Renato Borghi tem 52 anos de carreira teatral. Começando por sua apresentação histórica de “Rei da Vela” na Europa em 1968, já viajou o mundo apresentando peças. Mesmo assim, até o ano passado, pouco conhecia sobre a dramaturgia contemporânea de países de língua hispânica e portuguesa. “Apesar de ser vizinho da Argentina, me dei conta de que não sabia nada sobre sua obra teatral. A gente ainda está na idade da pedra no que se refere à integração teatral”, diz Borghi.
A partir desta percepção, idealizou, ao lado de Elcio Nogueira Seixas, seu parceiro na Cia. Teatro Promíscuo, um projeto inédito de integração teatral entre o Brasil e 18 países de língua espanhola e portuguesa dos continentes americano, africano e europeu, intitulado Embaixada do Teatro Brasileiro.
Começaram a viajar em dezembro de 2009. Em um ano, percorreram 14 países difundindo o teatro brasileiro e pesquisando a nova dramaturgia produzida nesses locais. Passaram por toda a América Latina hispânica, além de Portugal e Espanha. Falta visitar os países lusófonos da África e os EUA.
O projeto nasceu da sensação de esgotamento em relação à arte brasileira. “Quando está faltando revolução de linguagem, nada melhor que recorrer a uma revolução de paisagem”, diz Seixas.
Com apoio do Ministério da Cultura, eles conseguiram R$ 790 mil para iniciar o projeto, concebido como piloto. A partir dele, o MinC se dispôs a abrir um edital anual para outros grupos interessados em difundir a dramaturgia brasileira no exterior.
Borghi, Seixas, um cineasta e um produtor passaram cerca de 20 dias em cada país, fazendo entrevistas com expoentes da dramaturgia local. Gravaram 600 horas de filme. O material deve gerar uma série de televisão, além de um documentário. Também recolheu 800 peças teatrais, a maioria inédita.
O projeto busca mais recursos para ter continuidade. A ideia agora é terminar a pesquisa in loco, compor uma curadoria para selecionar os textos e fazer publicações bilíngues, que incorporem também, em espanhol, a nova dramaturgia brasileira.
“Nosso compromisso é garantir que essa publicação seja uma série para ser lançada até 2016. Se isso não for feito é balela falar em integração”, fala Seixas.
A Embaixada do Teatro Brasileiro será exposta ao público pela primeira vez nos próximos dias 9 e 10 de maio, no Teatro do Sesi (Av. Paulista, 1.313 – São Paulo), quando Borghi e Seixas contarão suas vivências, exibindo imagens captadas na viagem. Após a exposição, será exibido “Medusa”, peça inédita do grupo chileno Teatro La Trompeta, vencedor do Prêmio del Círculo de Críticos de Arte de Chile.
No dia 10 haverá um bate-papo às 17h no mesmo local entre os idealizadores do projeto e os artistas da Cia.
Mostra internacional – Borghi e Seixas apresentaram um panorama do teatro de São Paulo quando criaram a Mostra de Dramaturgia Contemporânea, em 2001. Agora, os artistas planejam realizar a Mostra de Dramaturgia Contemporânea Afroiberoamericana.
Planejada para 2013, a mostra deve fomentar o intercâmbio teatral entre 18 países ao colocar peças brasileiras nas mãos de grupos estrangeiros e vice-versa, além de encenações híbridas.
Para eles, há um abismo entre a produção brasileira, sempre voltada à Europa e aos EUA, e a dos demais países da América Latina. Em suas andanças, Seixas detectou uma tendência que só evidencia a distância entre a dramaturgia do Brasil e de nossos vizinhos. Se nos anos 1960 e 1970 reinava o didatismo no teatro engajado da América Latina, agora o teatro político ganhou humor e contornos existenciais.
O autor chileno Guilhermo Calderón é o grande expoente deste movimento, que se espalhou pelo continente.
“O teatro folclórico e político que chega até nós é feito para exportação”, diz Seixas.
Há muito para ser descoberto sobre o teatro de língua hispânica. Assim como há o tanto quanto ainda há para se conhecer sobre a obra teatral do Brasil lá fora. “Precisamos perder o complexo de vira-lata”, diz Borghi.
*Com informações da Folha Online