Eles têm tempo para se envolver, paciência para ouvir, experiência para compreender e sabedoria para julgar. Em muitos aspectos, os idosos são o público dos sonhos de qualquer artista. No entanto, estão, em boa medida, excluídos da vida cultural do estado de São Paulo. Dados da pesquisa Cultura em SP, que em 2014 ouviu quase oito mil pessoas em 21 municípios paulistas, revelam que as pessoas com mais de 60 anos são as que menos realizam atividades culturais nas cidades analisadas.

O levantamento, idealizado pela consultoria JLeiva Cultura & Esporte e realizado pelo Instituto Datafolha, mediu a frequência com que os entrevistados praticam 18 atividades culturais. Em 17 delas, os entrevistados com mais de 60 anos foram os que menos realizaram essas atividades nos 12 meses anteriores.

A exclusão cultural dos idosos fica ainda mais evidente quando se olha para o percentual de pessoas que disseram nunca ter realizado cada atividade. Enquanto apenas 5% dos entrevistados de 12 a 24 anos nunca entraram em uma sala de cinema, a proporção salta para 19% entre aqueles com mais de 60 anos. Se 12% dos jovens disseram nunca ter ido a bibliotecas, o percentual sobe para 38% entre os mais velhos. E, enquanto cerca de um quarto dos jovens ouvidos pela pesquisa (23%) nunca foi ao teatro, esse percentual é de quase metade (44%) dos idosos.

A baixa presença dos idosos na vida cultural paulista preocupa pois o Brasil é um país em rápido envelhecimento. O percentual de pessoas com mais de 60 anos passou de 4,4% da população em 1991 para 8,6% em 2000 e 11% em 2010, segundo dados dos censos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesses anos (as proporções no estado de São Paulo são quase iguais).

“O Brasil hoje é um país com uma população idosa. Segundo a ONU, uma população é considerada envelhecida quando atinge um percentual de 7% de idosos”, afirma o sociólogo, gerontólogo e epidemiólogo do envelhecimento Marcelo Antônio Salgado, autor do livro “Velhice, uma nova questão social” e ex-gerente de Estudos e Programas da Terceira Idade do Sesc São Paulo.

Por que, então, um público em crescimento, com tempo de sobra para frequentar museus, cinemas e teatros, está majoritariamente ausente desses espaços? Em primeiro lugar, por causa dos baixos níveis de renda e escolaridade. Os dados da pesquisa Cultura em SP mostram que a terceira idade é o grupo com os menores índices nesses dois quesitos entre todas as faixas etárias. E quanto menor a renda e a escolaridade do entrevistado, menos ele frequenta espaços culturais.

A renda apertada torna o consumo de cultura proibitivo, afirma Salgado: “Em todos os países com populações significativas de idosos, esse grupo compõe o segmento mais pobre da população. Isso acontece sobretudo no Brasil, onde a desvalorização da aposentadoria faz com que esse segmento caminhe constantemente para a pobreza. Mais de 70% dos idosos ganham de um a três salários mínimos e precisam fazer frente a todas as suas despesas com essa renda. Então, cultura passa a ser uma coisa quase inacessível. É utópico falar de cultura para esses aposentados”.

Velhos hábitos – A falta de dinheiro, no entanto, está longe de ser o único fator que afasta os idosos dos espaços culturais. A questão econômica foi apontada por menos de 15% dos entrevistados com mais de 60 anos como a principal barreira para não ir a cinemas, teatros, museus e exposições. O principal motivo, alegado por metade dos idosos entrevistados, foi falta de interesse ou de costume em frequentar esses espaços. Aliás, o grupo com mais de 60 anos foi o que demonstrou menor interesse por 17 das 18 atividades analisadas pela pesquisa.

Esse desinteresse, segundo Salgado, é decorrência de hábitos adquiridos ao longo da vida: “Boa parte do que ocorre na velhice é resultado de coisas que aconteceram em etapas anteriores do ciclo de vida. A prática de atividades culturais pode não ter existido por problemas econômicos, deficiência cultural, falta de estudo ou dificuldade de acesso a bens e serviços da comunidade. Como a cultura e o lazer não fizeram parte do seu cotidiano, não houve uma educação para tal e isso não vai acontecer na velhice”.

As diferenças de hábitos culturais entre jovens e idosos, portanto, podem ser reflexos das transformações pelas quais o Brasil passou nos últimos 50 anos, como o aumento do acesso à educação. Uma pessoa que completou 60 anos em 2014, por exemplo, entrou na escola por volta de 1960, quando apenas 49,3% das crianças de 7 a 14 anos frequentavam uma instituição de ensino, segundo dados do IBGE e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em 2000, esse percentual havia praticamente dobrado, chegando a 96,4%.

Dependência e acessibilidade – Além das barreiras econômicas, educacionais e culturais, muitos idosos têm limitações físicas que os impedem de realizar determinadas atividades sem a ajuda de terceiros. Por isso, a antropóloga Guita Grin Debert, professora da Unicamp especializada em estudos sobre a velhice, acredita que a exclusão cultural não é algo que afeta toda a terceira idade, mas sim aquelas pessoas que têm algum tipo de deficiência física. Ela defende que um estudo dos hábitos culturais da terceira idade deveria analisar de forma separada os idosos com e sem autonomia funcional.

“Se você pensa nessa terceira idade que tem autonomia funcional, a sociedade brasileira é muito acolhedora, porque o idoso paga meia entrada, tem muita coisa de graça. Agora, ela é terrível para quem tem a dependência funcional. Essas pessoas precisam de um cuidador, não têm autonomia para ir ao cinema. Então a exclusão é mais das pessoas velhas que não têm independência”, afirma Guita. De acordo com o censo 2010 do IBGE, 58,7% dos paulistas com mais de 60 anos têm algum tipo de deficiência física.

A própria dificuldade em frequentar espaços culturais acaba gerando desinteresse, na opinião da professora. “Aquelas pessoas que não têm independência funcional acabam se desinteressando, porque fica muito difícil sair de casa. Aí ela prefere ficar em casa, no máximo vendo televisão”.

Essas limitações transformam a falta de acessibilidade de um espaço em um importante fator de exclusão, como lembra o especialista em Linguagens da Arte e mestrando em Estudos Culturais pela USP, Diego Miguel Félix. “O espaço cultural precisa estar equipado para garantir a segurança do idoso e oferecer uma experiência prazerosa”, afirma ele. Para isso, precisa estar adaptado para cadeirantes, pessoas com mobilidade reduzida e deficientes visuais e auditivos.

O esforço para atrair as pessoas mais velhas, no entanto, não pode segregá-las do resto do público. “Achar que o idoso tem que estar em espaços específicos para ele é um preconceito muito recorrente. É preciso favorecer a inclusão do idoso em todos os espaços”, alerta o pesquisador.

Espaços conscientes – Apesar de todas as barreiras, vários equipamentos culturais e órgãos públicos do estado de São Paulo já se preocupam com a inclusão cultural da terceira idade. “Hoje as prefeituras, o governo do estado e algumas entidades privadas já têm isso um pouco mais naturalmente”, afirma a atual gerente de Estudos e Programas da Terceira Idade do Sesc São Paulo, Cristina Madi.

A própria instituição que Cristina representa é um exemplo disso. Em 1963, o Sesc São Paulo criou o primeiro programa de Trabalho Social com Idosos do Brasil e se tornou um importante polo de atividades para a terceira idade em todo o país. Agora, a entidade se esforça para cumprir uma meta ambiciosa: chegar ao fim de 2016 com um índice de 99% de acessibilidade em todas as suas unidades.

Preocupação semelhante pode ser vista nos teatros municipais de São Paulo e Campinas, que incorporaram mecanismos de acessibilidade nas recentes reformas pelas quais passaram, e em outros importantes equipamentos da capital, como Centro Cultural Banco do Brasil e Memorial da América Latina, ambos com altos níveis de acessibilidade. Outro sinal da preocupação com a inclusão cultural da terceira idade são as atividades realizadas pelas coordenadorias de idosos de prefeituras como as de São Paulo, Santos e Ribeirão Preto.

Os esforços para aumentar a participação do idoso na vida cultural, no entanto, ainda esbarram em algumas barreiras difíceis de superar, como reconhece Cristina. “Estamos realizando uma pesquisa com os idosos que frequentam o Sesc no estado de São Paulo e há uma percepção da parte deles de que a programação cultural de uma forma geral é voltada para os jovens. Em geral, o idoso não se sente convidado. Ele não se reconhece naquilo pela linguagem com a qual a informação chega para ele”.

Por isso, a batalha para despertar o interesse do idoso e atraí-lo para os espaços culturais ainda é longa. Para atingir esse objetivo, o segredo é incluir sem segregar. “A comunicação precisa, ao mesmo tempo, falar com o idoso e não discriminá-lo. É uma linha tênue”, conclui Cristina.

*Essa é a segunda de um conjunto de reportagens sobre indicadores que Cultura e Mercado publicará nos próximos meses. A série vai se basear nos dados da pesquisa Cultura em SP, da consultoria JLeiva Cultura & Esporte.


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Jornalista da PrimaPagina, produtora de conteúdo parceira da JLeiva Cultura & Esporte.

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