Chefe do departamento de Economia Criativa da UNCTAD, Edna dos Santos esteve recentemente no Brasi e fala sobre indústrias criativas e a experiência de trabalhar na ONU
A Economia Criativa e as Indústrias Criativas têm sido vistas como estratégias fundamentais de desenvolvimento para os tempos atuais. O assunto vem sendo inclusive pauta freqüente na agenda do Ministério da Cultura do Brasil.
Edna dos Santos tem muito a opinar sobre o assunto, pois ocupa o cargo de chefe do Departamento de Economia Criativa da UNCTAD (Organização das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento).
Foram muitos anos de empenho e estudo para chegar a essa posição. Depois de se formar em Administração de Empresas e Economia no Rio de Janeiro, esta carioca resolveu alargar seus horizontes com uma viagem de alguns meses pela Europa. Encantou-se com Paris e na volta ao Brasil se candidatou a uma bolsa de estudos do governo francês para o curso de mestrado em Relações Internacionais no Instituto Internacional de Administração Pública de Paris.
Selecionada, em 1981 partiu para a Europa com a firme intenção de voltar para o Brasil, depois do curso, para reassumir seu cargo de economista mineral na Companhia Vale do Rio Doce. Mas as coisas aconteceram de outra maneira. O curso de mestrado foi seguido por um curso de especialização em Comércio Internacional na renomada Sorbonne, em 1982, e a trajetória de Edna sofreu uma guinada.
Durante uma viagem de três semanas à sede da ONU, em Genebra, com o objetivo de ver de perto o funcionamento da organização, Edna visitou a UNCTAD. Lá ficou sabendo que precisavam de uma pessoa com o seu perfil para assumir o cargo de chefe do departamento de minério de ferro.
Seis meses mais tarde, Edna assumia o cargo. “Foi a melhor oportunidade que tive na vida. Trabalhar na ONU é uma coisa maior, porque além da tua contribuição objetiva, do teu trabalho, existe a dimensão ideológica. O trabalho da gente assume proporções enormes e você se sente parte desse todo que está tentando fazer as coisas mudarem no mundo.”
Essas proporções ficaram ainda maiores quando, em 1995, o embaixador brasileiro Rubens Ricupero assumiu o cargo de secretario geral da UNCTAD e nomeou Edna para a chefia de gabinete. “Passei a ter uma visão muito geral da organização, uma visão do todo. Assumi uma posição mais política e menos técnica e isso foi um aprendizado maravilhoso e enriquecedor tanto intelectual quanto profissionalmente.”
Quando Ricupero deixou a secretaria geral, em 2005, Edna resolveu deixar o gabinete. Apesar de considerar o trabalho que fazia “fascinante” , decidiu que estava na hora de mudar o ritmo. Sua experiência a colocou numa situação privilegiada, podendo optar pela área dentro da UNCTAD pela qual se sentisse mais atraída. Edna resolveu entrar numa área relativamente nova, a da Economia Criativa.
Para quem não esta familiarizado com o assunto, incorporado ao programa da UNCTAD, ele tem como objetivo olhar tudo o que é vinculado às artes e à cultura, tudo que envolve talento e criatividade, sob o prisma de estratégia de desenvolvimento econômico. Os esforços se concentram na tentativa de sensibilizar os países em desenvolvimento do grande potencial deste setor como conquista de novos mercados e estratégia de desenvolvimento.
O que mais atraiu Edna para essa área foi a chance de poder desbravar e desenvolver um novo enfoque dentro da UNCTAD. “O desafio é fazer esse trabalho de alicerce, de construção a diversos níveis.”
Sob a perspectiva da UNCTAD, a Economia Criativa é um tema multidisciplinar que engloba outros aspectos além da cultura e da economia. E entre esses outros aspectos o que parece merecer uma atenção especial por parte de Edna é o da inclusão social. “Muitos empreendedores culturais e artistas têm uma posição marginal na sociedade porque seu trabalho não é reconhecido… os criadores são pessoas que trabalham, desenvolvendo uma atividade econômica, e precisam ser reconhecidos também nesse sentido.”
O empenho maior esta em disseminar uma visão mais integrada dessa área no conjunto da economia de um país, para que as ações possam ter um impacto maior. Na visão de Edna é importante que todos os produtos e serviços oriundos da Economia Criativa não sejam vistos apenas como produtos estéticos mas sim geradores de emprego, renda e, principalmente, divisas.
Como uma das estratégias para fortalecer estas associações, o sistema ONU tem como uma de suas estratégias a criação de um Centro Internacional de Economia Criativa, que encontrou no Brasil o seu parceiro e deverá estar operando ainda este ano em Salvador, na Bahia. Uma iniciativa que volta a aproximar Edna de suas raízes. “Acho um desafio extremamente positivo esse contato mais direto com o Brasil. Sou funcionária da ONU mas às vezes aqui no Brasil as pessoas têm dificuldade em entender que tenho um posto diplomático mas não sou diplomata do Brasil. Não represento a posição do Brasil na ONU, mas trabalho para todos os países que fazem parte dela. Mas, evidentemente, quando a gente faz coisas para o seu próprio pais o coração bate mais forte.”
Edna encara com tranqüilidade o enorme desafio de ajudar o Brasil e outros países em desenvolvimento a resolver seus problemas e poder realizar parte de seu potencial através da Economia Criativa. “Quero sentir que meu trabalho faz uma diferença na vida das pessoas.”
Duce Maltez