Entrevista com a gerente Sonia Sobral mostra como funciona o programa Rumos, do Itaú Cultural
Sonia Sobral é a atual responsável pelo programa Rumos Itaú Cultural Dança, que seleciona projetos de dança contemporânea nas categorias Videodança (dança para vídeo) e Obra Coreográfica. É também gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural. Nesta entrevista, realizada duas semanas após o término da última edição do programa, a gestora nos conta um pouco de como funciona o Rumos, qual seu objetivo e qual o quadro da dança contemporânea no país, além de pensar sobre a articulação do setor. Mais detalhes sobre o programa na matéria “Dança sem Dramas” ou na página www.itaucultural.org.br.
Cultura e Mercado – Como começou o programa?
Sonia Sobral – Desde 1999 iniciamos o projeto do Rumos dança, que em 2000 resultou na primeira versão da Base de Dados e no primeiro projeto de seleção. É um programa que utiliza verba, na melhor das hipóteses, pública, com algo em torno de 70% do dinheiro vindo de renúncias fiscais através de leis de fomento, utilizadas pelo banco.
O projeto teve uma etapa inicial que a gente chama de mapeamento, onde levantamos a conjuntura da área, vendo o que ela estava precisando. Na versão mais atual dessa base de dados, escolhemos 15 cidades onde havíamos detectado dança contemporânea através de uma rede de 13 pesquisadores de 13 universidades diferentes, que trabalham ao todo com 60 cidades e levantaram lá a presença de festivais, de mídia especializada, de teses acadêmicas, enfim, da dinâmica cultural, que nos permitem enxergar além do sudeste, em especial além do eixo SP-RJ-BH. Em 1999 não houve, porém, um mapeamento além da academia. Um dos objetivos é analisar os fatores que interferem, ou seja, analisar aquilo que influencia na dinâmica dos grupos. Cada lugar tem uma determinada dinâmica cultural, um contexto que é importante capturar. É diferente fazer dança onde há crítica, há estudos e há livros, do que fazer onde só há o seu grupo, por exemplo.
CEM – Como é construída essa base de dados? Qual a relação de vocês, aqui em São Paulo, com os pesquisadores?
SS – O levantamento da Base se dá a partir das academias, dos pesquisadores. É um trabalho de formiguinha, em que cada pesquisador liga para seus contatos e estabelece novos contatos, que passa depois para nós. Por isso também a equipe é limitada. Não dá para ter uma equipe de 25 pesquisadores, é muito difícil de coordenar. Além disso, nossos pesquisadores atuam como uma espécie de consultores.
CEM – E o que acharam?
SS – Essas cidades fora do eixo de produção do sudeste, a maioria, têm produção pequena e às vezes pouco compreendida em sua área geográfica. A dança é algo que existe onde ela mesma quer existir, por iniciativa dos que estão lá. Mas em diversos lugares há artistas que precisam se articular em outras redes, e que assim articulam sua cidade. Teresina teve uma dinâmica bem interessante. Nosso pesquisador fez contato em 2004, e não havia praticamente nada na cidade. Dois anos depois um artista da cidade voltou da Europa, e tudo explodiu. A cidade teve uma série de discussões e apresentações, que no último levantamento simplesmente não apareciam. É um exemplo de como esses cenários mudam com grande dinamismo, embora isso não justifique viagens anuais nossas e dos pesquisadores. Vamos a Teresina e em outros pólos a cada dois anos, realizar seminários.
CEM – Seminários?
SS – Antes de lançarmos o edital, fazemos sua divulgação através principalmente de uma caravana de divulgação e estudos. Esse “antes” tem sido muito importante, pois é fundamental para aproximar estes grupos de nós, e promover o diálogo. Em 2006 visitamos 15 cidades, onde consideramos que a discussão já está bem adiantada, contando com festivais e grupos estéticos. Nelas discutimos diversos temas dentro da arte contemporânea, da dança, da pesquisa em dança e do registro da dança, fazendo uma rede inicial de contatos.
CEM – Sonia, gostaria de “voltar” um pouco na discussão. Por que dança contemporânea?
SS – Veja bem, o fato de ser dança contemporânea não significa que ela é mais legal. É porque ela se faz de testes e experimentos, de forma diferente do balé clássico e da dança popular. E é do perfil e da proposta do Itaú Cultural apoiar novos criadores e distribuir informação. E para termos resultado procuramos fomentar e difundir criadores e intérpretes, assim como contribuir para a especialização, estimulando a produção e sua documentação.
CEM – Além dos seminários e da Base, vocês têm outras formas de fazer circular essa informação?
SS – Bom, vamos com calma. Após o edital são sete meses para desenvolver pesquisa, e aí aparecem os resultados dos grupos, que chegam em ritmos diferentes de acabamento. Alguns chegam prontos, outros precisam estudar mais e outros ainda tendo de recomeçar tudo. Então juntamos estes grupos na Mostra. Uma vez na Mostra, fazemos seminários, discussões, oficinas, e este ano realizamos uma reunião para articulação.
A idéia era facilitar um espaço onde todos poderiam se conhecer melhor, de onde podem vir novas articulações capazes de viabilizar avanços para a dança no país. Além dos grupos, convidamos curadores de festivais regionais do país todo. E constatamos que, salvo raras exceções, só se conheciam entre si os curadores do eixo Rj-MG-SP. Ou seja, está faltando articulação, e olha que hoje, após dois anos de discussão pró-articulação, Recife e Fortaleza já entraram nesse “corredor”.
CEM – Por que se preocupar com essa articulação?
SS – De 2000 até agora a grande contribuição do programa foram os contatos, as redes formadas. E isso, não os espetáculos, é que são insubstituíveis para a área. A troca de informações é o que gera conhecimento. Os espetáculos são importantes, mas não são eles o principal. Uma coisa que percebi é que é muito difícil o Brasil saber do Brasil, e isso é muito importante.
CEM – É difícil saber por quê? A educação formal é um dos fatores que influencia?
SS – A dança fica de fora do ensino básico, como quase tudo de arte. Sempre tem um pouco de dança, teatro e música, mas pouco, num nível muito básico, mais para apresentar. Além disso, a formação em artes tende só para as artes visuais, uma tendência da educação em todo o mundo. Aos poucos, porém, as pesquisas em historiografia da dança começam a se estruturar, e isso pode mudar um pouco a situação. Essa tendência vem dos últimos 5, 6 anos. Este ano o Festival de Dança de Joinville promove um seminário sobre história e registros em dança e em Belo Horizonte se realiza o I Encontro de Pesquisa sobre Memória da Dança.
CEM – A dança é hoje uma arte de público menor?
SS – Não. Hoje a dança já não é o menor dos públicos nas artes, tem crescido muito, especialmente a vertente contemporânea, que é disputada com um público também de arte contemporânea. A coisa cresceu muito, em parte por causa dos movimentos de coletivos de classe, em 2004, que politizaram os grupos de artes, avançando na regulamentação da dança em várias cidades. Houve também o Fórum Nacional de Dança, que formou um começo de rede. E tudo isso ajudou. Hoje há espaços que se abrem para a dança, como o Teatro Fábrica, que reserva uma de suas salas só para dança contemporânea. Aumentaram também as faculdades, as mostras. Mas não dá para entender, nesse meio, o que é causa e o que é conseqüência, inclusive conseqüência da atual gestão federal.
CEM – É possível ter um diagnóstico do país?
SS – Sim. Há pesquisa, há tentativa, mas não há métodos. Faltam critérios acadêmicos. Falta o como, os procedimentos de pesquisa. A fragilidade maior é a falta de formação em procedimentos de pesquisa.
Guilherme Jeronymo