicada na última edição de 2015 da revista Time, na qual foi capa, a cantora justifica como uma decisão pessoal e não mercadológica sua negativa a esse tipo de serviço – ao menos por enquanto -, dizendo não ouvir discos por streaming e considerando o recurso descartável. “Adele é uma grande (e milionária) estrela posicionada numa incrível zona de conforto. Tem poder de negociar o quanto e como quer se envolver com a administração de sua própria carreira”, opina Márcia.

Marketing ou decisão artística, o sucesso de “25” atinge outros títulos de sua discografia. Segundo a Agência Reuters, o disco anterior, “21”, subiu quatro posições no ranking dos mais vendidos e ficou em 10º lugar, com 49 mil unidades vendidas em uma semana.

Num ano em que o filão da música digital ganhou serviços como o Tidal (lançado pelo rapper Jay-Z em março) e a Apple fincou o pé de vez neste terreno do streaming com a Apple Music, Stephen Witt lançou o livro “Como a Música Ficou Grátis” (Intrínseca, 2015), um thriller investigativo no qual mostra a decadência da indústria musical como conhecíamos. No caminho ele encontrou personagens reais que fizeram parte desse momento histórico, entre criadores do mp3, nerds obcecados por tecnologia e figurões da indústria.

Recém-saído da imersão para escrever o livro, Witt diz acreditar ser possível que a história faça uma curva e dê vazão a um novo modelo, no qual a música não será mais grátis. “Se me perguntassem isso três ou quatro anos atrás, eu diria que não. Porém, nos últimos anos a internet foi conquistada pelo governo e empresas com fins lucrativos. A internet não é realmente ‘livre’ e a ideia de que o cidadão possa usá-la como um espaço de troca de ideias e informações e arquivos digitais, é claro, está desaparecendo. Daqui para frente, a internet será um lugar voltado ao comércio e a indústria da música já está se beneficiando dessa situação. Com o passar do tempo, desconfio que veremos um retorno ao lucro”, analisa.

Nesse cenário em construção e sensível a previsões, o que teremos a seguir pode mudar caso um novo recorde de vendas se estabeleça ou outra briga entre músicos e serviços de streaming divida opiniões e estratégias nas redes sociais.

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