Conseguir o patrocínio de R$ 2,5 milhões da Petrobras foi um acontecimento quase surreal para a Associação Brasileira de Festivais Independentes.
Conseguir o patrocínio de R$ 2.500,00 milhões da Petrobras – através da lei Rouanet – foi um acontecimento quase surreal para a Abrafin – Associação Brasileira de Festivais Independentes. Contudo, como esse aporte de dinheiro obtido pelos produtores será utilizado no aperfeiçoamento e desenvolvimento desses pólos de cultura? De que forma a gestão realmente ira atender as necessidades e aspirações dos artístas, aqueles que fazem a bola rolar encima dos palcos. E, mais ainda, como a Abrafin vai agir na melhoria da infra estrutura dos eventos, contemplando toda a cadeia produtiva que envolve os Festivais igualitariamente?
Fabrício Nobre, presidente da entidade, disse em recente entrevista ao Cultura e Mercado, que vai priorizar a melhora da infra estrutura e remunerar todos os envolvidos no processo. Do outro lado, como os artístas acham que a Abrafin deve gerenciar essa verba? Quais as necessidades e demandas deles nesse momento histórico jamais vivido no Brasil?
O citarista Alberto Marsicano, um dos mais polêmicos e talentosos músicos independentes do país, escritor e tradutor de Rimbaud e Willian Blake, em primeiro lugar faz questão de deixar claro que independente é diferente de altenativo: “Existem artístas que são independentes, mas não são alternativos. Vendem muito e depois largam a grande gravadora para ter seu próprio selo, como o Pato Fú”. Ele afirma que, paralelamente a cultura massificada produzida pelo maintreain – calcada no lucro das corporações transnacionais – existe uma corrente de arte alternativa que não depende da indústria de massa, mas que precisa de ajuda.
Segundo Marsicano, essa massificação cria uma matrix de cópias em série, matando a expressão das manifestações locais. “No Brasil precisamos fortalecer a estrutura dos polos de cultura independente. Na Alemanha, por exemplo, existe um canal de TV Punk e uma rede de amparo à arte independente que reúne jornais, rádios, revistas, casas de produção, clubes, teatros, etc. Uma das coisas que se pode fazer aqui é juntar pessoas e realizar algo parecido. Espero que esse patrocínio da Petrobras seja o começo da criação de uma infra estrutura forte para a cultura independente”.
O músico espera que a Abrafin realmente saiba usar a verba chamando mais artístas e melhorando as condições de trabalho deles. “Ísso é louvável. Sabemos como é difícil conseguir aprovação de projetos, então, nós desejamos que o dinheiro seja bem utilizado, levando-se em conta as demandas de quem faz o show, principalmente.
O correto seria as grandes empresas serem obrigadas a investir 10% de seu faturamento na cultura, como acontece em alguns países, como nos EUA, por exemplo”. Um dos pontos que ele enfatiza é a necessidade de acabar com o preconceito que há em relação ao punk e o gótico, na aceitação e no apoio a seus Festivais e eventos, que além de música mostram também literatura, jornais e revistas.
Para Cris Escudeiro, vocalista da Banda Irmandade do Som, de São Bernardo do Campo (SP), e apresentadora do programa NGT Independente, no canal 48 UHF, “falta uma rede de lugares para tocar nas cidades menores, que representam uma boa fatia do mercado. Ao mesmo tempo, os Festivais Independentes precisam ceder espaço para mais artístas porque o que parece é que são sempre os mesmos que tocam, mesclados com grupos locais. Acredito que os Festivais são ótimos como marketing para o artísta, porque, algumas vezes, ele tem que tirar dinheiro do bolso para participar. Espero que esse patrocínio dê as condições de trabalho para todos de forma igualitária”.
A vocalista ainda ressalta que tocar de graça pode até dar visibilidade, mas acaba não compensando num mundo que tem o Youtube e o Myspace. Cris diz que, em São Paulo, pela grande quantidade de bandas e músicos, existem os que tocam de graça e deixam “mal acostumados os bares e clubes. Ai você tem que fazer a promoção e levar seu público para ganhar do couvert”.
Cris salienta que os artístas precisam se valorizar, se unir, para que coisas como essa não aconteçam. Dá uma alfinetada na Ordem dos Músicos do Brasil, que, de acordo com ela, não funciona. “A OMB não fiscaliza nada e cobra muito dos músicos”. Diz que a Irmandade do Som conquistou espaço aos poucos e, principalmente, por meio da Internet.
“Pela Internet divulgamos, conseguimos patrocínio para o CD e, ainda, conseguimos um horário no canal 48UHF, depois de mostrarmos um vídeo lá. Levamos um projeto e eles toparam. Ganhamos também uma cota no marketing do programa. Isso foi bom porque apenas um membro da banda tem um emprego fixo. Os outros vivem de arte”, analisou.
A forma como a verba federal é destinada à cultura é questionada pela vocalista. “A cultura fica atrás de todas as demandas do Brasil, mas o Governo sabe que através dela muita coisa pode ser melhorada no país. Acho um absurdo a Lei Rouanet dar dinheiro para a Ivete Sangalo e a Vanessa da Mata, que não precisam. E também, quando dão verba para a produtora da Paula Lavigne, ela chama o Caetano para fazer a trilha, o que é uma incoerência na gestão desse dinheiro”.
Ela, assim como Marsicano e a maioria dos artístas independentes, espera que a Abrafin use a verba de forma correta e democrática, especialmente atendendo as demandas dos independentes de verdade. Fora os Festivais, Cris pede que o Minc. ajude os artístas independentes a produzir shows, viajar, dando condições para o intercâmbio de culturas e o desenvolvimento de pontos de criação de cultura pelo Brasil.
O baterista da banda Vanguart – um dos destaques da cena independente – Douglas Godoy, diz que o patrocínio conseguido pela Abrafin “começou a se cristalizar com os Festivais dos anos 80, que foram o embrião do que se consolidou a partir de 2000. O mais importante é a concretização de uma estrutura que seja boa para os artístas, incentivando novas bandas e melhorando a divulgação dos Festivais e dos grupos”.
O gás novo na divulgação é ressaltado por Douglas como essencial para o desenvolvimento de um circuito independente maduro, na medida que, de forma geral, a visibilidade da cultura alternativa ainda está restrita a um núcleo pequeno de pessoas e a uma mídia segmentada. Segundo ele, o patrocínio é um incentivo a mais para as bandas correrem atrás e trabalharem melhor. “A grande mudança é esse degrau que surgiu e que pode permitir a profissionalização da cena, porque falta muito dessa parte”, explica.
Apesar do patrocínio ser bem recebido, Douglas afirma que o circuito ainda é precário. “Com a criação da Abrafin começamos a sair da precariedade. O Goiânia Noise existe a mais de dez anos e só há quatro anos ficou mais conhecido, até então era um Festival de bandas locais. O Fabricío foi visionário quando começou a levar artístas que estavam por ai, largados, tocando em bares, fomentando essa mentalidade de organização mais estruturada”.
Dessa forma, todo o circuito que estava meio perdido, começou a pensar junto refletindo uma necessidade comum. Porque que não é um Festival sozinho que vai conseguir gerar mais pontos de cultura independente, de forma que se melhore a infra estrutura, se pague todos os participantes e se invista fortemente numa divulgação a nível nacional e internacional.
Ele aconselha que os produtores e artístas olhem o exemplo dos americanos e europeus: “Acredito que, tanto os europeus como os americanos, são um bom exemplo. Criaram uma rede de cultura alternativa que permite que as bandas independentes sobrevivam de música, tocando quase o ano todo em várias cidades e países. Devemos ser mais efetivos e termos mais cuidado com a estrutura e o profissionalismo”.
Douglas enfatiza que a primeira coisa que alguém que vive da música precisa é de condições de trabalho e remuneração digna. “Tem que acabar com essa coisa do som estar bom e o palco ruim, acomodações precárias e grupos que tocam de graça em troca de hospedagem. Acho difícil atingir a perfeição, mas é possível dar conforto aos artístas e ao público”, conclui.
Dum De Lucca – especial para Cultura e Mercado