A imprensa está distante da verdadeira cultura brasileira, afirma o jornalista Ricardo Kotscho.
Na mídia, quando se fala em cultura, geralmente, o espaço é ocupado pelas superproduções da grande indústria de entretenimento, enquanto expressões genuinamente culturais são frontalmente ignoradas. Para o jornalista Ricardo Kotscho, 59, a origem do problema está na crise generalizada que o país atravessa e, em seu centro, uma grande crise cultural – resta saber o que fazer. Na visão de Kotscho, a questão está atrelada a diversos fatores, mas, sobretudo, à própria imprensa. “Os veículos de comunicação não estão ajudando a solucionar essa crise cultural que estamos vivendo”.
Nas outras áreas, não é diferente o distanciamento em relação à realidade brasileira, prossegue ele. “Viajo muito pelo país inteiro para fazer reportagens, palestras, acho que poucos repórteres conhecem o Brasil como eu, todos os estados e regiões. Quando volto, vejo que jornais, revistas, televisões, não retratam esses lugares”, observa o jornalista. “Há muito Brasília e pouco Brasil”, afirma. Se a imprensa botasse mais o pé na estrada talvez concordasse com Kotscho em outro ponto: que a raiz dos problemas está na educação. Seja qual for, a solução terá que passar por ela, diz.
Kotscho faz parte do movimento “Todos Pela Educação”, projeto que reúne a sociedade civil, empresas, mídia, organizações sociais, entre outros, em torno de ações que garantam o acesso a uma educação de qualidade, com metas programadas até 2022. Um sinal, segundo ele, de que as pessoas estão tomando consciência de que não basta apenas levar as crianças para a escola é preciso também investir no ensino.
Após rever as memórias de seus quarenta anos de caminhada em Do golpe ao planalto – Uma Vida de Repórter (Companhia das Letras), livro no qual faz um balanço do país e da própria vida, desde os tempos de foca no jornal O Estado de S. Paulo até seus últimos dias à frente da secretaria de imprensa da Presidência, em 2004, o jornalista encara agora outro desafio. Está à frente de uma publicação que pretende manter um foco diferenciado em seu conteúdo editorial. No lugar de celebridades e da agenda batida dos cadernos de cultura tradicionais, reportagens sobre pessoas comuns e, claro, a tal pauta esquecida. Não por acaso a revista se chama Brasileiros.
O papel do jornalista
“A cultura brasileira é riquíssima em qualquer região do país e não tem nada a ver com o que está na mídia. Então, qual seria o papel do jornalista?”, pergunta. Na seqüência, aponta para duas funções que considera básicas: fiscalizar o poder denunciando o que está errado e é mostrar o que tem de bom acontecendo, para servir de exemplo e estímulo para os outros. “A imprensa precisa se repensar”, completa.
Mas com internet, blogs e outros meios de comunicação digital arrebanhando cada vez mais usuários que sentido faz lançar uma revista em papel? Kotscho não vê contradição. “Não importa qual a plataforma, o que faz diferença é o conteúdo. Tendo qualidade a informação pode ser utilizada em qualquer veículo, revista, jornal, site, blog”. Ele alerta ainda que a expansão da internet não elimina a função do jornalista. “Muitos defendem que todos sejam produtores e consumidores de notícia, emissor e receptor ao mesmo tempo. Pelo contrário”, discorda.
Ele reconhece a importância dos meios eletrônicos para a democratização da informação. “Cerca de 30 milhões já tem acesso à rede, e isso deve se multiplicar”. Mas adverte, “a enxurrada de informação disponível o tempo todo tem um lado bom, mas também tem um lado ruim. Precisa de jornalista para organizar essa bagunça”, defende. Claro que o jornal não vai mais poder repetir o que já foi dito na internet ou no rádio, precisa aprofundar os temas. Aliás, é o que justifica a revista Brasileiros, explica. “Queremos contar as histórias do povo brasileiro que não estão sendo mostrada em lugar algum”, finaliza.
Carlos Minuano