De 2 a 5 de dezembro, aconteceu a 3ª edição da Semana Internacional de Música de São Paulo (SIM São Paulo), um dos principais eventos do setor no país, que reuniu artistas, produtores, empresários, jornalistas e outros profissionais, do Brasil e diversos países.

Foto: ReproduçãoCultura e Mercado acompanhou algumas das mesas. Confira abaixo os principais destaques:

Natura Musical – Na quinta-feira foram anunciados os selecionados dos editais Natura Musical de 2015, em mesa que reuniu os integrantes do juri, Zé Pedro e Zuza Homem de Mello. Eles falaram sobre os critérios de seleção dos artistas. Segundo Zuza, há uma preocupação em buscar o equilíbrio entre veteranos e novatos, e é isso o que determina o êxito do projeto.

Para Zé Pedro, o critério principal de escolha é a novidade, a diferença. “Mesmo no caso de artistas consagrados, é ver se eles estão trazendo algo de novo”, disse.  Zuza completou: “Novidade também precisa ser bem feita. Tem que ter embasamento profissional”.

Clique aqui para conhecer todos os selecionados.

Streaming – O professor de Music Business/Management Department da Universidade de Berklee, Peter Alhadeff, apresentou dados de um estudo sobre pagamentos e transparência na indústria da música (Fair Music Project).

Ele explicou que uma das principais dúvidas às quais buscavam respostas era: como a tecnologia poderia resolver as questões de pagamento e licenciamento. “O Spotify tem o mesmo tipo de distribuição de lucro que tinham os selos: a distribuidora fica com 30% e os donos dos fonogramas ficam com 70%. Há um conflito de interesse entre as gravadoras e os artistas e compositores, e isso não mudou muito”, explicou.

O relatório sugere que no mundo hoje há uma divisão de interesses entre os autores da música e quem a distribui. O número de intermediários ou de interações na cadeia da música gravada é muito grande e muitas gravadores tem ações no Spotify, segundo o professor. “O Spotify pertence parcialmente às gravadoras, mas talvez essa participação devesse pertencer aos artistas ou aos autores da música”, disse, lembrando que o Spotify não tem a obrigação de divulgar os termos de contrato com as gravadoras. “Então suspeitamos que os artistas não estão recebendo tudo o que deveriam.”

Para ele, é preciso haver mais transparência, já que a ideia de confiança entre criadores e intermediários está sendo rompida, mas não apenas isso. “Sem uma ajuda externa de algum tipo de autoridade, os criadores estarão presos a um sistema que gerará rendimentos menores. É preciso ter um tipo de árbitro governamental, e a solução são contratos de preferência que defendam o autor”, orientou.

A falta de registro de direito autoral é outro problema, levantou Alhadeff, pois dificulta a localização para licenciamento da música. “Talvez até 20% do dinheiro que poderia ser ganho pelos autores iria pra eles se não existisse esse problema, que é muito maior do que o Spotify. Uma parte desses fundos acaba sendo alocada ou distribuída para as grandes empresas de publicação, com base numa porcentagem”, explicou

E finalizou: “Com total transparência, o futuro da música vai ser brilhante: haverá muito mais dinheiro no negócio de música gravada, as assinaturas continuarão crescendo, o gasto per capita com música crescerá, os consumidores voltarão a monetizar a gravação, aumenta o mercado de música ao vivo, a venda de equipamentos musicais e a educação musical.”

Políticas para a música – Na primeira mesa do segundo dia de evento, Cacá Machado, articulador nacional da Música na Política Nacional das Artes (MinC/Funarte), conversou com a pesquisadora e membro do Setorial Música do Conselho Nacional de Política Cultural, Dani Ribas, sobre como os agentes do setor vêm se articulando para construir coletivamente uma política que responda às demandas do segmento.

Para Machado, a sociedade civil muitas vezes não se reconhece nas falas do Ministério da Cultura, e grande parte do setor da música nem sabe como funcionam as redes de articulação ativas. “Temos que pensar na dimensão das instituições criadas dentro do governo para criar instância de diálogo, e em como a sociedade civil se organizou pra criar essas instâncias.”

Ele também lembrou que o setor musical sempre sobreviveu do mercado, ao contrário do cinema, que por necessitar de um investimento inicial muito grande para as produções, sempre dependeu do Estado. “O cinema sempre teve uma relação política com o Estado estabelecida. Não à toa hoje eles têm uma agência. A música gera mais dinheiro do que o cinema, mas é mais diluída e sempre se manteve por si só”, explicou.

Ao fazer uma linha do tempo sobre as políticas culturais brasileiras, ele lembrou que das 53 metas do Plano Nacional de Cultura, apenas um ponto diz respeito à música, mais especificamente sobre direito autoral. E defendeu que os editais são mecanismos de exclusão. “São regras para excluir as pessoas, porque o dinheiro é mínimo, direcionado através de diagnósticos míopes.”

Machado disse ainda que os erros de diagnósticos são os maiores problemas na organização de uma política pública no Brasil. E questionou: como criar um grande da música no Brasil? “A gente vive um deserto de indicadores culturais. Temos intuições e quem trabalha na área usa isso, mas isso é péssimo”, alertou.

Outra questão colocada foi sobre a criação de uma Agência Nacional da Música, nos moldes da Ancine, assunto que está sendo debatido pelo grupo de música do CNPC. “Música tem dimensão simbólica e econômica e requer maior representatividade. Não é uma questão só de regulamentação.”

O mercado da música popular – A mesa intitulado Empresários S/A reuniu Airton Valadão Júnior, criador da Agência Produtora, e Fábio Francisco, dono da Inovashow. Ambas as empresas trabalham com grandes artistas de gêneros populares, como pagode e sertanejo.

Junior lembrou que, nos anos 1980, as gravadoras promoviam disco, não pagavam jabá. Faziam, por exemplo, camisetas a serem sorteadas nas rádios, e isso era o que promovia o artista. “Os grandes vilões dessa história são as gravadoras, que mandavam 10 mil reais para as rádios ao invés de 10 mil camisetas. Aí não se investiu mais nada em marketing, o CD começou a ficar caro… tem muito artista que pirateia o próprio disco”, disse o empresário.

Além disso, a gravadora determinava quando queria o disco. Hoje, o artista cria e a partir daí é que se pensa no planejamento para aquele disco. “Hoje o viral acaba substituindo as dezenas de funcionários do marketing, que viviam viciados na questão do dinheiro e do jabá. Os departamentos de marketing e de divulgação das gravadoras acabaram se transformando em pequenas empresas, que são contratadas por jobs. Hoje eles pulverizaram o mercado de maneira muito saudável, e a gente faz a estratégia: monta o plano e paga a la carte”, explicou.

A Inovashow, além do agenciamento de artistas como Thiaguinho e Exaltasamba, é editora, selo e distribuidora. Para Francisco, nos últimos 10 anos, o empresário precisou entender que deve ser multifunção. “O que mais incomodava ao depender de gravadora era a demora. Porque mesmo eu fazendo tudo, dependia da autorização deles. Reunindo tudo, além do faturamento ser todo da sua empresa, você acaba tendo mais liberdade de fazer o que quer e na hora que quer.”

Junior completou: “hoje temos que ter velocidade. A gente precisa vender show, e sem o trabalho todo bem feito, a gente não vende”. Para Francisco, o mercado popular entendeu isso e o futuro da música é isso: o escritório ter todas as operações “dentro de casa”.

Mesmo o artista popular, que toca em rádio, precisa do trabalho de guerrilha. Foi o que afirmou Francisco, emendando que 80% da população brasileira ainda precisa do físico para ouvir música, embora não tenha mais vontade de comprar a mídia física.Para ele, o físico deve durar pelo menos mais uns 10 anos no Brasil, ainda que sirva só como cartão de visita, com já vem sendo utilizado. “Hoje em dia não vendemos CD, damos CD. Não existe artista popular hoje que não faça esse tipo de campanha, que não faça pelo menos 500 mil discos para dar, ou entregar pro camelô vender. E damos porque as pessoas ainda querem ouvir CD. As plataformas digitais ainda estão longe de alcançar o Brasil inteiro, e nosso principal negocio ainda é vender show. E pra vender show, é preciso que a música chegue em todos os lugares. O digital vai ser a próxima mídia, mas isso ainda deve demorar muito.”

Junior lembrou da época da transição do vinil para o CD, em que o CD e o CD player eram mais caros. “Ali foi o primeiro encolhimento em massa das gravadoras, mas serviu para os selos saírem do armário e começarem a aparecer de uma maneira menos de guerrilha. Essa palavra independente começou a surgir aí. Essa crise atingiu a gente nos shows também, porque as gravadoras investiam menos em rádio e TV. Agora a gente já sabe que gravadora morreu mesmo, naquela época esperávamos alguma coisa, com o Plano Real, o dólar caindo, estabilidade econômica…”

Ele acredita que o físico não vai desaparecer, ainda mais levando-se em consideração a volta do vinil. “Acho que vai ter espaço pra todo mundo, mas ainda é uma incógnita. A única certeza que temos é que amanhã vamos levantar e temos que continuar a trabalhar. Nós, como qualquer outro segmento profissional, estamos em dificuldade. Apesar do nosso trabalho ser ligado ao pão e circo, o público final está receoso. Mesmo lugares com potencial pra lotar, não lotam. Não é que o show é ruim, que o cara não tem público. Hoje em dia temos que ter um economista dentro do escritório. E daqui a pouco vamos ter que ter um vidente, um pai de santo”, brincou.

Para Francisco, o interior é o que sustenta o mercado de shows. Lança-se um trabalho na capital, mas o retorno vem dos shows nas cidades do interior. “E o que tem pra chegar lá? Rádio”, indicou.

Todos os lados do disco – Baseada na série de documentários O Outro Lado do Disco (Canal Brasil, 2015), de Rodrigo Lariú, a mesa propôs uma discussão sobre a atual relevância da parceria entre artistas e gravadoras ou selos independentes. Participaram Paulo Monte (selo Slap/Som Livre), Chris Eckman (Glitter Beats), Arthur Joly (Reco Head) e Ricardo Cantaluppi (Kuarup), mediados por Lariú.

Para Monte, o artista precisa saber o que quer quando começa a fazer um trabalho. Dependendo do objetivo, precisa de uma ajuda. “Assim, qualquer gravadora, num primeiro momento, é um parceiro. Fazer sozinho dá trabalho, custa dinheiro e às vezes é frustrante. Uma gravadora ou selo serve para ter um parceiro, especialmente numa parte que você não quer fazer, como burocracias. Ter esse parceiro é legal. Também é uma parceria para dividir as contas de produção, divulgação… Fora as oportunidades que qualquer selo ou gravadora ajudam a trazer. Um selo consegue dar mais visibilidade em uma plataforma digital. Isso ainda é uma coisa que ajuda muito. Tem muito artista que vai sozinho e consegue vencer, mas com um parceiro a aventura é menos sofrida e pode levar mais adiante.”

Eckman concordou, dizendo que não importa se é o artista quem contrata a gravadora hoje, e não o inverso. “Hoje em dia a relação de parceria é o que funciona. Uma gravadora pode te trazer valor que sozinho você não consegue”, completou o alemão.

Cantaluppi acredita que falar de gravar é falar de necessidade de amplificação do público. “O lado artístico é uma coisa, é sua expressão sobre o que você vê no mundo. Antigamente se vendia muito disco porque era a única forma de você ouvir a música na hora que queria. Hoje em dia você ouve o que quer na hora que quiser. Então, quer o disco pra quê? O seu lado artístico é uma coisa, mas há todo um outro lado comercial, uma engrenagem que precisa funcionar integrada.”

Políticas municipais para a cultura em São Paulo – Na última mesa do segundo dia de evento, o secretário municipal de cultura da capital paulista, Nabil Bonduki, falou com Pena Schmidt, diretor do Centro Cultural São Paulo, sobre as propostas da prefeitura para o setor musical.

Pena lembrou que a música não se resume ao disco ou ao show, mas tem toda uma cadeia que precisa ser contemplada pela políticas públicas.

Bonduki afirmou que cerca de 40% dos recursos da secretaria de cultura hoje são voltados para a música. “É nossa função fazer com que a cadeia produtiva da música funcione bem, tenha espaços para apresentações, tenha mídia, que as casas e bares tenham apoio, assim como os artistas de rua, além de equipar os equipamentos já existentes da prefeitura. Mas há limite, não conseguiremos dar conta de tudo o que precisa ser feito”, admitiu.

Ele afirmou que não haverá grandes mudanças na quantidade de recursos disponíveis, mas que ainda assim será possível apoiar o setor, e indicou que essas devem ser políticas de Estado, não de governo.

Questionado sobre o andamento da lei que deve substituir a Lei Mendonça, ele disse que há conversas para regulamentação, mas ainda não há previsão para que isso aconteça de fato. “Isso depende de uma negociação com a secretaria de finanças, que hoje não entende esse como um recurso a mais para a secretaria de cultura, mas sim como O recurso. Temos que convencer a secretaria de finanças e o prefeito, em última instância, que ter uma renúncia fiscal na cultura pode gerar um progresso econômico interessante para a cidade. Esse ano o debate não conseguiu avançar, mas esperamos que aconteça em 2016. Vale mobilização da sociedade”, disse o secretário.

Schmidt encerrou a mesa apresentando os principais pontos previstos para uma possível lei que contemple a área musical: apoio a residências de coletivos musicais; equipamentos móveis; reconhecimento das casas noturnas como equipamento cultural; bolsas de estudo para músicos de rua; edital municipal para palcos permanentes; edital de apoio à circulação; edital para festivais; SP Instrumental (música nas praças e/ou em outros espaços ao ar livre); e apoio a articulação e pesquisa.


Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

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