Dia e noite, masculino e feminino, racional e emocional, tangível e intangível, a lista de dualidades que nos caracteriza é imensa. Talvez, assim como as duas pernas com as quais caminhamos, o que nos mobiliza é justamente a busca de equilíbrio e rearranjos entre estas dualidades.

Nada nos atrai tanto quanto o desejo de mudança, transformação, que faz com que inovemos e reinventamos maneiras de ser e de fazer. Nada nos assusta tanto quanto mudanças e transformações, que fazem com que nos apeguemos a padrões que podem não fazer mais sentido.

Isso fica claro quando olhamos para trás, para nossa história, e nos perguntamos: Como foi possível a Inquisição? A idéia de que banhos faziam mal à saúde? A sangria como técnica medicinal? A lista de coisas que hoje nos parecem bizarras é enorme. O mesmo se dará quando o futuro olhar para estes nossos tempos, e é interessante pensar o que vão considerar bizarro. Que tipo de equívoco atual será olhado como um absurdo que causou dor, destruição, miséria?

Mudar é difícil. Perceber que as coisas inexoravelmente não são mais as mesmas, que é preciso criar novos padrões de pensar e fazer, que é preciso permitir, por exemplo, que um século se vá e o outro se instale. Nalguns momentos isso é mais agudo, pois evoluímos em saltos. Estamos no meio de um deles. Um salto enorme, pois marca a transição de séculos (milênios?) onde a centralidade da vida estava organizada em torno do material, tangível e, portanto, finito para uma época onde o intangível desempenha papel cada vez mais central. Talvez porque sobreviver (que depende de recursos tangíveis) já não é a única questão central que ocupa nosso cotidiano e vamos poder nos dedicar aos “comos” do viver (cuja qualidade depende mais de intangíveis).Talvez porque um momento de crise de recursos reforce a percepção e potencial que o intangível oferece: conhecimento, cultura e criatividade não apenas não se esgotam, como são os únicos recursos que se renovam e multiplicam com o uso. São infinitos, elásticos. Divido com você uma maça, temos metade cada. Divido com você meu conhecimento e temos o triplo: o seu,o meu e o que resultou da interação.

O tangível/material é finito, limitado, portanto gera disputa por sua posse, conduzindo à competição como elemento central na política, economia e, infelizmente, na vida cotidiana. Já o intangível é ilimitado, e pode ser o caminho para novos modelos baseados em cooperação. Quando somado às tecnologias digitais (e bits também são infinitos) temos uma infinitude de opções colaborativas e surge um novo termo: “economia da abundância” que pode originar modelos mais solidários de viver.

E mais: atividades baseadas em recursos intangíveis são multidimensionais, podendo portanto atuar nas quatro dimensões da sustentabilidade: tem um forte impacto econômico, é certo, mas podem ir além, atuando como fator de interação  social, ambientalmente correto e que fortalece os valores, diferenciais e credibilidade de comunidades e empresas.

Tudo isso em teoria é maravilhoso, representa um potencial que mais parece uma galinha de ovos de ouro. O problema é que, permanecendo presos a modelos do passado, nossas políticas e estruturas resultem em canja de galinha de ovos de ouro.

Talvez a física quântica, ao nos apresentar modelos científicos constituídos por polaridades complementares, como matéria e energia, nos mostre que nosso mundo na verdade é feito de dois ecossistemas complementares e interdependentes. O ecossistema ambiental, tangível, que é matéria e portanto mensurável. O ecossistema sócio-cultural, intangível, mutante como a energia e portanto mais difícil de mensurar .
 
Tentar avaliar apenas quantitativamente estes dois ecossistemas, suas relações, e as quatro dimensões que são os pilares de sua sustentabilidade é como tentar medir litros com régua. Impossível. Não se pode medir de forma linear o que é multidimensional.

Ao adotar como parâmetros exclusivamente o econômico, nos mantemos presos a modelos do passado e o desafio agora é fazer com que as lideranças dos setores público, privado,terceiro setor e empreendedores criativos tenham consciência da mudança de época em que estamos, os enormes potenciais que ela oferece e a mudança de mentalidade e políticas para aproveitá-los.

A própria economia terá que ser revista, já que uma de suas definições era “gestão dos recursos escassos”. Criatividade e cultura são recursos abundantes, especialmente nos países do hemisfério sul, e representam um enorme patrimônio, que pode provocar uma revisão no conceito de riqueza e pobreza . Recurso é muito mais que dinheiro e deve incluir as dimensões sócio-cultural, social e ambiental.

A equação do desenvolvimento sustentável não é apenas econômica. Cada dimensão tem seus próprios capitais: capital humano, capital cultural, capital social, capital ambiental, que se desdobram nas várias nuances como as adotadas na avaliação de intangíveis, como se vê no trabalho de Eduardo Rath Fingerl do BNDES ou de Daniel Domeneguetti.

Isso leva a um intercâmbio de moedas ainda pouco reconhecido e estudado: o investimento feito em moeda-dinheiro, por exemplo, pode ter um retorno em moeda-social; o investimento realizado em moeda-ambiente pode gerar um retorno em moeda-simbólica, e assim por diante. Exemplo disso é o que nos mostram experiências inovadoras como as de Open Business, estudados por Ronaldo Lemos do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV- Rio de Janeiro. Casos como da música no Pará ou audiovisual na Nigéria mostram essa conversão de “moedas”: a chave do sucesso destes modelos está na distribuição,  pois quem vende os produtos são os camelôs.Neste processo deixa-se de receber a moeda–dinheiro dos direitos autorais, mas recebe-se em moeda – visibilidade, que torna os autores conhecidos e desejados, ampliando o mercado, que por sua vez gera moeda – inovação constante e tudo isso cria um processo amplo e dinâmico que ao final gera moeda-dinheiro.

Mensurar o intangível é também passar de uma visão exclusivamente quantitativa para uma visão que inclui o qualitativo.O foco em resultados também deve ser ampliado para avaliação de impactos : verificar o que mudou, que benefícios foram gerados nas outras dimensões além da econômica. Avaliar resultados de programas de música na favela, como os do Affroreggae, pelo número de músicos que se profissionalizou é como medir litros com régua. Quanto vale a auto-estima de uma comunidade? Quanto vale vidas poupadas? Quanto vale acreditar que há futuro?

Avaliar e medir atividades criativas e culturais requerer parâmetros que ainda não foram desenvolvidos. Por exemplo: a economia da dança é pequena, talvez a parca soma de bailarinos, coreógrafos e espetáculos.  Mas a economia do “dançar” é grande, pois inclui as festas populares (como o carnaval); a vida noturna; toda “fitness” com seus respectivos equipamentos, espaços, conteúdos, adereços e etc.

Da mesma forma que ao nível micro, do desenvolvimento local, os projetos e suas formas de avaliação e mensuração deveriam ser multidimensionais e ter “capitais” e “moedas” que correspondam a estas dimensões o mesmo acontece no nível macro, dos indicadores de riqueza e desenvolvimento que avaliam estados e nações.

Indicadores que de fato mereçam este nome devem incluir as riquezas e diversidade natural e cultural; os pilares das relações profissionais e pessoais: ética, auto estima, solidariedade e confiança e fatores que garantam qualidade de vida num sentido mais amplo, como o proposto pela Felicidade Interna Bruta do Butão.

Enfim, pela primeira vez na história temos recursos, conhecimento e pessoas para criar o mundo que desejamos e merecemos. O fator mais urgente para que possamos aproveitar essa oportunidade rara, e que fica ainda mais urgente e explícito diante da crise causada pelo financismo predatório, significa talvez uma re-invenção da economia.

Estamos saindo de um momento, que trouxe muita inovação onde os vários setores e linguagens tiveram que se “economicizar” para um momento em que a economia necessitará se ampliar e fazer jus ao Eco que carrega no nome, que vem de Oikos (casa, lar) como na Ecologia. Uma nova Economia para a gestão dos recursos abundantes que os intangíveis e a tecnologia oferecem, num mundo baseado na percepção de nossa interdependência e, portanto, ciente que a chave está na cooperação. Uma nova economia Inclusiva, cuja dinâmica venha da relação harmônica entre macro economia de escala e a micro economia de nicho. Uma nova economia que vai necessitar novas medidas, moedas e indicadores.

Temos a capacidade de fazer isso, só precisamos a escolha. Para que no futuro não se olhe para o momento atual com a mesma incredulidade com que olhamos para fatos do passado onde a crença cega na cultura vigente gerava miséria e destruição.

* artigo elaborado para  o livro “Gestão do Conhecimento – Compêndio de Indicadores de Sustentabilidade de Nações”


Diretora-presidente da Enthusiasmo Cultural, coordenadora do Global Committee on Creative Economy e diretora de cooperação internacional do Instituto Pensarte.

5Comentários

  • Carlos Henrique Machado, 17 de janeiro de 2009 @ 11:49 Reply

    Que tipo de equívoco atual será olhado como um absurdo que causou dor, destruição, miséria?

    Oi Lala!
    Acho que tem, nessa sua preciosa observação, que colei acima, a chave central das grandes questões. Onde a barbárie humana nos retrata primatas, subsidiada pelo nosso instinto de sobrevivência canibal. Acho que confiamos excessivamente em técnicas para buscar triunfo no domínio da irracionalidade instintiva.

    Entramos nessa banheira no precioso julgamento, porém ineficaz, de que a nossa rigidez moral conviverá com a massa de água que completa a bacia, pura retórica. O nosso mesmo instinto nos avisa que essas duas massas corpóreas se chocarão e, pela própria flexibilidade que a água nos apresenta, mergulhamos com a nossa rigidez conceitual formada pelo mais puro sentido clássico das regalias e, literalmente, jogamos a água para fora da bacia. Essa coisa tão cristalina e indispensável à vida daquele que a invade. Poderíamos dizer que, com o tratamento clorado, compartimentaríamos o excesso em potes hermeticamente fechados, sem o menor risco de qualquer vazamento que possa enferrujar os utensílhos comprados em alguma grande “sale”.

    De fato a convivência harmoniosa entre o homem e a natureza é regra fundamental para a sobrevivência futura. Esse dever de casa que tem como gesto principal o aperto de mão, como obra da síntese do equilíbrio, tem ainda muito o que caminhar.

    Ainda ontem, li no site do MinC que ele fortalecia essa idéia separatista de produzir um pensamento bizonho da certificação de um grupo das dinastias dos faraós brancos do universo classista.

    Fico aqui a pensar, nessa terra de caboclos, caiçaras, candombes e candonblés de múltiplos códigos, marcas, símbolos, logos, o que seria mesmo clássico nesse universo tão remexido? O desdém a essa bem-aventurada pacividade é sempre golpeada por algum tipo de manifestação de clubes, círculos, xenofobias bairristas, estatutárias, de colorações de sangue que crê que o céu é da cor da nobreza e que, portanto, eles merecem o mesmo na terra.

    O daltonismo cínico, mentiroso, faz muita gente, assim como quem não quer nada, suspirar montanhas em nossos trópicos e, quando descem, creem mesmo nas savanas brasileiras, no encontro com jacarés, canibais, num trocadilho de mau-gosto onde a sociedade se diz alta nas alturas de Campos do Jordão, no seu primor de conceituaçao limitada, num festival de canecos de cristal, da choupana que embebeda os críticos que que veem a rasteira que o país quando se joga nos braços do esquadro universal, técnica ou subjetividade absoluta e irrestrita.

    Esse vento tão propositadamente sem direção e inversamente proporcional às brisas naturais do Brasil que acalma as caravelas, as pipas e equilibra as gaivotas naquele bailar que nos faz sonhar, é apedrejada por uma escuderia que crê que do alto de alguma torre nos observa e nos bombardeia com suas cirurgicas ações. Haverá, na marra, um equilíbrio, pois, se o homem não tem juizo, a natureza tem.

    Leonardo Boff, em um belo artigo na Carta Maior, nos apresenta o resultado que pode ser até contestato, porém jamais ignorado, de que a produção industrial ultrapassou 30% dos limites da terra e que teremos que reeditar a nossa relação com o caminho sem volta da escassez das nossas reservas naturais.

    Então, o que faremos quando voltamos à bacia? Igualaremos as trincheiras rígidas e ferver a água para que não seja invadida pelo nosso corpo, ou seria melhor congelá-la para ter peridade rígida com o corpo estranho que desmonta a sua unidade? Essa é uma questão fundamental que, se não sabemos o caminho do acerto, com certeza sabemos o do erro. Ele é tão gritante, tão escandalosamente horrível que zune em nossos ouvidos, que nos aterroriza a visão e nos joga num presente de sombras, onde a arrogância humana tão feroz quanto o instinto da sobrevivência, nos coloca diante da emergência da responsabilidade, não mais com o futuro, mas com uma fatura do passado que nos é cobrada cotidianamente. Nenhuma cerca elétrica nos livrará do pesado retorno de uma péssima ação.

    A inquisição continua, infelizmente. Todos os dias vamos, com a nossa sinceridade particular, escrever o nome de alguma bruxa, algum desafeto estético/social para continuarmos a nossa escala rumo a uma sonhada nação das elites, onde todos, ao final da cruza, desfilarão ao lado da cavalaria para festejar, entre pardais e pombos, o boulevard brasileiro.

  • Rafael Gonçalves, 20 de janeiro de 2009 @ 11:05 Reply

    Nossa! Adorei teu artigo… e espero contribuir com o Pensarte neste conexão criativa à que temos por desafio tecer entre todos.
    Abs

  • Jorge D'Almeida, 22 de fevereiro de 2009 @ 22:26 Reply

    Oi Lala, desde que fizeste uma palestra sobre economia criativa para os alunos da Faculdade Estácio de Sá em Vitória ES (primeiro semsetre 2008) estou para “garimpar” artigos seus para inspirar matérias para o blog semgastura, porém a correria de todos os dias sempre me fez adiar a pesquisa. Hoje, em pleno domingo de carnaval, enquanto buscava mais informações sobre o “ócio criativo” acabei me defrontando com a “economia criativa e a reinvenção da economia” por Lala Deheinzelin. Reconheço que há uma diferença enorme entre o Ócio Criativo e a Economia Criativa, mas ambos assuntos são pertinentes e atuais para serem amplamente divulgados. Um forte abraço.

  • Olho-de-corvo » Luiz Carlos Garrocho » Economia da cultura: do mercado e da proteção à diversidade, 6 de abril de 2009 @ 12:11 Reply

    […] Há um texto de Lala Deheinzelin intitulado Economia criativa e reinvenção da economia, que nos traz elementos novos para a análise do tema,do qual reproduzo um trecho: “O […]

  • Daniela, 22 de julho de 2009 @ 12:14 Reply

    Olá, gostei muito deste texto. Estou pesquisando sobre economia criativa a pouco tempo, tenho lido muito e neste texto gostei muito do momento onde fala-se que o “foco em resultados deve ser ampliado para avaliação de impacto…que beneficios foram gerados nas outras dimensões além da econômica. … Quanto vale a auto-estima de uma comunidade? Vidas poupadas…”. Em um mundo de baixa auto-estima, o retorno seria milagroso. Agora tenho um comentário a fazer, com meu humilde nível de conhecimento na área, de principante mesmo, mas não deveríamos começar a escrever estes textos tão ricos em um linguajar mais popular – e divulgá-los em ambientes mais “populares” para começarmos de vez uma reflexão de massa sobre o assunto? Acredito que tem MUITA gente que não conhece esses conceitos e que tem muito potencial em participar e colaborar para que eles saiam do papel – desde que tenham acesso, em uma linguagem mais simples. Deixo aqui “my two cents”… Boa semana!

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