ENTREVISTA LIA FERREIRA – “São Paulo foi um laboratório de experiências culturais do PT”

Autora de tese premiada critica primeira administração petista na cidade

Analisar as ações culturais no município de São Paulo no momento em que, pela primeira vez, um partido de esquerda chegava ao poder foi o que motivou a pesquisadora e analista de comunicação, Lia Ferreira. Afinal, novos horizontes pareciam surgir para a cidade após a aprovação da constituição de 1988.

A gestão cultural implementada pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (SMCSP), no período de 1989 a 1992, tornou-se tema de sua tese de doutorado – concluída em 2006. Então, sob a direção da filosofa Marilena Chauí, a pasta almejava substituir o “clientelismo pluralista” pelo “participacionismo popular”.

Em resumo, o projeto pretendia criar mecanismos que dessem aos cidadãos paulistanos maior autonomia e participação nas atividades culturais. Objetivo que, no entanto, não foi alcançado, afirmou a pesquisadora em entrevista ao Cultura e Mercado. Segundo Lia, “a cidade de São Paulo foi transformada em um laboratório de experiências culturais do Partido dos Trabalhadores”.

Na visão da analista, para propor políticas públicas é preciso mais do que alguém em um escritório com ar condicionado estabelecer metas e apresentar propostas. “Requer tempo, dedicação e trabalho árduo para que de fato se chegue a algo concreto”.

No caso da tese, porém, não faltaram aplausos. O estudo rendeu o prêmio Rumos Itaú Cultural de Gestão Cultural. Lia Ferreira, doutora em Ciências da Comunicação e especialista em Políticas Culturais e Gestão para a Cultura pela ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), também foi convidada a ser uma das pesquisadoras do Observatório Itaú Cultural. O espaço, segundo ela, deve abrigar debates que reflitam novos olhares sobre a gestão da cultura no país. Veja a seguir trechos da entrevista.

CULTURA E MERCADO – Fale um pouco sobre o tema de seu doutorado, premiado recentemente pelo Itaú Cultural?
LIA FERREIRA – Os estudos sobre políticas culturais no Brasil são recentes, principalmente aqueles vistos sobre a ótica da comunicação e cultura. A definição do tema teve origem no término da dissertação de mestrado, concluído em 2000, em que realizei um grande levantamento sobre as ações culturais da Universidade de São Paulo. Essa pesquisa foi feita no mesmo período em que fui diretora do Serviço de Cultura da USP e buscava dar respostas aos meus questionamentos. Queria entender a ação cultural na cidade de São Paulo. Para chegar ao tema passei por vários estágios, por exemplo, analisar as políticas culturais do Itaú e SESC e compará-las com as da Secretaria de Cultura do Estado e do Município. Esse tema prevaleceu até a qualificação quando, aconselhada pela banca, restringi o objeto à Secretaria de Cultura do Município, mas precisamente o período em que a Marilena Chauí esteve à frente deste órgão.

CM – Qual a sua avaliação sobre esse período?
LF – Entendo que devemos ter muito cuidado com o surgimento de projetos, aliás, existe uma onda de inventar formas que visam incluir culturalmente os cidadãos. O processo, ao meu ver, é maior. Não bastam ingressos baratos, transportes gratuitos para as atividades culturais que acontecem nas cidades. É mais um erro, esse processo deve ser iniciado junto com a educação, claro levará um período maior, mas penso constantemente que, no Brasil, cometemos um erro ao separamos a cultura (música, teatro, dança cinema, etc), do esporte, do turismo e da educação. É primordial educar para que os demais processos ocorram. Devemos ter escolas públicas de boa qualidade, onde as atividades culturais sejam incluídas. É preciso educar para a cultura e pensar na transversalidade que ela pode dar a cada indivíduo.

Sou contra compartimentar a cultura como algo a que apenas os especialistas nos dão acesso. A cultura existe no povo e com o povo.

CM – Você diz que São Paulo foi transformada em um laboratório de experiências culturais do PT, pode falar mais sobre essa afirmação?
LF – Basta pensarmos que pela primeira vez um partido de esquerda assumia a administração de uma cidade do porte de São Paulo e que anteriormente havia um discurso de como era possível administrar melhor. A esquerda tinha escrito textos e mais textos com teorias sobre as maneiras de proceder nas várias áreas. Mas somente a prática fornece subsídios para atuar na área cultural. Aliás, é a última área em que os governos pensam. A própria Chauí fez uma análise posterior na qual fala que se administrasse novamente o setor teria outra postura.

CM – Você diz que a gestão de Chauí não alcançou os objetivos propostos, qual o porquê do insucesso do projeto?
LF – Entendo que essa participação não foi capaz de dar início a certos processos que poderiam transformar a sociedade. Foi como participar de um grande evento, e até se sentir saciada de cultura e ao sair perceber que esse evento não provocou ou acrescentou nada de novo. Você continua do mesmo jeito que sempre foi, não ocorreu nenhuma mudança.

CM – Como fazer valer o direito à expressão, pluralidade e autonomia cultural do cidadão?
LF – A globalização, ao contrário do que pensam muitos, pode favorecer as culturas locais. Ao incorporar transformações impostas pela globalização o indivíduo responde localmente, porém já acrescido e tendo digerido tudo que a globalização lhe impôs. Quando a sociedade, localmente, começa a realizar ações conjuntas, isso fatalmente chama a atenção de governos e mídias, que as buscam para ver o que esta ocorrendo. É um processo inverso e que já esta em curso, porém a mídia faz o discurso da globalização e ainda não reconheceu a importância desse fenômeno.

CM – Existe um modelo ideal de gestão cultural?
LF –
É uma resposta difícil, mas entendo ser aquele elaborado por grupos diversos, após extenso trabalho junto à população. O que não tenho dúvida é que requer o aval da sociedade. Não é tarefa fácil, até mesmo pelo modelo de administração pública que possuímos.

CM – Você avalia que hoje a sociedade é mais consciente de seus direitos?
LF – Penso que estamos vivenciando um momento mais rico e propício para que os cidadãos constituam organizações que defendam seus direitos, entendo também que no Brasil a imprensa será a grande aliada por seu poder de agilizar esses processos de conscientização. Se deixarmos que a sociedade se organize por ela própria levará muitos anos e perderemos o trem da história.

Carlos Minuano

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