Comemorar o Dia Nacional do Choro tem sabor cada vez mais especial, Alfredo Viana da Rocha filho, o Pixinguinha, é um brasileiro com toda aquela carga de complexidade que conhecemos bem e que nos é revelada tão somente pela alma, por isso merece um dos capítulos do grande romance de Mario de Andrade, “Macunaíma”, o filho de ogum bexiguento, que é retratado por Mario como um destes brasileiros múltiplos e por isso singular em sua cultura.
O mesmo Mário e o mesmo Pixinguinha se fundem para produzir uma das principais obras da literatura musical brasileira, o livro “Música de Feitiçaria no Brasil”, onde são feitas as mais profundas observações do traçado e influência dos terreiros de candomblé na música brasileira até os dias de hoje, sobretudo o “Canto de Ogum” gravado por Mano Elói e que Mário, sabiamente, classifica como uma obra-prima. Pixinguinha foi um informante atento às necessidades do musicólogo e amigo, Mário de Andrade.
Pixinguinha é a alma da arte brasileira, dos brasileiros todos, não dos brasileiros poucos e parcos em acomodações oficiais, fardadas, burlescas de um ideário anti-nacional, de língua alguma, pois, não sendo brasileiros nem no Brasil, não são nada em lugar algum.
Pixinguinha é a arte que nos redime dos nossos pecados de origem colonial, pecados de posse oficialesca, com aquele limite de uma estrondosa e admirável vulgaridade apreciada pelos conferencistas das universalidades toscas e infantes das brigadas morais cínicas e hipócritas, aposentados da fonte das idéias perante realidade nenhuma da vida nacional.
Pixinguinha é a encarnação da generosidade franca e rica da cultura africano-brasileira, na essência de sua maior representante, a “Música do Brasil”. Essa coisa inexplicável que nos une pelo sentimento, só pode também ser como bem disse o grande maestro Villa Lobos, “pelos mistérios da alma de um povo tão musical como é o nosso”, e que Mário de Andrade dizia, “nós brasileiros vivemos cotidianamente com as nossas melodias ocupando os nossos lábios”.
Pixinguinha dos terreiros e altares brasileiros, ainda hoje perseguidos pelos ofícios do preconceito covarde com o próprio país. Dos brasileiros terreiros iluminados de muitos santos negros, orixás, caboclos, brancos e índios de mitos generosos no dia a dia de uma nação que tem sua própria forma de lidar com as divindades de múltiplas etnias sim, porém únicas na fé, uma fé de alma limpa, de generosidade plena, de herança tupi-guarani que se fundem e produzem outros tantos brasileiros, matutos, sertanejos, dos pampas com o mesmo sentimento unificador do Brasil cosmos, de proporções continentais de sotaques diversos na representatividade da gênese da vida brasileira. Isso é o choro, isso é Pixinguinha, isso é o Brasil atemporal, absolutamente livre das gangorras conceituais.
Por isso se comemora em 23 de abril, o Dia Nacional do Choro, dia do aniversario de nascimento de Pixinguinha. E, mais do que justo, é real, pois um está fundido no outro, não o choro como gênero sob os olhares pouco atentos de eruditos de infantarias papelórios que, vedados pela bitola retórica e proselitista da memória do alforje, não identifica esta síntese da característica universal brasileira, da mesa comum. Esses olhares não enxergam assim e também não ouvem, pois não reconhecem o seu próprio país, preferem se anular como cidadãos autênticos para se atirarem nos braços vazios do amargo mitificador de natureza híbrida e beberem o inóspito gosto do pastiche.
Pixinguinha é a sentença do povo que chacoalha as bíblias formais bidimensionais do intelecto medíocre, dos cacoetes caluniadores, medrosos, sem rodeios e com olhos voltados para as etiquetas de bons modos cultos.
Pixinguinha é a própria encarnação tridimensional: base, altura e profundidade, da arte do povo brasileiro que, por sua vez, faz dessa liberdade, a boa e descadeirante galhofa que se embebece com o descontrole das formalidades diante da malícia equilibrista da nossa matriz primeira, a rítmica, zombeteira, cadenciada em galopes de magnetismos hipnóticos da verdade do saber. Isso é muito para as cabeças encaixotadas, formatadas dos verdugos que se identificam com a velha e tradicional franqueza gorducha, mas estão longe, bem longe do universo libertário de um Pixinguinha tamborzeiro que usa a pausa da sincopa para desenhar as santas contradições da nossa alma triste-alegre-terna-emotiva.
O Choro Brasileiro é Pixinguinha, santificador e absolutamente liberto do religiosismo acadêmico das irmandades pudicas nacionais que tripudiam o patrioteiro que se presta ao papel de caminhar em paralelo com o sectarismo e cartesianismo do gigante estado de cultura doutrinária, essa que confronta o governo e a sociedade com suas normas seletivas, fisiológicas e de caráter escancaradamente costeiro, universalesco baseado em modelos que se alimentam do isolamento térmico proporcionado pelo aporte financeiro originário da própria sociedade negada por essas armadas eurocêntricas e piegas da incultura financiada, preguiçosa e garantida pelo moto perpétuo.
O Choro, Pixinguinha, é essa expressão que corre nas veias deste país há mais de 400 anos. Uma expressão que se reinventa a cada dia, sem bitolas e amarras, dialogando com toda a nossa história de terreiros, e salões. Queira o império dos mortos-vivos ou não, é o choro, em corpo e, sobretudo em alma que propõe os nossos caminhos artísticos, na multiplicidade de nossa palheta não só na música, mas em toda a aura das nossas as artes que traduzem, através das expressões, esse sentimento unificador.
Um dia, libertos de si mesmos, os nossos burocráticos acadêmicos, os broncos homens da cultura de província, pronta e liquidada em sua criação, se tornarão doutores de fato, com autonomia de sentimento e, consequentemente com nutrição crítica. E aí, poderão fugir dessas teias imperiais e seus dogmas de bengala lustrada, de soberba de primarismo caricato, imprópria para a primeira calçada a céu aberto do Brasil de Pixinguinha. Então, eles terão o prazer de comemorar esta data, 23 de Abril, “O Dia Nacional do Choro” como “O Dia de São Pixinguinha”.
Aos libertos, um presente: “Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba”, o premiado curta-metragem de Thomaz Farkas, onde podemos ver, entre outros, a Santíssima Trindade da alma artística brasileira, “Pixinguinha, Donga e João da Baiana”. Para assistir ao curta, clique aqui.