Desenvolvimento a partir da Cultura e da Economia dos Pequenos Negócios

“Na contramão, os pequenos negócios passaram a introduzir na economia traços culturais pouco explorados, como a noção de perfeição, de beleza, de emoção, de poesia, de alegria, das cores, da musicalidade e da valorização da própria cultura brasileira. Esses traços genuínos que caracterizam os pequenos negócios os tornam valores únicos e estratégicos em mercados competitivos”

A pluralidade conceitual do termo cultura, alargado do sentido antropológico ao econômico, revela um sentido dialético que reproduz a humanidade simultaneamente pela preservação da cultura e pela inovação da economia. Assim, a humanidade tem a capacidade de superpor às diferentes características de um povo e integrá-las ao desenvolvimento econômico de um país.

A partir dessa hipótese pressupõe-se que a inserção dos pequenos negócios, enquanto ativos econômicos de mercados competitivos, posto que disponham de força econômica considerável e riqueza cultural inquestionável, facilitará a compreensão da dimensão cultural brasileira e permitirá à economia alcançar patamar de desenvolvimento muito além do atual.

Os pequenos negócios urbanos no Brasil são uma economia pouco conhecida. No setor formal, em 2002, eram 4,8 milhões de estabelecimentos, 99,3 do total do país, e 15,6 milhões de pessoas empregadas, 57,2% da força de trabalho brasileira com carteira assinada. No setor informal, em 2003, eram 10,3 milhões de empresas e 13,8 milhões de pessoas ocupadas. Registre-se que os dados acima não são cumulativos por diferenças conceituais adotadas pelas pesquisas IBGE/Estatística do Cadastro Central de Empresas/CEMPRE, em Boletim Estatístico de Micro e Pequena Empresa/SEBRAE, 2005 e IBGE/Economia Informal Urbana, ECINF, 2003, em Economia Informal Urbana/SEBRAE, 2005.

Essa dimensão gigantesca reflete duas novas dinâmicas que se observam na economia: a primeira é a miniaturização do porte das empresas. Enquanto as médias e grandes empresas evoluíram 14%, entre 1996 e 2002, as microempresas evoluíram 58% e as de pequeno porte 51%, nesse mesmo período. A segunda é que, diferentemente do que cuida, está em andamento uma crescente formalização de empresas. Nesse mesmo período de análise, enquanto a expansão praticada pelos pequenos negócios formais superou a casa dos 50%, o número de microempresas do setor informal diminuiu 6,6% e o número dos chamados Conta Própria aumentou apenas 11,6%. Essa maior participação da população no desenvolvimento do país está gradativamente introduzindo e incorporando novos valores culturais.

Essas mudanças são fenômenos ainda recentes. O ambiente institucional e os mercados estão sendo reconfigurados, para calcular a verdadeira contribuição econômica dos pequenos negócios, e compreender a rica e diversificada cultura nela embarcada. Isso porque, a velocidade das transformações em andamento é muito mais acelerada na economia do que na sociedade, o que torna difícil interpretar a integralidade dos aspectos dessa realidade, sem implicar o risco de uma simplificação exagerada.

Entretanto, o fato é que a contribuição dos pequenos negócios na economia é crescente. A partir das duas últimas décadas do século passado, os avanços das micro e pequenas empresas e do setor informal romperam os números das antigas estatísticas, centralizadas na pujança do Estado e da grande empresa e no poder de um restrito círculo de sujeitos sociais e econômicos detentores de um padrão estético de consumo consideravelmente sofisticado e dependente do exterior.

Na contramão, os pequenos negócios passaram a introduzir na economia traços culturais pouco explorados, como a noção de perfeição, de beleza, de emoção, de poesia, de alegria, das cores, da musicalidade e da valorização da própria cultura brasileira. Esses traços genuínos que caracterizam os pequenos negócios os tornam valores únicos e estratégicos em mercados competitivos.

É a partir dessa constatação que se poderá entender a concepção indígena de perfeição enquanto conceito de beleza, pois nele a beleza está no fato de o produto ser mais perfeito do que a sua utilidade exige, tal como está reproduzido na arte indígena silvícola dos vasos marajoaras, das cariátides (esculturas de caras) de Santarém, ou na arte indígena campineira dos remos dos Karajás.

É pelos pequenos negócios que se terá acesso à beleza do barroco simples paulista, de frei Jesuíno, e será valorizada a poesia, genuinamente nacional, dos artistas das favelas, pintadas por Heitor dos Prazeres e dos costumes populares retratados por Djanira.

São esses milhões de empreendedores de pequenos negócios que integram ao desenvolvimento brasileiro a arte de procedência humilde e proletária das pessoas comuns, como os simples pintores de paredes, tais como foram Rebolo Gonzáles e Alfredo Volpi.

São ainda os pequenos da economia que poderão fazer compreender a temática social dos operários e dos movimentos sindicais, pintados por Tarsila do Amaral, ou os retirantes nordestinos ou os pés grandes firmados na terra, representados por Cândido Portinari, hoje reproduzidos na cerâmica de Beto Pezão, ou ainda na arte primitiva da cerâmica do Mestre Vitalino, encontrada no barro pintado de Manuel Eudócio ou na argila crua de Sil da Jaqueira.

É pelos pequenos empreendedores que será resgatada a alegria das cores de Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo, Di Cavalcante, do surrealismo de Cícero Dias, ou da arte decorativa de Aldemir Martins industrializada em larga escala em aparelhos de jantar.

É ainda o barulho ensurdecedor dos pequenos negócios, ouvido na Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro, na 23 de março, em São Paulo, ou na feira de Caruaru, que transmite a música das comunidades de menor renda econômica, do samba e dos funk urbanos, ou das cantorias das tradições rurais.

Finalizando, é a superposição dos aspectos econômicos de milhões de empreendedores de pequeno porte que reproduz a variedade dessas manifestações culturais. Simultaneamente, são elas que tornam o Brasil uma economia dinâmica e uma sociedade complexa que configuram um novo ethos, “um conjunto de valores vividos que conferem às comunidades uma identidade peculiar”. E esse novo ethos é inserido na economia transformando os pequenos empreendedores em ativos reais e principais fatores de competitividade da economia brasileira.

O Brasil, felizmente, está em um raro momento de tranqüilidade sistêmica de sua história, consolidada por uma democracia consistente, uma economia forte, movida por uma desindustrialização modernizante, acessos socializados a renda, crédito e tecnologia, pela abertura de mercados, pela proteção ao meio ambiente e pela construção de fronteiras inteligentes entre setores, portes de empresas e países. E é nesse cenário que esses milhões e milhões de empreendedores tornarão a economia brasileira mais produtiva e permitirão à sociedade brasileira compreender sua própria história, enquanto sujeitos ativos da dinâmica integral do desenvolvimento.

José de Moraes Falcão

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