EDUCAÇÃO E CULTURA – Livros para sobremesa

Investimentos na melhoria da educação deve ser a linha condutora para transformações do mercado literário, com incentivo do Mais Cultura.

No último dia 4 de outubro, o Plano Nacional do Livro e Leitura recebeu novos incentivos. O Programa, parceria entre os Ministérios da Educação e da Cultura, foi inserido ao audacioso Programa Mais Cultura, que integra a Agenda Social do governo federal até 2010. As principais intervenções visam nada mais nada menos que a implantação de bibliotecas públicas em todas as cidades brasileiras. Atualmente, 613 cidades não possuem acesso público a livros.

Além disso, o programa prisma em aumentar o estímulo e a elevação do índice de leitura do brasileiro em 50%. Hoje, em média, lê-se no país 1,8 livro por ano. Na Finlândia, que tem o maior índice de leitura por pessoa, a média é de 26 livros. Na França, são 7, nos EUA passa de 5, e na Bolívia a norma são 2,4 livros por habitante/ano.

Exemplo de Bogotá
Mesmo achando válidas as iniciativas governamentais de incentivo ao acesso ao livro, o autor da jovem geração,
João Paulo Cuenca , aposta na melhoria da educação e na qualificação das pessoas como caminhos que melhorariam o interesse à leitura e ampliação do hábito em ler. Cuenca afirma que bons leitores só virão com educação de base forte e com professores que incentivem ao prazer em ler. Ele alega que muitos planos falham por investirem apenas na publicação de livros, e não na capacitação do leitor.

Como modelo a se inspirar, Cuenca apontou a política pública educacional aplicada em Bogotá, capital da Colômbia. Lá, segundo apontou o autor que participou de encontro com jovens promessas da literatura latino-americana, todas as escolas são equipadas com as infra-estruturas básicas para excelente rendimento dos alunos. “Há até preocupação maior em colocar escolas melhores em bairros mais pobres”, comenta.

Para o autor, esse investimento na educação capacita o leitor e faz que o nível de leitura e da qualidade da obra lida melhore. “Em Bogotá, uma cena me chamou a atenção, uma vendedora em uma barraca na rua, estava lendo Sófocles enquanto trabalhava”, exemplificou.

Cinqüenta anos em cinco
Também favorável à reestruturação educacional, o autor da polêmica biografia do Roberto Carlos, Paulo César Araújo comentou sobre a entrevista do ministro da Educação, Fernando Haddad, concedida recentemente à revista Veja. Na visão do autor, e também professor de história, há um certo frenesi por parte do ministro em tentar atingir os índices alcançados pela Coréia em educação nos últimos trinta anos em apenas quinze, como afirmou na entrevista.

Para Araújo, essa visão do ministério remete ao pensamento do JK, de prosperar cinqüenta anos em cinco. O professor conclui que nunca houve prioridade em investimento na educação. Chamou a atenção para a visão de gestão do período militar, que, segundo apontou, visava a construções faraônicas em nome do progresso. “O pensamento da época era: governar é construir estradas”.

Outro fator que o preocupa é a transição do governo, que segundo teme, pode colocar o projeto a perder. Ainda comenta que nenhuma melhoria será feita em menos de trinta anos, mas que as reformas têm que começar, e já. “Quando Darcy Ribeiro falava isso, ninguém escutava. Foi necessário o Emílio de Moraes pedir. Luciano Huck pedir”, comentou.

Acesso ao livro
Muito se fala do hábito e prazer de leitura, mas as condições socioeconômicas no Brasil ainda são fatores de exclusão à leitura. Obras caras, mercado puxado por estrelas de vendas – geralmente com destaque nos meio de comunicação, mais pelo seu carisma que pela qualidade da obra – ou traduções de qualidade duvidosa, falta de bibliotecas e de exemplos de leitura em casa, são barreiras para reverter o cenário atual.

Paulo César Araújo considera a falta de familiaridade que os alunos, principalmente das escolas públicas, têm com o livro. Ele diz que, na maioria das vezes, os pais dos alunos não têm o hábito de ler, por isso há resistência e falta de interesse por parte dos jovens. O autor analisa, ainda, certo distanciamento entre os livros didáticos e os alunos, que, segundo verifica, está longe da vivência e do repertório da maioria dos educandos. Além da erudição de certas obras obrigatórias nas escolas, que não despertaria o interesse e o hábito constante em aventurar na atmosfera da leitura.

O primeiro livro
Ao relembrar sobre a primeira obra que leu, Araújo emocionou-se. Contou que, de família humilde, seus pais não tinham hábito em ler, e ganhou de um tio, aos 12 anos, a obra Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcellos. O autor analisa o impacto da obra em sua vida, que teria mudado os seus rumos. Devido a obra, ele começou a furar o bloqueio econômico ao acesso à cultura, indo a bibliotecas e se aprofundando nas leituras.

“Se esse livro teve impacto com um garoto de 12 anos, a ponto de mudar sua vida, porque não o utilizam em salas de aula?”, pergunta Araújo, intrigado. Ele comentou ainda sobre a dificuldade de um jovem de idade escolar em entender Machado de Assis, devido a toda fragilidade do sistema de ensino. Indicou propostas de alimentar nos jovens a busca por literaturas que se enquadram no seu universo, tais como aventuras e temáticas atualizadas.

A Internet
Muitos pesquisadores de comunicação indicam a forma escrita da Internet, mesmo que muito próxima da oralidade, como um novo paradigma na forma de fazer e consumir literatura. Inserido nesse panorama, o fenômeno dos blogues não pode ficar de fora. Muitos escritores da novíssima geração abraçada pelo restrito mercado literário vieram deste universo. A interatividade e imediata aceitação – ou não – do público são marcadas por muito como principal norteador deste recente feito midiático.

Não por acaso, a internet faz parte dos planos do Mais Cultura para cativar o hábito da leitura entre os jovens. Escritora dessa onda de convergências tecnológicas, Clarah Averbuck se aventurou na literatura por intermédio da rede de computadores e hoje é usuária dos blogues. Clarah disse que conhece, no mínimo, cem adolescentes que não gostavam de ler, e por meio da página da autora descobriu o caminho das letras.

A autora comenta que além da linguagem da Internet ser mais a “cara” dos jovens, as indicações de livros e autores, postadas no blogue dela, ajudam a direcionar as leituras e aguçar o gosto dos adolescentes. Clarah ainda relaciona a internet com o movimento de literatura independente que mudou o cenário mercadológico nos anos 80.

Ler por indicações
Um dos problemas mais comuns para quem gosta de ler é saber como procurar bons livros. E, aí, vale de tudo um pouco. Correr em sebos, ler os cadernos de cultura e lazer dos jornais, livrarias, atualmente páginas da WEB, enfim, mas o mais eficaz é a indicação de amigos.

Sobre este cenário, a escritora Fernanda Young, é taxativa – há poucas publicações, cadernos especializados e literatura específica, sem preconceitos ou jabás, que informem os lançamentos dos livros que chegam ao mercado, que segundo avaliou vive um bom momento.

Fernanda, que diz ter um público cativo de 10 mil compradores por obra lançada, questionou a quantidade de grandes jornais, no eixo Rio-São Paulo, que possuem os chamados segundos cadernos. Ela afirma que apenas quatro grandes jornais ditam as regras de e para um pequeno grupo privilegiado, a qual ela e a maioria da população não fazem parte.

Eduardo Henrique Brandão – 100canais
conteúdo compartilhado em 100canais.org.br

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